[Album Review] Kimbra – Primal Heart (ou A crise chegou em Kimbra e os videoclipes dela quase que não tem orçamento… Será que o seu novo álbum consegue compensar isto??)

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Kimbra é, sem sombra de dúvidas, minha cantora ocidental favorita (pra quem não conhece, é ela a mulher que canta Somebody That I Used to Know com o Gotye). Desde que descobri ela aleatoriamente assistindo ao Rock In Rio de 2013, suas músicas e conceitos visuais cheios de diferentes camadas ganharam meu coração. Agora, depois de  mudar-se para os EUA, assinar um contrato com uma gravadora americana gigante e promover seu terceiro álbum com clipes quase que sem orçamento nenhum, Primal Heart chegou!!! Será que teremos mais um hinário de Kimbra ou a falta de orçamento foi tão grande que até o álbum ficou ruim??

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Tracklist:

  1. The Good War
  2. Top of the World
  3. Everybody Knows
  4. Like They Do on TV
  5. Recovery
  6. Human
  7. Lightyears
  8. Black Sky
  9. Past Love
  10. Right Direction
  11. Version of Me
  12. Real Life

O álbum começa com The Good War, um número de R&B com explosões eletrônicas de future bass. O título já sugere um clima de conflito interno que estará presente em todas as letras do álbum e tem um vocal mais agudo como a primeira faixa do The Golden Echo (que, pra mim, é uma das melhores intros de álbum de todos os tempos xD), mas funciona principalmente para a posição onde foi colocada na tracklist: a de introduzir. Tirando isto, os “dum dum dum dum dum” ficaram viciantes e deviam estar mais presentes na faixa. Sobre a letra, temos Kimbra lutando contra si mesma sobre seus erros e denunciando como a sociedade pode refletir distorcidamente suas ações (claro, naquele estilo Kimbra de ser onde dá pra tirar várias interpretações, com ela mais sugerindo o tema do que propriamente falando dele).

Resultado de imagem para kimbra top of the worldTop of the World, o segundo single do álbum, nos trás Kimbra agressiva e diferentona mesmo sendo uma faixa simples de hip-hop+R&B. A batida mais simples e lugar comum é modificada pelos raps de Kimbra, em um tom quase que insano, e pelo pré-refrão, que é praticamente recitado como um mantra. Estranhamente, o produto final fica com uma cara de algo meio tribal e distópico, o que dá pra ver que eles tentaram colocar no videoclipe por meio das colunas gregas de isopor quebrando e da máscara prateada bizarra que ela usa no finalzinho. E a letra, tem a ver com tudo isto?? NÃO!! Pela letra, esta é a típica faixa leonina em que uma cantora fala que está no topo e é sensacional, mas, Kimbra coloca um grau de dúvida nisso tudo, perguntando a si mesma se tudo que fez valeu a pena, além de dar um caráter coletivo que pode até ser interpretado não apenas como uma ode a si mesma, mas sim a toda a geração ao qual pertence. Meu verso preferido foi: “traficando esperança por dólares”.

Resultado de imagem para kimbra everybody knowsEverybody Knows foi o single mais judiado pela falta de orçamento, infelizmente. O que era pra ser o grande comeback de Kimbra no final do ano passado foi um videoclipezinho amador com ela gritando num descampado em baixo de um lençol gigante. Mesmo assim, o uso que ela conseguiu dar aos recursos que tinha foi digno de nota e a junção do vaporwave+xilofones+letra filosófica auto crítica deu tanta textura pro single que ele até chegou ao Best Zodiacal no ano passado. Eu nem consigo escolher um verso preferido da letra porque a narrativa de Kimbra, que parece falar de um carinha que a enganou e acaba sendo sobre a persona dela atual analisando os erros da Kimbra do passado, é criativa, tocante e vale a pena dar uma conferida. De longe, uma das melhores músicas do álbum!! Não é a toa que foi o primeiro single…

Resultado de imagem para kimbra like they do on the tvQuando vi o clipe de Like They Do on TV, confesso que suspirei de alívio. FIGURANTES!! CURTA ANIMADO!! TELEVISÕES FLUTUANTES!! UMA NARRATIVA!!! ORÇAMENTO!!! Esta era do Primal Heart estava tão pobre e os clipes estavam tão na miséria que já tava com receio que essa mudança dela pra uma gravadora dos EUA foi uma grande furada. Ainda tenho minhas dúvidas, mas pelo menos tiraram um pouco o escorpião do bolso e tivemos o melhor clipe de Kimbra EM TEMPOS!! A música em si é um synthpop que bebe da  fonte de trilhas sonoras creepies de filmes de terror conceituais e independentes, com a letra falando sobre estar perdido em meio a vastidão do mundo, mas por meio de visão otimista de que tudo dará certo “como eles fazem na TV”. Não é uma faixa que mude vidas nem nada disso, mas é uma das poucas do álbum que eu me pego cantando o refrão sem querer quando estou andando na rua.

Recovery segue a linha de faixa anterior e fica naquele nível de agradável que parece esquecível e básico, mas gruda na cabeça. Aqui é um número de R&B sem tirar nem por, com o típico refrão que é repetido umas quinhentas vezes acompanhados de harmônicos. A letra é uma das mais simples e diretas do álbum, com ela falando que está se recuperando da desilusão amorosa e quer ficar sozinha. Sinceramente, se não soubesse que era do álbum, não acreditaria que é uma música da Kimbra.

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Pra mim, Human é, sem dúvida, a melhor música de todo o álbum. Nem mesmo o baixo orçamento conseguiu sabotá-la e tivemos um clipe interessante de Kimbra confrontando uma clone sua e uma capa sensacional para o single. Esta faixa é a única de toda esta era que conseguiu pegar tudo que eu esperava pra este lançamento de Kimbra: um instrumental lotado de elementos estranhos, vocais que propositalmente são destoantes, uma dancinha estranha e um conceito diferentão. Aqui, Kimbra está tentando validar a sua existência a partir da percepção de outra pessoa (que pode ser algum interesse romântico ou, como aparece no clipe, uma versão distorcida de si mesma), porque diz que é apenas isto que tem o poder de qualificá-la enquanto humana. É incrível, apenas. Poderia até ser um dueto com a Janelle Monáe (as duas são amigas) porque entraria como uma luva no sci-fi concept dela. Acho que um verso legal pra se destacar é “Mas vejo em você o que vejo em mim mesma/Escrito na medula dos meus ossos”.

Kimbra sabe que tem fãs que, além de filosofar, também querem dançar ao som de batidão, por isso temos Lightyears, um synthpop oitentista em que ela fala sobre ser uma neozelandesa morando no meio do território americano. Mas, claro, na letra, ela se utilizando de alien concept, comparando a situação com a de tentar achar vida a anos-luz da Terra. Esta seria a faixa ideal para ser um single e apelar pra um público mais mainstream, mas Kimbra se mostrou que é mais forte que isso e só deixou esse bop jogado no meio da tracklist. Precisa de coragem pra fazer isso.

Black Sky começa bem, mas depois de cinco segundos já da pra ver que a faixa não vai ser memorável. O instrumental está on point, mas o delivery vocal da Kimbra está estranho (em um sentido ruim), principalmente por ela cantar de uma forma muito lenta e sóbria sobre uma melodia tão explosiva. Além disso, mesmo mantendo a analogia espacial/sci-fi das duas últimas faixas, as figuras de linguagem utilizadas não parece ser da mesma artista que desafiou a própria imagem e som durante toda sua carreira.

Past Love é outro número de R&B by the numbers, com o mesmo traço genérico de Black Sky. A única parte memorável da música é quando ela grita “all you do is cryyy!!” antes do refrão, mas não salva. É até impensável para a Kimbra ter uma música cujo o título seja exatamente o que a música quer dizer, com uma letra tão óbvia e falando de algo tão comum no cenário pop (um antigo amor)… Cadê o instrumental diferentão?? Cadê as figuras de linguagem?? Podia ter, pelo menos, chamado de Past Live que ficaria mais filosófico…

Right Direction mantém o padrão esquecível, mas pelo menos a letra sem figuras de linguagem é autoreflexiva e não sobre amor (e tem um xilofonezinhos legais na melodia). Se estivesse no começo da tracklist ou fosse a última faixa eu até aceitava, mas assim no meio?? Passo.

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QUE ÓDIO!!!! A PIOR MÚSICA E O PIOR CLIPE DE TODA A CARREIRA DE KIMBRA!! Sério, não escuto Kimbra pra ouvir baladinhas acústicas, mesmo que sejam autoreflexivas, com clipes em que não acontece nada. Pra isso que temos MPB e Christina Aguilera!! Version of Me ativou o ascendente em Áries que há dentro de mim, ainda mais quando vi o clipe, porque a única coisa que acontece é que ELA VIRA A CABEÇA PRA GENTE NO FINAL… Ah, pelo amor de Deus!!! Tudo bem, ela queria lançar uma baladinha triste refletindo sobre não ser aceita?? Que não fosse acústica!! Que não tivesse um clipe horrível!! Enfim… O pior de tudo é que essa é uma das faixas que mais está sendo exaltadas pelos críticos lá nos EUA… Paciência.

Já deu pra perceber que o álbum poderia ter acabado em Lightyears que todo mundo sairia ganhando não é mesmo?? Destas faixas da segunda metade do álbum, Real Life é a que mais se destaca, por saber utilizar um tom sóbrio e uma voz robótica pra fazer uma baladinha diferentona. É um bom encerramento pro álbum, mas depois de quatro faixas bomba, meu ouvido já ficou meio saturado e a melhor coisa de Real Life mesmo foi a live em que ela não tava conseguindo ligar os sintetizadores pra começar a música e o público ficou super de boas com isso, apenas gritando que amavam ela <3.

Conclusões RV#1Primal Heart é o pior álbum de Kimbra até agora. Em Vows tivemos uma abordagem inusitada sobre R&B clássico, 60s realness e letras diferentes do que se esperava no cenário pop. Em The Golden Echo tivemos sons experimentais e conceitos que nos mostravam que Kimbra tinha tudo para ser uma Björk mais comedida. Aqui, deu pra perceber que Kimbra tentou falar sobre a complexidade e contrariedade do coração e das emoções humanas em relação a si mesmas (por isso o título do álbum é “Coração Primitivo”), mas a impressão que fica é que a tensão entre a mudança de gravadora, de país e de lançar algo mais comercial mas, mesmo assim, tentar se manter diferentona acabou enchendo a segunda metade do álbum com músicas que nem parecem da Kimbra. E o pior é que nem temos a desculpa de que esta estratégia deu certo, porque nenhum dos singles entrou nos charts e está se falando menos deste álbum na internet do que se falou de todos os outros… Simplesmente, uma pena :/

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