Gee, Girls’ Generation: O single desesperado que mudou completamente o k-pop! | Águas Passadas 001

Girls

2020 está sendo um ano surpreendente de formas inimagináveis para todos nós… Em meio a este caos, as súbitas mudanças e a predominância de uma bad vibe, eu acabei me viciando em um canal do Youtube que estudantes de música clássica reagem a músicas de k-pop. E aí pensei “por que não tentar voltar com o blog pra animar um pouco?” e aqui estamos com novo layout inclusive!

Neste sentido, estes vídeos de reação que fui conferindo no Youtube cobrem várias tentativas ousadas (e arriscadas) no k-pop musicalmente e me veio a cabeça um caso muito específico no cenário capopeiro, lá em 2009, em que uma tentativa totalmente ousada e desesperada acabou virando tendência por boa parte dos “anos dourados” da 2ª geração do k-pop, por assim dizer: Gee, do Girls Generation.

Vamos dar uma olhada na história do k-pop e entender como a SM acabou lançando o bubblegum que catapultou a carreira do Girls’ Generation e se tornou uma das músicas que mais representa o k-pop até os dias de hoje?

O ano era 2008 e a SM Entertainment estava desesperadamente precisando de um hit feminino. A empresa havia capitaneado o início do que conhecemos hoje como a 1ª geração do k-pop, com o debut dos grupos H.O.T e S.E.S, que procuravam misturar a onda de boybands e girlgroups dos Estados Unidos do final dos anos 80/começo dos anos 90 com a indústria idol que estava se consolidando no Japão, como uma iniciativa do próprio governo coreano de afirmar sua independência cultural após anos de dominação japonesa.

Focando nos girlgroups (que é o foco deste post), S.E.S. foi algo simplesmente sem precedentes na indústria do entretenimento sul-coreana. Para você ter uma ideia, dentre os dez álbuns de girlgroups mais vendidos na Coreia do Sul, S.E.S ocupa QUATRO POSIÇÕES, tendo apenas perdido a segunda, terceira, quarta e quinta posições no top 10 pelo fenômeno que o Twice teve na última década (a título de curiosidade, o primeiro lugar em vendas é de um grupo dos anos 60 chamado Pearl Sisters e permanece sólido até hoje).

Com a rápida ascensão do grupo, não era de se imaginar que a queda fosse tão brusca e rápida. Tendo debutado em 1997 e lançando um full album por ano, as integrantes, Bada, Eugene e Shoo foram conquistando e polemizando o público coreano lentamente, ganhando cada vez mais liberdade criativa e profundidade em seus lançamentos. Passados apenas cinco anos, em 2002, Bada e Eugene não renovaram seus contratos com a SM e o grupo disbandou antes mesmo que a empresa pudesse ter algum girlgroup substituto para manter a onda de lançamentos e os fãs de girlgroups interessados.

Toda a tragetória do S.E.S já seria um post por si só, mas a questão é que diferentemente do H.O.T, em que a SM ainda tinha conseguido manter Kangta e Heejoon como artistas solo, a única integrante do S.E.S que tinha resolvido ficar era a atriz… Por mais que a SM forçasse, o público estava mesmo interessado em ouvir os melismas da Bada, então eles tiveram que se virar nos trinta para achar o “próximo S.E.S” uma vez que os concorrentes estavam se preparando para aproveitar o espaço vago de “girlgroup da nação”.

A primeira tentativa foi um grupo chamado M.I.L.K, que, como o próprio nome tosco sugere, não conseguiu o mínimo spotlight e disbandou em 2003 depois de ter lançado um único single em 2001, com todas as integrantes tendo fugido da SM e focado na carreira de atriz.

A segunda tentativa foi um grupo chamado Shinvi, que conseguiu durar menos ainda que o M.I.L.K, tentando emular o fator de trio do S.E.S e se utilizando de participações de um membro do Shinwa (que, na época, ainda era gerenciado pela SM), uma das boybands mais duradouras e icônicas de toda a história do k-pop, pra ver se desta vez o hit vinha…

Não foi desta vez! O grupo conseguiu ainda ser mais inofensivo que o M.I.L.K e disbandou um ano depois.

A seguir tivemos The Grace, em 2005, o grupo tentou trazer uma mudança e um som um pouco mais moderno que os dois anteriores, mas, ainda sim, não conseguiu o impacto necessário no público coreano, fazendo a SM desesperadamente tentar salvar o flop tentando debutar o grupo no Japão e na China, o que até que deu certo e manteve o grupo ativo até 2010, apesar das integrantes lentamente irem saindo da SM com o passar dos anos.

O problema é que o imaginário coreano já não estava se interessando mais no que a SM estava lançando na categoria de girlgroups e a empresa perdia uma fatia do mercado extremamente importante nisso.

Temos que lembrar que a primeira onda da hallyu começa JUSTAMENTE nesta época, com a popularização do dorama Winter Sonata por toda a Ásia. Por mais que a BoA, o único ato feminino forte da SM na época, desse um lucro considerável, a capitalização em cima da imagem de várias integrantes de um grupo de sucesso seria muito mais lucrativa, uma vez que expande o alcance de produtos secundários e aumenta a quantidade de acordos e parcerias que a empresa pode fazer (uma cantora só não consegue participar de programas de TV, fazer propagandas, participar de programas de rádio, atuar em doramas e ainda manter uma consistência de lançamentos o suficiente para se manter no imaginário popular como “cantora”).

Entretanto, todo o cenário mudaria com o debut do Super Junior em 2005.

No lado das boybands, a SM conseguiu manter uma onda estável de grupos e lançamentos, já que o Shinwa se mantinha forte após do fim do H.O.T e tínhamos lançamentos de solistas e grupos menores, como Fly To The Sky (esses nomes, meu deus do céu!), que conseguiam manter os charts ocupados durante o ano todo.

Neste contexto a SM já estava preparada para o baque que viria em 2004, ano em que TODO o Shinwa saiu da SM e continuou as atividades como grupo em outra empresa (algo nunca antes visto até então), tendo debutado TVXQ em 2003 e já preparado tudo para o megazord de 12 membros chamado Super Junior, inspirado no sucesso do megazord japonês Morning Musume.

Com a dicotomia entre Super Junior e TVXQ, a SM conseguiu a fórmula do sucesso que ela precisava para se manter constante no mercado e agradar um público maior ser ter o perigo de perder a galinha dos ovos de ouro rápido demais. E isto não se dá apenas pelos contratos extremamente abusivos que eles fizeram com os integrantes (o que entrou para história como um dos casos mais famosos de exploração do trabalho na indústria de entretenimento sul-coreana), mas pelo aspecto chamativo que cada um dos grupos tinha.

Como isto vai chegar inevitavelmente no Girls’ Generation (e não no f(x) ou no ShiNee), o importante de se analisar são os aspectos do Super Junior. Temos que lembrar que, em pleno 2005, eram poucas as empresas que tinham o cacife da SM para conseguir bancar um número tão alto de integrantes ativos em um único ato. E nem digo os salários, porque a maioria dos cantores debuta mais devendo dinheiro pra empresa do que qualquer outra coisa, mas os figurinos, a acomodação, o próprio gerenciamento da carreira de doze pessoas de uma vez… Esta possibilidade fazia com que a SM fosse a única empresa no mercado que conseguisse sustentar um grupo deste porte, e este fator a diferenciou de outras boybands que também estavam iniciando suas carreiras de sucesso na época, como Big Bang e SS015.

Com o flop coreano do The Grace (que parando pra pensar, segue um pouco a lógica do TVXQ), a empresa fez o possível para recriar este charme único do Super Junior em um grupo feminino. O projeto se chamava “Super Girls” e pode ser considerado um dos backstages de debuts mais polêmicos e confusos de todo o k-pop (para você ter uma ideia, o projeto teve umas quatro formações diferentes no decorrer de um ano e um monte de garotas saíram da empresa antes mesmo do grupo se consolidar).

Com o impacto formado, a SM preparou um debut tentando emular um hit tipicamente “S.E.Siano”, um reality show e economizou onde pode, lançando apenas um single album ao invés de um full.

O resultado foi o hino de movimentos sociais na Coreia do Sul e o grande molde de debuts feminos no k-pop por quase dez anos: Into the New World, do Girls’ Generation!

Que não chegou nem perto do sucesso que a SM esperava.

Todo o investimento da SM estava indo por água a baixo. O impacto do grupo ainda era pequeno demais para deixar alguma marca no mercado, sendo que, NO MÊS SEGUINTE AO DEBUT DO GRUPO, as Wonder Girls, da JYP, conquistaram o primeiro hit feminino da segunda geração com Tell Me.

A SM estava possessa! Uma empresa completamente nova no mercado havia conseguido com facilidade cativar boa parte do público coreano mantendo um número comum de integrantes e ainda com já uma polêmica nas costas do grupo (a HyunA já tinha deixado as Wonder Girls quando lançou Tell Me).

Foi aí que se sucedeu um investimento massivo para que o grupo funcionasse. Foram três singles sucessivos em menos de seis meses, um full album com direito a repackage, mais um reality show para o grupo e a tentativa de colocar as integrantes com um mínimo de spotlight já em projetos solo o mais rápido possível: em 2008, a Yoona já estava num dorama, a Taeyeon e a Sunny estava num programa de rádio, e a Tiffany, a Yuri e a Sooyoung apareciam em sketchs na televisão.

Nenhuma destas investidas conseguiu fazer o grupo deslanchar e enquanto isso, além das Wonder Girls, uma empresa rival da SM, DSP Media (que gerenciava o Fin.K.L), conseguiu fazer seu novo girlgroup, KARA virar mania com os singles Rock U e Pretty Girl.

Momentos de desespero pedem medidas desesperadas. Hoje, não é possível dizer com certeza que o Girls’ Generation disbandaria se não conseguisse um sucesso em 2009, mas, com toda certeza, o grupo no máximo iria ser sustentado a partir do lucro vindo do Super Junior, do TVXQ e da BoA.

Foi aí que a SM desisitiu resolveu imitar seus concorrentes. Seguindo na linha de um som mais americanizado e moderno para época, como as Wonder Girls, e trazendo um conceito aegyo um pouco mais agitado que os do S.E.S, como o KARA, nasceu…

DANCING QUEEN!!

Sim, este single completamente perdido de 2013, na verdade iria ser o comeback delas de 2009 ao invés de Gee, tanto que visualmente, as calças coloridas e a combinação de jeans + camisetas brancas, ele se encaixa perfeitamente com o photoshoot de Gee. A SM havia adquirido os direitos de um hit europeu de 2008, Mercy, da Duffy, tinha feito sua versão para se encaixar com o conceito aegyo, gastou os olhos da cara para um clipe de resolução impecável para a época (se vocês perceberem, é surpreendente que Gee e Dancing Queen tenham sido gravados em 2009 se compararmos com todos os outros clipes lançados na mesma época, que tem uma resolução inferior).

Só que houve um problema na concessão de direitos autorais e a música teve que ser barrada. Todo o álbum teve que ser reestruturado, assim como o videoclipe e a coreografia, o que gerou ainda mais gastos para SM (tanto que, em Genie, o lançamento seguinte do Girls’ Generation, o clipe é extremamente de baixa qualidade, como se para compensar toda esta confusão).

E foi assim que, em 5 de Janeiro de 2009, Gee foi lançado e ESTOUROU por todo canto que passava, quebrando recordes conforme permanecia mais de oito semanas em #1, com o álbum vendendo mais de 100 mil cópias e a SM já investindo o que ganhou para debutar o f(x) e manter uma dicotomia similar a de TVXQ e Super Junior em relação a seus atos femininos.

Goste ou não, os efeitos deste single foram inimagináveis para o k-pop. Para vocês uma ideia, só como exemplo, a quantidade de empresas que debutaram girlgroups em 2009, muito provavelmente pra tentar emular um sucesso como o de Gee, é bizarra (After School, 4Minute, 2NE1, f(x), JQT, Rainbow, Secret e T-ara) e só foi superada em 2012, quando o k-pop entrou em polvorosa com a hit mundial de Gagnam Style.

Mas os efeitos de Gee já são assunto para outro post…

Girls’ Generation’s “Gee” Becomes Their 2nd MV To Reach 200 Million Views

E esta foi uma análise de tudo que estava acontecendo até a SM conseguir se consolidar com Gee. Espero que tenha gostado! Acha que tem algum single no k-pop que foi tão icônico e desesperado quanto este?

PS: Eu planejo publicar este post apenas quando já tiver outro pronto, então podem aguardar que vai ter mais posts aqui sim xD


PSS: Já passou um tempinho que isto explodiu na internet, mas é importante lembrar do que está ocorrendo com os protestos contra violência policial ocorrendo em vários lugares do mundo (inclusive aqui no Brasil). Percebi que é crucial neste momento procuramos nos informar e ajudar como puder (principalmente nos conscientizando sobre racismo). Não estou no meu lugar de fala aqui, mas estou dando o meu melhor para aprender a ser antirracista (é o mínimo do mínimo que posso fazer sobre tudo isso). Se você quiser/puder ajudar, clica aqui e dá uma olhada nos links do Black Lives Matter, compartilhando se possível. Muito obrigado por ler o post até aqui!

14 comentários em “Gee, Girls’ Generation: O single desesperado que mudou completamente o k-pop! | Águas Passadas 001

    1. Nossa, espero que sim!! Eles tem muito orçamento pra gastar só com boyband e com a Taeyeon (o medo de todas do RV pularem fora ano que vem ou virarem atrizes é grande @.@’)… Mas olhando este histórico até da pra “entender” (entre várias aspas, por que, né? machismo) o porquê eles debutaram eles são tão reticentes em debutar girlgroups…

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      1. E esse ano tem as meninas do Girls’Generation tbm, o contrato delas vence nos próximos 3 meses, vms ver se alguma pula fora (Apesar de eu acreditar que as 5 renovem)
        E a SM, basicamente, vai debutar 2 GGs esse ano, eles tem uma subsidiária, se não me engano, que está com um grupo de 7 integrantes para debutar tbm, e são rostos bem conhecidos (E tem o rumor do Sooman querer financiar o Loona tbm, mas é aguardar para ver oq receberemos)

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      2. Meu sonho eles financiarem o Loona e termos um comeback por semestre com o renascimento das units ❤ E nossa verdade!! Hm… acho que no máximo a Taeyeon possa pular fora (depende de como lidaram no backstage de Happy, em que ocorreu a morte do pai e da avó dela), as outras concordo contigo (mas queria que a Hyoyeon saísse e fosse a estrela de uma companhia pequena TT)
        Sobre os novos grupos… A SM tem que tomar cuidado, o mercado tá ficando saturado de novo (tipo, todas as empresas de nome tão com um gg forte ou fortalecendo, menos a Big Hit), as datas de lançamento vão ter que ser escolhidas cirurgicamente pra elas não serem ofuscadas

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      3. Sim, tanto que esse ano o máximo que “bateu” foi BP e Twice, mesmo com quase 1 mês de diferença. Ah, e a Big Hit anunciou já o Debut do Novo GG para o 3° trimestre, com 9 integrantes… É, o novo Girls’Generation pode estar próximo com o Twice batendo os 5 anos já e o Girls’Generation aí com 13 anos. A não ser que se for o Loona (Até pq So What é The Boys 2.0) saia na frente com isso

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  1. Nossa, eu adorei esse post também. Li todo seu blog mês passado, bom saber que vai tentar voltar com ele, espero que continue inspirado.
    Eu adoro esse canal do YouTube que você citou tbm kkk, acho que as reactions parecem bem mais honestas e interessantes do que esse mundo de react que o YouTube virou.

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      1. Ai muito obrigado xD Fico feliz que tenha gostado deste post e do conteúdo do blog ^^ Acho que estou em uma nova onda de inspiração xD
        Esse canal é muito bom (e informativo!!) dá até voltade de aprender um pouco de teoria musical kkk
        Quanto a Gee, eu gosto bastante mesmo, foi meu primeiro k-pop então… kkk

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