I Trust, (G)I-DLE: O poder da reciclagem | Album Review 001

Eu sempre gostei de escrever Album Reviews e estava quebrando a cabeça para pensar em qual seria o primeiro álbum eu escolheria para resenhar agora que o blog está voltando a ativa. Queria muito achar um álbum deste ano (já que eu falei bastante de história de k-pop no post de Gee) e que eu realmente tivesse escutado bastante (ao invés de me forçar a escutar algo que muita gente estivesse falando, como acabei fazendo com BTS e Namie Amuro na trajetória do blog #sinceridade)… Por este motivo temos o enxuto terceiro mini-álbum do (G)I-DLE, que está se tornando um dos meus girlgroups preferidos desta geração… Vamos lá?

Oh My God (ou Ai Meu Deus se o seu Youtube, como o meu, traduz alguns títulos automaticamente para o português) não chega a ser uma tentativa nova e super ousada por parte de Soyeon. Isto porque o single se utiliza de elementos de LION, o lançamento delas do Queendom (que vai aparecer daqui a pouco na tracklist), e retrabalha para que a faixa não soe totalmente parecida, mas, ao mesmo tempo, tenha uma semelhança para que o público que as conheceu no programa escute a música e por si só já consiga dizer “ah, essas são as garotas do leão…”

Dito isso, os elementos que se repetem são, principalmente, a estrutura do pré-refrão e a utilização de uma intro e uma outro que se refletem. A faixa cria um crescendo interessante a partir de batidas e sintetizadores mínimos nos versos, aumentando o impacto propositalmente no pré-refrão para desembocar em um refrão minimalista, recheado de espaços entre uma batida e outra. Isto evidenciou a letra do refrão, que, por ser toda em inglês, grudou muito mais na minha cabeça e me deixou com vontade de escutar a música mais vezes.

Brincando um pouco com nossas expectativas, Soyeon faz duas participações de rap (o que já é bem estrelinha da parte dela, considerando que tem mais cinco integrantes ali…), tirando um pouco do caráter monótono que o segundo verso possa ter… mas deixando a bridge com muito menos memorabilidade no processo. Ao final, o refrão minimalista se torna mais explosivo ao ter acrescentado os elementos da bridge e a Minnie encerra a faixa lentamente, mantendo o ambiente mais sombrio do que a intro que o iniciou.

O clipe parece não fazer sentido nenhum e a letra parece ser um típico fanservice lésbico até eu descobrir que a Soyeon se inspirou em KonoSuba (um dos primeiros isekais da modinha que dominou o mercado de animes nos últimos anos) para desenvolver a faixa e o conceito. Se você não sabe o que é um isekai, resumidamente, se trata de uma história em que o protagonista é levado até um outro universo (geralmente é um jogo de RPG Online) e tem que se virar nessa nova realidade. Eu acredito que o clipe possa ser interpretado como esta espécie de transição entre o mundo comum e um novo, com a dicotomia das roupas brancas e pretas deixando clara a transição e o papel de cada uma das integrantes inspirado nos clichês de isekai (principalmente a Shuhua como a deusa/sacerdotisa e a Soojin como a vilã), assim a letra pode ganhar várias leituras diferentes…

Ainda, sim, pode ser sobre um amor lésbico (por que não, né?), mas também pode representar aquela sensação de começar a perceber algo que você não notava antes… E aí vários aspectos da vida parecem diferentes mesmo e, como dá a entender no final do vídeo, nos leva a um resultado que pode parecer até desesperador (pensem em como nós encarávamos o contato físico antes da quarentena e agora… parece algo muito mais perigoso/valioso do que antes, né?).

Luv U segue com uma estrutura até que esperada para girlgroups na linha do girl crush atual: um drop contínuo de sintetizadores ao invés de um refrão encorpado (até foram criativos com a utilização de assovios). Eu acho que aqui houve até uma tentativa de zoeira do aegyo, considerando o figurino dos stages que elas fizeram e a voz satanicamente aguda que abre a faixa, mas, pra mim, infelizmente, o tiro acabou saindo pela culatra.

Como pode ocorrer com toda a faixa que tem estes drops no refrão, o crescendo do pré-refrão cria um hype bom demais para o resultado que recebemos. Estava conversando no whatsapp esses dias sobre este tipo de música no k-pop (como Bang Bang Bang, do Big Bang, e, querendo ou não, Dumb Dumb, do Red Velvet) e como pode ser extremamente amarga esta construção, já que a música não fica apenas com uma impressão ruim, mas de que PODERIA SER MELHOR. Bem, isso nem sempre é ruim (eu gosto bastante de Dumb Dumb, por exemplo), mas aqui só não ficou num nível de ódio como em Bang Bang Bang, porque Luv U é apenas uma música no meio da tracklist, e não o carro-chefe do lançamento como um todo.

Maybe consegue ter uma estrutura parecia com a de Luv U, mas se tornar UMA DAS MELHORES B-SIDES DESTE ANO! Sério, a faixa entrega justamente o que se esperaria de uma album track: uma música que contrasta com o single, mas mantêm o conceito e a estrutura do álbum enquanto projeto, fazendo com que o lançamento como um todo ganhe mais camadas sem necessariamente ter mais videoclipes.

Ela é uma faixa delicada que se utiliza de palmas ritmadas, batidas extremamente espaçadas e diversos elementos (inclusive vocais) afastados do primeiro plano, dando uma sensação de que a música representa um espaço muito mais amplo. Os versos são totalmente suspirados (a própria Soyeon desistiu de mandar uns raps aqui) o que dá a impressão que elas estão sussurrando a letra em nossos ouvidos em meio a uma multidão. O refrão, então, vem em seguida, com um drop repleto de sintetizadores, que te fazem afundar em meio ao ambiente amplo que os versos criaram, sendo que, cada vez que ele aparece de novo nos surpreende de uma forma diferente: na segunda vez, ele se alonga antes de passar para a bridge e, na terceira, o número de elementos no fundo vai aumentando tanto que, se você escutar atentamente, parece que tem uma voz escondida ali no meio falando algo indescritível.

A letra, como o próprio nome sugere, fala sobre incertezas e faz menção a uma proposta, que pode ser muito bem a proposta do novo mundo de Oh My God, e como lentamente este “talvez” que elas sussurram vai se tornando uma certeza de experimentar algo novo.

Simplesmente perfeito!

O que dizer sobre LION que já não foi dito internet a fora? A faixa foi a que mais trouxe a carga de egocentrismo que o Queendom pregava, com Soyeon misturando Joana D’Arc e o fato de que os leões são uma liderança matriarcal em seus bandos para falar que elas são rainhas como um LEÃO (e não como uma leoa), o que por si só já traz um pouco de reflexão quanto a força dos papeis de gênero nas figuras de linguagem que utilizamos para nos expressar.

A faixa começa com batidas quase guturais de tão grossas, que vão lentamente crescendo conforme os versos vão trocando de uma integrante para a outra, aproveitando, inclusive da textura diferente da voz de cada uma. No pré-refrão, com a voz da Minnie já nas alturas no segundo verso, vem uma espécie de garra/rugido que traz uma troca brusca e cai no refrão. Apesar das frases em inglês meio toscas (“parece um leão” HAHA), até que foi efetivo pelo replay factor. Mesmo assim, a minha parte preferida ainda é a outro, com os sussurros da Soojin assombrando todos nós debaixo do trono…

Acredito que isto é o mais próximo que vamos chegar de uma apocalíptica I’m the Best/The Boys dessa geração e, considerando todo o conceito (e a maquiagem incrível da garra de leão nas costas Soojin!), acho que até tá melhor que o esperado.

O mini-album já encerra com Oh My God (English Version), que, sinceramente, não muda a vida de ninguém. Nesta onda de lançar versões em inglês dos singles, acredito que algumas conseguem realmente ser interessantes e ficar mais na nossa cabeça que as coreanas (como The Boys do Girls’ Generation e a recente Zombie do Day6), outras, porém só fazem você perceber o quanto a língua coreana é mais melódica que a inglesa para música pop e escutar a versão original mesmo sem entender ABSOLUTAMENTE NADA (como Be My Baby e Nobody, das Wonder Girls). Por mim, esta aqui cai em cheio no segundo caso.

G)I-DLE Talk 'Oh My God' Meaning, Muses, And More - MTV

Apesar de não considerar um EP tão variado e agradável como o primeiro EP delas, I Trust até que conseguiu entregar o que propunha, com dois singles extremamente sólidos, uma b-side muito bem estruturada e outra meio meh. Acho que a grande falha se deu no comprimento mesmo. Se tivéssemos pelo menos mais uma faixa o álbum não soaria tão… reciclável (como LION já tinha sido lançado, é quase como se este fosse um single album de três faixas) e talvez a organização da tracklist poderia ser mais fluída e menos abrupta ~ algo como 1. Luv U (intro), 2. Oh my God, 3. Maybe, 4. Faixa a mais, 5. LION ~ mesmo assim, conceitualmente, o álbum até que foi bem trabalhado e não foge muito de seu tema principal (quem dera, né, CLC?).

Eu sou péssimo dando notas pra essas reviews (pra mim isto é algo tão perceptivo e subjetivo que não consigo traduzir em números ou categorias de “pontos”), mas acho que, em meio a discografia delas, é uma aposta segura feita justamente para consolidar o nome do grupo depois da exposição do Queendom, o que, depois de ver os resultados das vendas e a performance do single, foi um grande acerto da Cube neste ano (e provavelmente o único se o CLC não nos trazer o full album que nos prometeram no final do ano x.x’ A deusa que me livre dos últimos lançamentos do Pentagon…).


Sobre o “1.01” no título do post, eu estou pensando em voltar com Albums Reviews aos poucos e meio que dividi-las por “temporadas” (tipo, ir postando Albums Reviews continuamente ~ uma por semana/a cada quinze dias ~ até chegarmos em 10 reviews e termos um intervalo de uns dois meses antes de voltarmos a termos reviews contínuas na “2º temporada”), porque estes posts demoram um pouco pra fazer e tentar postar só Album Review (como já tentei fazer aqui no blog) é insano @.@’

Que álbuns você acharia legal de serem resenhados aqui na primeira temporada? (já escolhi alguns, mas a lista com os dez ainda não tá fechada xD)


PS: Já passou um tempinho que isto explodiu na internet, mas é importante lembrar do que está ocorrendo com os protestos contra violência policial ocorrendo em vários lugares do mundo (inclusive aqui no Brasil). Percebi que é crucial neste momento procuramos nos informar e ajudar como puder (principalmente nos conscientizando sobre racismo). Não estou no meu lugar de fala aqui, mas estou dando o meu melhor para aprender a ser antirracista (é o mínimo do mínimo que posso fazer sobre tudo isso). Se você quiser/puder ajudar, clica aqui e dá uma olhada nos links do Black Lives Matter, compartilhando se possível. Muito obrigado por ler o post até aqui!

7 comentários em “I Trust, (G)I-DLE: O poder da reciclagem | Album Review 001

  1. Vou jogar minha sugestão aqui mesmo sem expectativas de que aconteça porque aparentemente nenhum dos blogs que leio gosta deles, mas qualquer álbum do Stray Kids eu gostaria de ver, mesmo que seja pra arrastar na lama haha.

    Eu gostei de Oh my God, porém por algum motivo não me causou tanto impacto no fator repeat, tanto q um dia desses eu estava vendo alguma notícia sobre elas e fiquei pensando “ah é mesmo, essas meninas, mds qual foi o último comeback delas? Foi uh oh?”
    Demorou uns 5 minutos pra eu me lembrar de OMG. Dito isso não tive vontade pra ouvir o resto do álbum tbm, talvez eu tente agora depois da sua review.
    p.s: Zombie em inglês é tão melhor.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Apesar de eu não ter curtido muito o lançamento deles este ano, eu curti bastante toda a saga Clé que o Stray Kids lançou nos três EPs do ano passado xD Então pode deixar que faço uma review de um dos três EPs desta era deles na 1 Temporada de Albums Reviews ^^ Obrigado pela recomendação 🙂

      Nossa, Uh Oh grudou tanto na minha cabeça que só fui escutar mais LION com este mini mesmo kkk (adoro ficar escutando álbuns, então…) Fico feliz de dar uma nova chance pro álbum depois da review xD Fala depois se gostou mais (ou menos né, vai saber kkk)

      PS: Nem fala!!! Eu adorei a versão em inglês, mas a coreana tem uma figura de linguagem com o espantalho do Mágico de Oz que gostei muito (bem que eles podiam ter adaptado pro inglês essa parte ao invés de mudar x.x)

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  2. Não acredito que a soyeon se inspirou em konosuba sendo que konosuba é um bagulho logo e o MV é Treviso rindo talvez…
    Mas também não é a primeira fez que a imaginação da soyeon vai longe num dos stages de luv elas aparecem usando uma roupa super parecida com de Harry Potter ,mas na verdade a soyeon tinha se espirado em suga suga Rune (um anime bem bleh)kkk

    Curtido por 1 pessoa

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