Zombie, DAY6: A produtividade em tempos de quarentena

Acho que o primeiro pensamento de muitas pessoas no início da quarenta foi algo como “nossa, agora vou ter tempo pra fazer tal coisa!”, como uma tentativa de ver algo minimamente positivo no contexto atual. No meu caso, eu comecei a ver vários vídeos de produtividade no youtube até ficar totalmente farto do assunto e esgotado, fisicamente e mentalmente, ainda me culpando por estar fazendo menos do que conseguia fazer no trabalho antes desse cenário se instalar.

Por volta desse período, DAY6 lançou Zombie, o que acredito ser uma das músicas mais tocantes deste ano, e me atingiu de uma forma tão profunda (muito parecida com o que o Brave Sound Drop It explica sobre Prisoner of Love, da Utada Hikaru, no Whatever Music Basement) que consegui dar voz a meus sentimentos e ir trabalhando para escapar deste ciclo tóxico de “pensamento produtivo”. Então pensei em escrever um texto refletindo sobre tudo isto…

Zombie não é uma faixa inesperada vinda do DAY6. Esta não é a primeira vez, nem a segunda, que o grupo trouxe um pouco de rock melancólico para o seu catálogo, criando um contraste extremamente interessante com os releases mais descontraídos do N.Flying (que é a outra banda meio idol que bate de frente com eles no mercadeiro mainstream).

A faixa fala sobre a sensação entorpecida de passar dia a dia preso em uma rotina sem ver um propósito maior. A melodia reproduz esta sensação com um som contido, focado principalmente na bateria em primeiro plano, sugerindo uma leve mudança de elementos com sintetizadores e teclado ao fundo. Apenas a partir do segundo refrão, no pós-refrão e na bridge é que temos algo mais explosivo, com os acordes da guitarra, o que aumenta a sensação de que eles estão gritando a letra de uma forma meio desesperada:

“Eu sinto que virei um zumbi

Com uma cabeça e um coração vazios

Um espantalho sem cérebro

Desde quando eu acabei assim? Por quê?”

Tradução do refrão da versão coreana da música

Não sei para você, mas se sentir um zumbi em meio a este contexto mundial parece ser algo bem mais próximo do meu dia a dia. A inexistência de um prazo ou até mesmo de uma certeza de quando esta situação vai acabar, traz a necessidade de ocuparmos nossa mente com algum tipo de distração.

Inicialmente, este post ia partir deste ponto para refletir sobre algumas ideias sobre produtividade (como ela pode trazer sensações de propósito, normalidade e estabilidade, mas, ao mesmo tempo pode consumir nossa saúde e bem-estar se estivermos imersos na lógica capitalista de monetização), mas depois de reagendar o post umas três vezes (eu tinha terminado de escrever ele pouco depois de terminar o post de Gee) e ver alguns vídeos, em especial um desabafo da Louie Ponto, eu decidi mudar um pouco a abordagem e falar um pouco sobre como este sentimento de “ser um zumbi” chega até a ultrapassar a ideia de um setor único da vida ou uma lógica única dentro de como refletimos viver em sociedade.

Acho que já deve ter dado pra perceber que eu penso e muito sobre as coisas (é overthinking que chama, né?). Enfim…

Vivemos uma época de alto consumo de informações em tempo real (tanto que é por conta disso que, graças aos céus, conseguimos acompanhar k-pop, j-pop, c-pop, enfim…) e a contínua exposição a novas informações (e dicas, tutoriais, hacks…) pode nos convencer de uma noção cruel e dura de novidade e produtividade. Acho bem nítido este contexto em meio ao cenário capopeiro, já que toda semana tem algum lançamento novo pra falar, o que estimula a gente de uma forma meio que positiva.

Desde o ano passado, eu comecei a estudar muito sobre redes sociais, principalmente o instagram. Na tentativa fracassada e meio megalomaníaca de voltar com o blog no começo do ano, eu cheguei a falar um pouco disso e como estava tentando aplicar isto a meu grande objetivo final de ir divulgando meus desenhos e fazer uma transição de carreira. Eis que, depois de tanto estudar sobre, eu não consegui aplicar quase nada direito (ou pelo menos que eu enxergava enquanto “a forma correta”), pois não conseguia manter uma consistência no que desenhava e postava. Eu cheguei em um nível que tinha três contas de instagram diferentes e já não conseguia mais entrar nele, pelo próprio choque de ver tanto conteúdo sobre produtividade no meu feed e tantas comparações que surgiam sobre desenhistas que já estavam se estabelecendo na sua carreira o suficiente para conseguir tocar a quarentena sem esta preocupação na cabeça.

E então eu parei de entrar no instagram, comecei a ver vários vídeos no youtube e voltei aqui com o blog. E, sinceramente, acho que escrever aqui é a coisa que mais estou conseguindo tocar neste momento…

Isto se dá muito porque eu estou me permitindo me regular menos sobre o que eu posto aqui e sobre toda a questão de divulgação para que mais pessoas conheçam o Aquário Hipster… Claro que já pensei em criar um instagram, um twitter ou até ressuscitar a página de facebook para trabalhar na divulgação.

Mas eu não consigo. Não ainda…

Existe um ponto em Zombie que deixa a mensagem da letra ainda mais real e relacionável: um dia antes do lançamento do single, todos os membros do DAY6 entraram em hiatus para alguns dos membros cuidarem de sua saúde mental (vai com Google tradutor que dá pra ler kk). É incrível como isto se reflete na música e torna a mensagem ainda mais real e, de certa forma, cruel, até porque não estamos acostumados com este tipo de franqueza no kpop.

E este fato me fez pensar que existe um período estranho nisto tudo, sabe? Depois de vários vídeos e textos sobre a quarentena, entramos em um contexto estranho em que este parece ser o novo “normal”. Esta realidade estranha em que estamos de quarentena (ou, pior, que estamos ainda sendo obrigados a sair para trabalhar mesmo com o número de casos sempre aumentando, o que é uma realidade para muitas pessoas) parece que não terá um fim ou, se tiver, nos mostrará uma realidade completamente diferente da que tínhamos no começo de 2020.

Eu achei que este tipo de pensamento era “errado” ou era “ruim” e os auto questionamentos continuaram loucamente, como o próprio DAY6 faz a si mesmo na música. Afinal, eu não me via como uma pessoa que super se animava com a ideia de sair de casa todos os dias e sempre chegava a um certo raiva limite por ter que manter uma rotina de “saídas” para não desagradar amizades ou conhecidos.

Mas o mais bizarro disso tudo é que toda esta questão justamente foi afastando as pessoas e, desta forma, eu me sinto mais sozinho que nunca (e eu não sei se eu vou ter a coragem de postar isso porque eu tô escrevendo tudo na emoção, mas talvez seja justamente este tipo de sinceridade que vai me fazer bem continuando a tocar com o blog agora).

Se no início da quarentena as pessoas começaram a se aproximar, agora, voltamos a uma época em que muitas pessoas visualizam e não respondem. E desaparecem! Eu dei uma lida sobre isso e descobri que esta situação foi meio generalizada porque as pessoas tem medo de não conseguir manter as relações “a mais” depois que a quarentena acabar. Ou seja, em um momento que estamos fisicamente isolados, nos sentimos ainda mais solitários do que se poderia imaginar em um contexto de internet e redes sociais (e eu estou escrevendo no plural porque tenho certeza que não sou o único a me sentir assim).

Talvez este post esteja tomando proporções maiores do que eu imaginava. Talvez este tipo de post não faça o mínimo de sentido, afinal, é mais um desabafo do que qualquer outra coisa… Ou só uma forma de autossabotar o blog, a única coisa que parece que tá funcionando pra mim nesta quarentena.

Mas, sabe, eu confesso que, por muito tempo, eu me senti silenciado sobre as coisas, e é bizarro porque isto entra em níveis absurdos. Seja por orientação sexual ou até mesmo por gosto de música! Em um contexto de trabalho, faculdade, escola, enfim… Por toda a trajetória, parece que nunca “acertei” no que deveria gostar. Via anime, mas não gostava de shounen. Via série, mas calha de ser justamente as que ninguém conhece. Lia super-heróis, mas não gosto da pancadaria. Escuta pop, mas coreano.

E, ainda, nos últimos anos, até dentro do k-pop isto ocorre: fica nítido fora da blogosfera o quanto não exaltar BTS e BlackPink loucamente é considerado “errado”. E aí, por receio de ser silenciado novamente, você começa a querer ser “menos” errado e fazer posts GIGANTES sobre grupos que, por mais que você esteja dando uma chance de conhecer, não chegam nem perto de seus favoritos. E então sua voz perde totalmente o sentido porque você só tá reproduzindo a cultura hegemônica…

E, de repente, só falar sobre algo que eu gosto virou algo extremamente difícil e complexo (e, claro, que bateu agora a sensação de que todo este texto é justamente complicar algo que não é complicado…). No meio disto tudo, ainda tem o receio de ser engolido pelo meu passado e voltar a querer ser “menos errado”, próximo a me sentir tão deslocado como quando na época que eu comecei a escutar k-pop lá pra 2012…

Enfim, no momento, eu estou seguindo na medida do possível, com uns dias melhores do que outros, e alguns dos melhores resultados do que fiz nesta quarentena para minha saúde mental foi me inscrever no ENEM (sabe-se lá quando será) para fazer Artes Visuais e me “dar o luxo” de ser mais sincero comigo mesmo.

E, no fim, este post é meio que isto: ser sincero comigo mesmo (publicá-lo parece que dá mais força pra tudo que eu tô escrevendo aqui, não sei dizer muito bem como…)

Um grande poder em Zombie é justamente esta sensação de afinidade e identificação que sentimos ao escutar e entender a mensagem ali proferida. Traz o sentimento de que não estamos sozinhos e que tudo vai dar certo no final. O vídeo que falei da Louie Ponto trouxe um pouco disto também, então, tipo, vai que você que tá lendo isto se identifica e isto te ajuda de alguma forma?

DAY6's Jae updates fans on how the members are doing after hiatus ...

E este foi mais um post reflexivo aqui no Aquário Hipster… Zombie está virando uma das melhores músicas do ano pra mim (apesar de o resto do álbum ser bem decepcionante por ir mais na rota comum e falar de dor de término de relacionamento amoroso). Temos mais lançamentos pelos quais estou ansioso nesta semana (Sunmi e Hwasa e até o AB6IX <3) e estou trabalhando em outros três novos posts sem toda esta autorreflexão “mais leves”: dois que focam mais na história do kpop e a próxima Album Review.

Se você leu até aqui, espero que tenha gostado e que toda a reflexão/desabafo ali em cima tenha te ajudado de alguma forma nestes tempos estranhos. Eu só queria finalizar compartilhando uma playlist que montei no Spotify pouco depois que lançou Zombie, só com músicas que trazem um clima parecido e me ajudam a estar na bad sem me sentir culpado por por isto:

Tem de HyunA a Marilyn Monroe e tô sempre adicionando alguma música nova que lembro que combina…

PS: Já passou um tempinho que isto explodiu na internet, mas é importante lembrar do que está ocorrendo com os protestos contra violência policial ocorrendo em vários lugares do mundo (inclusive aqui no Brasil). Percebi que é crucial neste momento procuramos nos informar e ajudar como puder (principalmente nos conscientizando sobre racismo). Não estou no meu lugar de fala aqui, mas estou dando o meu melhor para aprender a ser antirracista (é o mínimo do mínimo que posso fazer sobre tudo isso). Se você quiser/puder ajudar, clica aqui e dá uma olhada nos links do Black Lives Matter, compartilhando se possível. Em relação a conscientização, eu vi um vídeo muito bom falando sobre racismo para dar os primeiros passos para ter atitudes antes antirracistas, clica aqui pra dar uma olhada. Muito obrigado por ler o post até aqui!

3 comentários em “Zombie, DAY6: A produtividade em tempos de quarentena

  1. Nossa, quando você disse em outro comentário meu que a letra de Zombie em coreano era melhor, não pensei que seria tão reflexiva assim.

    Mas na real, seu texto é muito relacionável, e incrível a forma como consegue expor seus pensamentos.
    Bom, eu costumo pensar que a maioria das pessoas está tendo problemas pra lidar com a situação atual (seja fisicamente, financeiramente, psicologicamente, etc), quer dizer, ninguém, de fato, sabe 100% como passar invicto em uma pandemia, é completamente novo.
    No meu caso, quando achei que o isolamento só fosse durar um mês, procurei ser ativa, continuei estudando pra concurso, ainda na luta atrás de emprego, mantive contato com muitas pessoas, e fiquei em casa direto. Depois de três meses, tem dias que eu nem quero sair do meu quarto, que dirá fazer todas as outras coisas que fazia antes, e sem ter uma previsão de quando vai melhorar.
    Eu percebo que me tornei mais introspectiva nessa quarentena, pois não sinto vontade de conversar com ngm, exceto minha melhor amiga e meus pais, mas fora isso e em dois ou três grupos perdidos no whats, tenho ficado bem isolada. Não sei dizer agora se isso vai ter consequências mais pra frente, porém por enquanto tô lidando como posso.

    Acredito que não devemos nos cobrar tanto, alguns dias são bons, e outros não. E tá tudo bem. Obviamente que eu falo isso do conforto do meu lar, do privilégio de estar com minha família, fisicamente saudável, abastecida e etc. Não posso opinar em outras realidades. Mas posso entender o próximo e tentar ajudar. E tenho feito isso lendo muito mais sobre diferentes assuntos que importam a sociedade e até conversado com estranhos (coisa em que eu não sou muito boa).
    Por fim, seu desabafo foi absorto, e em certas partes até colocou um leve sorriso no meu rosto. Eu chamo minhas crises de ansiedade de “momentos”, nao gosto do peso que a palavra crise carrega junto com ansiedade, então prefiro dizer que são só momentos, com a esperança de que logo vai passar e que esses momentos não me definem por completo. Meu ponto é: não estamos só dentro do caos ambulante que é a mente humana. E espero que você consiga lidar com seus próprios momentos.

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    1. Nathalie, muito obrigado pelo seu comentário!!! ❤

      É estranho que esta concepção de que não tá fácil pra ninguém nesta quarenta acaba parecendo bem menos óbvio numa primeira olhada, né? kkk Eu lembro que vi num lugar que as pessoas mostram sua melhor versão nas redes sociais (assim como fazem em relações "offline") e é algo que sempre tenho de ficar me lembrando @.@'

      Estes períodos de autorreflexão proporcionados pela quarentena são estranhos… Tipo, esta sensação de ser mais introspectivo dá a oportunidade pra gente se permitir ao autoconhecimento e talvez tomar decisões melhores pra nós mesmos no futuro xD Eu já estive nessa lógica de estudo pra concurso (acabei descobrindo que não é muito pra mim os empregos públicos no processo) e desejo muita força e boas energias para seus estudos ❤ E uma coisa que eu aprendi depois que passei vários meses desempregado é que as vezes tá demorando justamente porque um emprego que é a sua cara (seja porque você vai aprender muito e crescer como pessoa ou que você só goste das tarefas mesmo) ainda vai aparecer.

      Esta parte de ler e pesquisar sobre vários assuntos é muito relacionável, meu deus!!! Meu youtube se intercala entre análise de conjuntura política brasileira e kpop kkkk

      E eu fico muito feliz que o post tenha trazido pelo menos alguns sorrisos e um pouco de identificação ❤ Inclusive, adorei seu raciocínio sobre a utilização da palavra "momentos" ao invés de crise, vou passar a usar também ^^ Mando muitas boas energias para você lidar com seus momentos também \o/

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