Maria, Hwasa (ft. Girls, Nature): O papel do terror no verão coreano

De junho a agosto, existe uma certa expectativa no meio capopeiro referente ao chamado “single de verão”. Muito se fala sobre os singles de verão do SISTAR e da HyunA, e como ninguém conseguiu reproduzir o impacto do lançamento destes atos de forma coesa e consistente desde que elas saíram deste contexto.

Enquanto procuramos o próximo single de verão, vemos alguns lançamentos bizarros nesta mesma época, com conceitos sombrios, letras obscuras e alguns clipes que até chegam ser perturbadores. A bola da vez foi as nugus do Nature com seu clipe banido tendo de ser censurado por ser “perturbador” e o segundo single solo da Hwasa, Maria. Apesar de lançamentos como estes soarem estranhos e fora de época lançamentos se pensarmos na ideia de “single de verão”, não poderia ter melhor data de lançamento que esta para o contexto coreano!

Popularizado pelo icônico SISTAR, a imagem que temos do que conhecemos coletivamente enquanto “single de verão” emula o ideal de verão ocidental, com singles na praia (ou gravados no próprio Estados Unidos) sobre amar e curtir a vida com batidas extremamente rápidas, refrões chicletes e o clipes coloridos e bem claros, sejam com biquínis/maios sensuais ou com regatas e shortinhos.

Um dos primeiros expoentes desta nova onda sazonal, vem de 2011, com os singles Hot Summer, do f(x) e Bubble Pop, da HyunA (So Cool, do SISTAR, segue um pouco a lógica do que chamamos de “single de verão” mas não demonstra utilizar muito de “summer vibes” como conceito), se consolidando com Loving U, do SISTAR, em 2012.

É interessante pensar que estes singles surgem em uma época que o k-pop buscava se aproveitar da nova onda hallyu para se popularizar não apenas nos outros países da ásia como também no ocidente. Em 2009, temos o sucesso de Gee e a explosão de mais um dorama nos televisores asiáticos, Boys Over Flowers, que foi aumentando os planos de empresas como a JYP e a SM de popularizar suas marcas internacionalmente com músicas em inglês a partir do Girls’ Generation e das Wonder Girls.

Não é a toa que o clipe de Bubble Pop remeta a Crazy In Love, da Beyoncé, assim como Hot Summer é uma versão de um sucesso alemão de 2007. Subliminarmente, existia uma tentativa de deixar a música coreana um pouco mais palatável para um público ocidental (e para o setor do oriente que consumia a música norte-americana e europeia), de forma a atrair mais fãs para os artistas e, consequentemente, aumentar o lucro das empresas, marcando a Coreia do Sul culturalmente em âmbito mundial (boa parte da cultura pop coreana envolve a auto-afirmação da Coreia enquanto país independente do Japão e da China, mas isto é assunto para outro post).

A surpresa é que a estratégia se provou um grande sucesso também entre o público coreano (por mais que Bubble Pop tenha sido um viral no youtube, ele é, de longe, o single mais bem sucedido da carreira dela em território coreano), o que apenas incentivou as indústrias a seguirem este caminho também para o próprio mercado, aumentando o número de “singles de verão” exponencialmente conforme os anos passavam (gostem ou não, todo ano tem uns dez singles nesta época que tentam apostar nesse conceito).

Isto, porém, obscurece um fato curioso da cultura coreana que pode nos escapar a primeira vista: verão é época de terror!

NATURE Finally Released the Uncensored MV 'Girls' - Regard News

É uma crença antiga na Coreia do Sul que se assustar ajuda a resfriar o corpo durante o verão, baseado no fato de que os sintomas que demonstramos quando nos assustamos (tremer e sentir um arrepio, por exemplo) são parecidos com o que sentimos quando estamos com frio. Apesar de já ser cientificamente provado o oposto (pela aceleração de batidas do coração, pode-se dizer que a nossa temperatura corpórea aumenta quando nos assustamos) esta crença ainda é muito forte no imaginário sul-coreano.

Neste sentido todo verão começa uma febre de terror na Coreia: em cinemas, em doramas e até mesmo em peças de teatro! Então lançamentos como o da Hwasa e do Nature nesta época fazem todo o sentido:

A ansiada continuação da carreira da Hwasa depois de explodir com Twit no ano passado, desta vez com um mini-álbum, tinha tudo pra finalmente trazer um lançamento encorpado digno do hype (algo bem parecido com o que acontecendo quando a Sunmi lançou Warning). Considerando que ela parece estar mirando no equilíbrio entre idol e artista que a ex-Wonder Girl conquistou, esta comparação faz ainda mais sentido.

A música traz uma mensagem de autoaceitação, a partir da personificação de Maria, a quem Hwasa está dizendo palavras de motivação, apesar de ter aberto a faixa falando que está se sentindo cansada e triste, com dor no estômago e na cabeça. A utilização de elementos gore e com um pouco de terror psicológico se misturam às analogias de dores da letra, seja com ela se alimentando de um cérebro, que poderia ser o seu próprio (já que ela “morreu” no começo do clipe), e indo parar em uma espécie de hospício distópico para ser lobotomizada ou pior (percebam que isto associa diretamente os sintomas externos – dor na cabeça e no estômago – com os sentimentos que citei).

Junto à melodia, o vocal dela se mantem contido, com quinhentos elementos diferentes se alternando entre si, sendo bem aquele tipo de música que cada vez que você escuta percebe algo diferente (Twit é meio assim também). Mas a bridge… Por que colocar uma bridge de latin pop DO NADA super brusca pra depois nem incorporar estes elementos no último refrão ou fazer relação com a letra (ela poderia estar mostrando um lado diferente da mensagem quando a música ficasse mais rápida…).

Enfim, apesar do vídeo ter ficado legal, a letra ser profunda e a Hwasa ser minha preferida no Mamamoo, eu ainda não consigo engolir ela muito como solista… Depois de ter escutado o álbum (que achei bem qualquer coisa), esta impressão ficou maior ainda…

O Nature foi para uma abordagem um pouco mais coreana em seu conceito, representando a cheonyeo gwisin, a fantasma virgem, comumente representada por um rosto pálido, um cabelo liso e preto comprido e um vestido brando. Estes espíritos são forma mais comum de histórias de terror que temos na Coreia, então foi algo bem orquestrado pro verão mesmo (e provavelmente foi por este contexto que a Mnet resolveu censurar o clipe original delas no lançamento que depois elas lançaram no Youtube da mesma forma).

E não é só no clipe que o conceito das cheonyeo gwisin está presente. Na letra, elas falam sobre um amor inocente, meio infantil, que, pelo que dá perceber por alguns versos, ao mesmo tempo é obsessivo e meio assustador. Os fantasmas presentes na mitologia coreana, diferente do que estamos acostumados no ocidente, costumam assombrar apenas as pessoas relacionadas a sua vida e morte (se você já viu Hotel Del Luna ou Mystic Pop-Up Bar deve ter percebido isto) e o alvo destas fantasmas costuma ser o homem que elas amaram e inconsequentemente as levaram à perdição… Por isto que a letra meio romanticazinha faz todo o sentido!

No fim, eu gostei tudo na teoria e achei que o lançamento foi extremamente redondinho e bem executado, mas não sei se grudou muito na minha cabeça não. Apesar de vozes etéreas e sóbrias, o instrumental ainda é meio derivativo dos houses e dancehalls lá de 2016 (que eu já enjoei um pouco), mesmo que com uma carga mais dramática. E eu acredito que elas poderiam ter tentado um plot mais linear para o clipe, ao invés de várias cenas creepy, que, apesar de serem interessantes e bem feitas, poderiam ter uma liga melhor entre si.

Por mais que todo o caráter internacional do kpop seja uma parte de seu charme, é interessante ver que uma parte da cultura e das tradições coreanas ainda se mantem presentes mesmo que subliminarmente, né?

No fim, entre os dois lançamentos eu preferi as fantasmas do Nature, mas, pra mim, NENHUM lançamento de terror no verão ainda conseguiu superar esta pérola do Nine Muses, direto do verão de 2017:

Tem terror psicológico, as cheonyeo gwisin, um instrumental interessante, interpretação vocal sóbria, deprimente e potente, tudo ao mesmo tempo… PER-FEI-ÇÃO!

PS: Já passou um tempinho que isto explodiu na internet, mas é importante lembrar do que está ocorrendo com os protestos contra violência policial ocorrendo em vários lugares do mundo (inclusive aqui no Brasil). Percebi que é crucial neste momento procuramos nos informar e ajudar como puder (principalmente nos conscientizando sobre racismo). Não estou no meu lugar de fala aqui, mas estou dando o meu melhor para aprender a ser antirracista (é o mínimo do mínimo que posso fazer sobre tudo isso). Se você quiser/puder ajudar, clica aqui e dá uma olhada nos links do Black Lives Matter, compartilhando se possível. Em relação a conscientização, eu vi um vídeo muito bom falando sobre racismo para dar os primeiros passos para ter atitudes antes antirracistas, clica aqui pra dar uma olhada. Muito obrigado por ler o post até aqui!

5 comentários em “Maria, Hwasa (ft. Girls, Nature): O papel do terror no verão coreano

  1. Eu não sabia dessa superstição deles, achei bem interessante. Sobre a Hwasa eu gostei mais de twit, mas reconheço que ela sabe exalar uma sensualidade latina que eu não vejo na coréia.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Fiquei surpreso em saber dessa crença deles, isso explica mto lançamentos mais Dark na época do verão (Creio que em 2018 só Hann do (G)I-dle bateu nessa tecla, né? Ou tivemos outros?).
    Nature me pegou tão forte que o vídeo sem censura só me fez gostar ainda mais de Girls. O da Hwasa tbm ficou bom (Oq peca mesmo é o dance break que não conversa em nada). Se não ouviu ainda, tem o EP que está ótimo, gostei de todas basicamente

    Curtido por 1 pessoa

    1. Não lembro de cabeça nenhum nome muito forte de 2018 (foi o ano da polêmica da HyunA e como stan hard só isto ficou na minha cabeça desse verão kkk – E os singles da Hyolyn claro kkk), ou seja, se teve deve ter sido de boyband kkk
      O EP eu ouvi mas não curti muito a vibe não… Sabe quando você sabe que tá muito bem produzido, cheio de conceito e tudo mais, mas, mesmo assim, não cai no seu gosto??

      Curtido por 1 pessoa

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