1 Billion Views, EXO-SC: Retrofuturismo e nossa relação com a tecnologia

EU ESTOU CHOCADO!!!!!!

Acho que só esta frase em capslock já representa e muito minha relação com este comeback. Com a volta da unit de rappers do EXO esta semana, eu fui escutar o debut deles ano passado e o clima de R&B mais rap chill era tudo que eu queria e não recebi no último comeback do Zico. Mas, mesmo estando empolgado, eu simplesmente não esperava por isto…

MEU DEUS! Vamos lá…

As duas referências que eu pego de cara escutando isto aqui é o disco aéreo de Say So, da Doja Cat, e o visual retrofuturista de Retrofuture, do falecido ménage da HyunA Triple H. Como um grande fã de disco, desde sua forma clássica até suas trocentas reinvenções com o passar dos anos, a faixa se encaixou com meu gosto pessoal como uma luva. 1 Billion Views é uma música suave, dominada pelo baixo e pelos sintetizadores de teclado, que te caminham para uma viagem em um espaço extremamente amplo, como os gêneros de house e dancehall propõe antes de ficarem completamente esgotados depois de virarem modinha em 2016, com mudanças sutis em sua melodia e seus vocais o suficiente para ainda te manter interessado, sem uma grande explosão ou impacto.

E nos vocais acho que temos a maior diferença aqui do que do comum para disco. Como tanto Sehun e Chanyeol não são, bem, as maiores vozes do EXO, então faz todo o sentido eles manterem um tom baixo, suspirado, por praticamente toda a faixa, o que é o contrário do que se observa neste tipo específico de música, que conversa muito mais com melismas agudos. Neste sentido, a viagem que o instrumental propõe te leva para “baixo” ao invés de para “cima”, dialogando diretamente com o caráter decadente do retrofuturismo que temos nos visuais do clipe.

Estamos entrando em uma moda deste tão falado futurismo “retro”, que dá uma virada na visão futurística da ficção científica e do eletropop com um aspecto decadente, relacionando a previsão que a sociedade nos anos 60 e 70 tinha de como seria a vida no novo milênio com a onda nostálgica que estamos vivendo. Neste sentido, temos um sincronismo bizarro entre naves espaciais e toca-fitas, filtros de câmera analógica em celulares e a repopularização do disco de acetato e de produtos culturais físicos (algo que, há uns quinze anos atrás, ninguém imaginaria que ia acontecer).

E por que isto é decadente?

Bem, o retrofuturismo traz a subversão da tecnologia e de como ela, apesar de trazer malefícios e benefícios a sociedade, não a modifica TANTO assim, pro bem o pro mal. Na letra de 1 Billion Views temos várias e várias referências a modernidade como vídeos ASMR, resolução em 4K e HD, curtidas, visualizações, web doramas e por aí vai, porém o conteúdo da música em si se trata de um clássico disco: dançar a noite inteira com a pessoa que você tá afim. No clipe, temos um cenário aparentemente futurístico, imitando interfaces de celulares e plataformas online ao mesmo tempo em que temos os clássicos takes de coreografia e em que Sehun e Chanyeol estão com um visual retrô digno do Pinterest.

O clipe, inclusive, acredito que seja um dos melhores da SM em um bom tempo. Apesar de ter um grande orçamento, a empresa nunca fugiu muito dos clipes mais focados na coreografia, o que claro, pode ser algo muito bom e bem executado, mas também pode atrapalhar um pouco o próprio conceito do clipe se tivermos muitas cenas de dança onde poderíamos ter história e interações entre a Irene e a Seulgi os integrantes. E, diferente de todos os clipes do ano passado, Chanyeol e Sehun parecem muito mais a vontade (eles chegam a sorrir!!!) e com muito menos gay panic, diga-se de passagem.

Olhem este skinship, apenas…

E todo este contexto de retrofuturismo trazido pelo conceito do lançamento fica com uma carga ainda mais evidente e autoral se pegarmos alguns detalhes específicos que temos aqui:

  • Sehun e Chanyeol já são veteranos na indústria, então eles trazerem algo mais maduro sobre decadência com um aspecto meio “retrô” soa bem mais natural pra eles do que quando jovenzinhos fazem isso (isto é algo em menor escala do que acontece com o BED.IN e com a nova unit MARAVILHOSA da Lee Hyori que vai “debutar” este mês)
  • Moon, a cantora que faz o feat, apesar de ter poucas linhas, produz a grande parte de seus lançamentos e já fez música pra um bando de atos internacionais, como a Rihanna, a Kehlani, The Weekend e por aí vai… Tirando um pouco o caráter plastificado que todo lançamento da SM costuma ter
  • Assim como no primeiro EP deles, um dos grandes produtores do álbum é Gaeko, parte do Dynamic Duo, ninguém mais ninguém menos que os idealizadores e donos da Amoeba Culture, a empresa indie onde se encontra a HA:TFELT, que também teve seu álbum parcialmente produzido por este cara

Quanto ao álbum, acredito que ainda terei de explorá-lo com calma (inclusive, dar uma olhada na versão física, porque se o primeiro EP deles já era lindo de ver, imagina agora com o conceito retrofuturista?), mas, em uma primeira ouvida, a faixa mais forte é claramente Telephone, onde eles trazem um problema bem atual da sociedade líquida: a ansiedade na espera pela resposta de uma mensagem e como as pessoas ridiculamente somem e nunca mais te respondem sem motivo. Eu estou passando por isto com um (já ex)contatinho e amigos meus, então não tive como não me identificar com a letra, principalmente os “hate you telephone” .

Eu amei este lançamento e acredito ser um dos mais fortes do ano, sem sombra de dúvidas. 1 Billion Views trouxe algo com várias camadas distintas e interessantes, relacionando-se perfeitamente com as modinhas atuais da música pop ao mesmo tempo em que dialoga com nossa sociedade “decadente” cada vez mais dependente da tecnologia (ainda mais em tempos de isolamento social). Sem eu perceber, Sehun e Chanyeol estão calmamente se tornando meus cantores masculinos preferidos do k-pop, apesar de eu nunca ter curtido o EXO tanto assim…


PS: Já passou um tempinho que isto explodiu na internet, mas é importante lembrar do que está ocorrendo com os protestos contra violência policial ocorrendo em vários lugares do mundo (inclusive aqui no Brasil). Percebi que é crucial neste momento procuramos nos informar e ajudar como puder (principalmente nos conscientizando sobre racismo). Não estou no meu lugar de fala aqui, mas estou dando o meu melhor para aprender a ser antirracista (é o mínimo do mínimo que posso fazer sobre tudo isso). Se você quiser/puder ajudar, clica aqui e dá uma olhada nos links do Black Lives Matter, compartilhando se possível. Em relação a conscientização, eu vi um vídeo muito bom falando sobre racismo para dar os primeiros passos para ter atitudes antes antirracistas, clica aqui pra dar uma olhada. Muito obrigado por ler o post até aqui!

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