Holland, Holland: A evolução da representatividade | Album Review 002

Uma coisa que quero muito praticar com a série de Albums Reviews é a periodicidade, então, depois de quase um mês do primeiro episódio @.@’, fiz o possível para postar a resenha do próximo álbum da primeira temporada antes que passasse tempo de mais kkk E, nestas últimas semanas, um álbum que aleatoriamente tocou em looping na minha playlist foi o primeiro EP do Holland, “o primeiro idol abertamente LGBTQIA+ do kpop”.

Embora ele possa não ser necessariamente o PRIMEIRO, seu debut trouxe bastante burburinho por mostrá-lo beijando um carinha e deu visibilidade o suficiente para ele ir se financiando e lançando mais músicas, até fazer um crowdfunding pra lançar este EP (porque, até agora, ele não assinou com nenhuma empresa, por receio de ter sua sexualidade censurada), vamos ver como ficou?

Holland (album) | Kpop Wiki | Fandom

O álbum abre com Nar_C, uma expressão (?) para narcisismo, e segue numa linha house/dancehall, que sinceramente, se não fosse o contexto do lançamento e seu clipe, eu não daria muita bola. Conforme o próprio Holland, a faixa fala sobre narcisismo representando um casal que fica tanto tempo junto que começam a compartilhar certas qualidades… e defeitos. Isto fica bem representado no clipe, conforme vemos o relacionamento dos dois namorados definhando justamente por eles enxergarem no outro as partes que não gostam de si mesmos (principalmente na parte em que vemos o cantor brigando consigo, sendo que, na verdade, ele está brigando com o namorado). A própria utilização de narcisos (a flor amarela que aparece no clipe) é uma demostração subliminar do tema, já que, como o próprio nome sugere, esta flor simboliza o narcisismo.

E além de isto ser um tema incomum pra um single pop no geral, eu, como o carinha LGBTQIA+ que sou, acho MUITO PRAZEROSO ver um música sobre um casal gay que NÃO se trata apenas do aspecto romântico ou do sexual. Na minha opinião, inclusive, este aspecto de ver um reflexo seu no outro fica ainda mais evidente em casais homossexuais, justamente por se tratarem de pessoas do mesmo gênero (e as vezes até pessoas que tem o mesmo tipo físico)… Não sei vocês, mas já vi vários casais, inclusive de amigos meus, que mais pareciam irmãos do que namorados, de tão parecidos que eram.

A voz do Holland não é estas coisas, eu sei. E aqui, apesar da mensagem meio agridoce da letra e do clipe, na música em si, isto não fica tão evidente: a melodia se mantêm constante alterando o primeiro nível das camadas de sua melodia entre o teclado e os sintetizadores, sem nenhum momento muito dramático ou especificamente marcante, e a interpretação de Holland é mais uma declamação do que um canto em si, sendo que apenas no último refrão fica com um tom mais sóbrio, parecendo ainda mais frases suspiradas do que uns harmônicos propriamente ditos.

Mas, pra mim, pelo menos, esta questão de “qualidade vocal” não chega a ser um delimitador pra curtir uma música… Afinal, eu comecei a escutar música por minha conta com os singles da Selena Gomez na época Disney e, vamos ser sinceros… Ela devia ser a que menos sabia cantar das idols teen da época…

Tanto o clipe quanto as fotos deste single são extremamente cinematográficas!! Nem parece que ele é independente com esta boa utilização de orçamento…

O álbum segue com I’m Not Afraid, o segundo single do Holland, cuja mensagem e clipe são uma resposta as reações positivas e negativas sobre seu primeiro single (falaremos mais sobre ele daqui a pouco): desde entrar nos Vídeos em Alta do Youtube a ser utilizado como caso “exemplar” de como o kpop é uma corrupção da alma e do espírito em certas igrejas coreanas. A faixa segue neste estilo mais “amplo”, com os sintetizadores se ampliando em elementos ao fundo da faixa conforme ela chega ao drop explosivo do refrão, dando a impressão que estamos realmente no meio de uma festa como a representada no clipe.

E clipe, devo dizer! O meu grande receio quando o Holland debutou era toda a questão de ele ser gay ser utilizado mais como fanservice do que como representatividade e, bem, neste clipe ele deixa mais do que claro que não é sobre ver dois carinhas héteros se pegando (como alguns doramas/atores de BL propagam), mas sim sobre boa parte do espectro que abrange a enorme e diversa sigla LGBTQIA+. Não que ele tente limitar a representação de toda esta diversidade no clipe, mas está sugerida a existência de algo muito mais amplo que a dualidade entre heterossexuais e homossexuais, e, o melhor de tudo, isto é representado como algo a ser CELEBRADO!!

O clipe tem um estilo cinematográfico digno de uma série teen europeia, confluindo com as mudanças no instrumental conforme os amigos de Holland chegam na casa dele para montar uma festa. Temos vários elementos que dialogam com o padrão e estética “perfeitos” do k-pop, como a presença de pessoas das mais diversas etnias, estar clara a representação de pessoas bebendo e fumando (algo que já deixou um clipe com classificação 19+ no passado), sem contar no REAL foco na drag queen presente (né, SNSD???) e no beijo cheio de língua de mais de QUINZE SEGUNDOS que o Holland dá no carinha da vez, ocupando todo o último pré-refrão do single (que é povoado por um beijo lésbico e um beijo interracial).

Foi como se ele pegasse tudo que criticaram na representação pura e romântica do debut e colocasse em prática, mostrando cenas que dialogam com o público LGBTQIA+ assim como qualquer ceninha de festa e de beijo sem compromisso consegue dialogar com o público hétero.

Na letra, como se espera, temos uma declaração de confiança e de não ter medo de mostrar seu verdadeiro eu, aconselhando-nos a não forçar a se encaixar nos padrões e constatando que, lentamente, vamos desenrolando o nó embaraçado que parece ser este reflexo de nós mesmos (a analogia utilizada na letra é essa mesma). Quanto a interpretação vocal, acredito que o som suspirado funcionou muito bem com a proposta da música e o conceito do clipe, então nem tenho do que reclamar…

Continuamos com I’m So Afraid, em uma transição praticamente perfeita entre uma música e outra, muito provavelmente porque a demo utilizada pra compor as duas faixas deve ser a mesma. Este limite de recursos e a forma como Holland se utilizou deles é de se impressionar, já que os singles foram promovidos como “singles gêmeos” de conceitos e mensagens opostas, dando uma ótima desculpa conceitual para as músicas guardarem estruturas parecidas.

E eu digo apenas “parecidas” porque, partindo de uma introdução de piano que emula I’m Not Afraid e de versos similares, a faixa evolui em um EDM sóbrio, repleto de sintetizadores, que desvia e muito do house/dancehall das faixas anteriores. É uma faixa sombria que retrata uma mensagem sombria, procurando representar a dualidade que o orgulho LGBTQIA+ carrega consigo. Afinal, ainda vivemos em uma sociedade extremamente preconceituosa e violenta. Na letra o cantor dialoga com o seu próprio reflexo, respondendo que, por mais que você tente fugir de si mesmo, não tem como você escapar…

No clipe, temos o que seria uma continuação do anterior (pelo cabelo e roupas do Holland serem os mesmos), quase que como uma ressaca da festa, que se assemelha e muito com o efeito que a sequência das músicas apresentam. Assim, seguidos de um momento de confiança e invencibilidade, podemos “acordar” e nos sentir frágeis ante os contextos que estamos inserimos. Passada a celebração, o grupo e o boy, Holland é deixado sozinho com seu próprio reflexo, representado por uma pessoa que faz uma dança interpretativa em uma cidade aparentemente vazia (tentando ao máximo usar linguagem neutra aqui, já que o gênero da pessoa que está dançando não é especificado – e, convenhamos, não precisa ser).

A câmera acompanha a pessoa que está dançando de forma inteligente, deixando a performance bem mais interessante do que o que costumamos ver naquelas câmeras estáticas que costumam utilizar quando a SM o kpop resolve focar em coreografia. Os movimentos são por ora abruptos e fluídos, me lembrando muito de alguns videoclipes da Sia, não só pela utilização da dança como linguagem para a letra, como também pelo fato de tanto ela quanto o Holland não saberem dançar muito bem e contornarem isso de forma excepcional com desculpa conceitual.

Neverland, o famigerado debut, é o resultado de muitas coisas: os mais de dois anos que o Holland guardou dinheiro de seu emprego para conseguir financiar um debut independente, a experiência traumática em que ele saiu do armário para seu melhor amigo no colegial e foi vítima de bullying ferrenho, resultando, inclusive numa tentativa de suicídio, a criminalização da relação sexual consentida (!!!!!!!) entre pessoas do mesmo gênero pelo Código Penal Militar em um país onde todos os homens são obrigados a servir no exército… Sinceramente, o que mais temos aqui é contexto. E o representado na música é, estranhamente, um reflexo lírico muito interessante sobre isto:

Eu sei, parece só mais uma daquelas músicas de cafeteria hipster que eu e o Lunei os universitários coreanos adoram, mas depois de ler esta análise aqui, eu fiquei boquiaberto com as figuras de linguagem que temos aqui. “Neverland” é o nome original para o que conhecemos em português como “Terra do Nunca”, a utopia em que Peter Pan, o eterno menino perdido, vive eternamente como criança, longe das pressões e obrigações da sociedade adulta. Ao mencionar que estar apaixonado é como a “Terra do Nunca” na letra é, justamente, como se o amor fosse visto como construtor desta utopia pacífica que vemos representada visualmente no clipe. Aqui, o eu lírico dialoga conosco e com o seu par, com figuras de linguagem como seguir o arco-íris da janela e deixar-se guiar pelo sonho adolescente.

É tudo muito lindo e muito puro, como se esperaria de uma música romântica coreana mesmo. Mas, a forma como esta representação dialoga conosco é diferente de um romance hétero, porque sabemos que esta paz é algo apenas temporário e, muitas vezes, escapista, considerando os índices de assassinatos de LGBTQIA+s por dia. Então, conforme o romance é entrecortado por cenas em uma rodovia escura, temos aqui uma representação visual de como esta trajetória pode ser assustadora.

Musicalmente, a faixa é um R&B bem suave movido por violinos e teclas de piano que, se por um lado realmente se assemelha a OSTs aguadas de doramas e músicas de cafeteria, no álbum, permite um desaceleração mais do que bem-vinda das faixas mais ligadas ao house/dancehall, criando um contraste necessário para que o álbum não pareça uma grande música de 30 minutos de tão homogênea que sua tracklist é. Sobre a performance vocal, eu, particularmente, gostei da forma como ele fez um “quase rap” no pré-refrão, apesar da voz dele na bridge não ser lá o melhor momento pra tacar um high note…

Enfim, uma boa faixa de cafeteria… Heize ficaria orgulhosa.

Up finaliza o EP com a faixa mais tropical house e genérica de todo o álbum, falando sobre sentir-se bem com o momento e seguir em frente, de forma bem motivacional mesmo. Tem alguns elementos que achei bem legal na faixa, como o refrão marcado por um sintetizador de violino digno do disco e da forma suspirada que a voz dele aparece lá no fundo em certos momentos dos versos. Fora isto, é uma música bem simples e direto ao ponto mesmo, que como a única b-side de fato de todo o álbum, até que foi bem posicionada na tracklist (se isto ficasse próximo de Nar_C ia soar totalmente genérica e esquecível). Estes temas de seguir em frente funcionam muito bem para encerrar um álbum, já que dá aquele gostinho de To Be Cotinued, digno de bons finais abertos em filmes e séries.

Watch: First Openly Gay Idol Holland Makes Monumental Debut With ...

Todos os lançamentos de Holland nunca caem no meu gosto logo de primeira. As músicas e os conceitos vão crescendo lentamente nas minhas playlist, conforme vou entendo algumas mensagem e sinto a necessidade de ver ouvir mais representativo. Hoje eu posso dizer com todas as letras que ele é um dos meus atos preferidos e, sinceramente, a forma como ele construiu (até porque ele participou da produção de todas as músicas por motivos de falta de dinheiro pra comprar demos) o álbum foi muito boa para um debut com tantos revezes financeiros.

Acho que foi um ótimo começo e, como ele mesmo já nos mostrou, podemos esperar muito mais diversificação sonora e mensagens representativas em seus próximos lançamentos, apesar de a COVID-19 ter pegado de jeito e acabado com os planos dele de se juntar a uma empresa e lançar um full album este ano (ele falou que iria revelar a empresa com o anúncio de quando iria lançar o álbum, mas, com a situação atual, a empresa não ia mais fechar contrato com ele).

Por fim, é importante lembrar que o fato de Holland ser LGBTQIA+ e cantar sobre isso não é, nem de longe, o suficiente em termos de representatividade. O ideal é que existam cantores LGBTQIA+ dos mais diversos estilos e, sinceramente, estou muito feliz em perceber que até na Coreia estamos começando a dar os primeiros passos para isto (apesar de ter descoberto dois casos de cantores aparentemente LGBTQIA+ que não o eram, mas enfim… Altos e baixos): pelo que eu encontrei temos a Sleeq, N.O.M, J BLACK & J PINK, MRSHLL e neufneuf. Se você souber de mais alguém, fala aí nos comentários xD

E este foi o segundo post da primeira temporada de Albums Review aqui no Aquário Hipster! A ideia é que com uma periodicidade fixa (duas/três semanas) sempre tenhamos uma nova review aqui até alcançarmos dez (e eu dar um descanso nestes posts mais longos kk). A primeira foi do (G)I-DLE, agora foi o Holland, qual será o próximo álbum? Dá uma sugestão aí ^^


PS: É incrível como álbuns de crowdfunding saem bons, né? Além deste, lembrei também do Sting do Stellar, que, sinceramente, é tão bem construído que dá raiva que tenha sido feito por uma empresa tão ruim

PSS: Já passou um tempinho que isto explodiu na internet, mas é importante lembrar do que está ocorrendo com os protestos contra violência policial ocorrendo em vários lugares do mundo (inclusive aqui no Brasil). Percebi que é crucial neste momento procuramos nos informar e ajudar como puder (principalmente nos conscientizando sobre racismo). Não estou no meu lugar de fala aqui, mas estou dando o meu melhor para aprender a ser antirracista (é o mínimo do mínimo que posso fazer sobre tudo isso). Se você quiser/puder ajudar, clica aqui e dá uma olhada nos links do Black Lives Matter, compartilhando se possível. Em relação a conscientização, eu vi um vídeo muito bom falando sobre racismo para dar os primeiros passos para ter atitudes antes antirracistas, clica aqui pra dar uma olhada. Muito obrigado por ler o post até aqui!

Um comentário em “Holland, Holland: A evolução da representatividade | Album Review 002

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