SOUL LADY, Yukika: Confissões de um intercambista cultural numa máquina do tempo

Eu curto bastante lançamentos retrô num geral e foi apenas uma questão de tempo (e algumas panfletagens) até que eu fosse conhecer o trabalho de Yukika e suas reinvenções de city pop para o cenário coreano. E, sinceramente, eu não imaginava a reflexão que eu ia tirar disso aqui quando eu apertei play…

Yukika Teramoto é uma japonesa residida na Coreia que lançou hoje seu primeiro full album inspirado em city pop japonês, mas cantando em coreano. Sim, isto é uma sincronia entre duas culturas completamente diferentes (com diversos embates históricos e culturais através dos tempos) que encontraram uma mistura orgânica na figura desta cantora, atriz e dubladora que adora city pop raiz ao mesmo tempo que é fascinada pela indústria do kpop atual.

Diferentemente de atos japoneses como Crystal Kay e Verbal (descendentes de coreanos que nasceram no Japão) e de k-idols de nacionalidade japonesa, como a Sana, Momo e Mina do Twice, Yukika traz uma proposta diferente ao não seguir perfeitamente os moldes coreanos e japoneses para idols, afinal, sua trajetória envolve um intercâmbio cultural imenso. Ela já participou da indústria de voice acting japonesa e do debut no projeto Idolmaster KR que gerou o Real Girls Project (o que é incrível, considerando que este projeto é um spin-off coreano de uma série de entretenimento japonesa). Isto é muito interessante, já que o resultado que temos é algo que lembra as referências coreanas e as japonesas dela ao mesmo tempo, dialogando com ambos os mercados de uma forma única e… nova!

Soul Lady traz um lado mais animado do city pop, dialogando mais com as referências presentes nos lançamentos do BED.IN do que com Plastic Love (como vimos em NEON), mas não deixa de passar o mesmo clima e ambientação que as músicas anteriores: o instrumental recheado de elementos orgânicos está lá, misturado com os sintetizadores oitentistas, junto de imagens urbanas melancólicas e muito brilho e glitter. Claramente o clipe sofreu um pouco para ser gravado em tempos de isolamento social e não chega a ser tão arrasador de quarteirões como o de NEON, mas a ideia de projetar a imagem de Yukika nos cenários com um retroprojetor, como uma alusão a figura de linguagem sobre alma presente na letra foi uma ideia genial!

Toda vez que vejo estas questões de intercâmbio cultural, acabo caindo em um vórtex de pensamento que, inevitavelmente, cai em reflexões sobre apropriação cultural e um grande medo de cair nisso em minha escrita e meus desenhos (se você não sabe, eu escrevo estórias ficcionais e estudo desenho artístico), o que me trava por completo na hora de produzir qualquer coisa. Enquanto pessoa branca, eu tenho este receio gigantesco de mais atrapalhar do que ajudar quando o assunto é representação de personagens de descendência asiática, sendo que, ao mesmo tempo, não me identifico da mesma forma com as narrativas brancas de caráter eurocêntrico que recebemos diariamente. Isto gera uma espécie de contradição na minha cabeça, que me trava e muito na hora de escrever/desenhar qualquer coisa, já que a gigantesca parte das minhas referências culturais são coreanas, japonesas e tailandesas.

Então eu vou trabalhando nisso da forma que posso, estudando sobre o assunto sob a ótica de criadores de conteúdo destas etnias, me forçando a não ter medo de errar e só tentar colocar a mão na massa pra ver o que sai (e, claro, estar pronto para ter que mudar tudo ou, até mesmo, descartar todo um trabalho se ele caiu enraizado em esteriótipos raciais e microagressões que eu, enquanto pessoa branca, não percebi).

E o que a Yukika tem a ver com tudo isso?

Bem, acho que você que está lendo este blog, por gostar de k-pop, já deve ter escutado comentários mais bizarros possíveis, rebaixando não apenas seu gosto musical pessoal, como também refletindo uma cultura xenofóbica contra coreanos (eu já escutei umas coisas que, olha, o sangue ferveu). Então, simplesmente, parece que não há escapatória para quem quer trabalhar no meio artístico e é fortemente inspirado por esta cultura, afinal, não faz sentido querer protagonizar algo que NÃO TEM NADA A VER COM VOCÊ (no caso, a representação de diferentes etnias do leste asiático na cultura) ao mesmo tempo que o que teoricamente seria o “seu lugar comum” ou o local onde você “deveria” se interessar culturalmente não dialoga contigo.

Quando Yukika, que não tem relação sanguínea ou descendência coreana, adentra no mercado, cantando em coreano, mas, ao mesmo tempo, trazendo um estilo tipicamente japonês (o city pop até que teve seu tempo nos anos 80 da Coreia, mas foi rápido e não gerou propriamente um cenário musical que marcou a indústria), ela contraria toda a lógica de “permanecer no seu quadrado cultural” ao mesmo tempo em que mostra respeito pela cultura pop coreana ao não querer “se passar por coreana”.

E isto, pra mim, mostra que é possível mudar a lógica imperialista de dominação cultural que carregamos em nossos genes e fenótipos (vamos lembrar que o Japão ainda explorava e dominava brutalmente o povo coreano há menos de 100 anos) e podemos seguir sim uma carreira na produção cultural que nos inspira sem tirar o protagonismo de quem tem de fato o protagonismo. É um caminho difícil e demora mais do que esperamos para encontrarmos nossa voz, mas tenho certeza de que o processo vale a pena (o fato de Yukika estar no início de sua carreira solo com 27 anos, idade em que as idols coreanas e japonesas já estão vendo o fim de suas carreiras, dá um caráter ainda mais importante pra tudo isto).

AUDIO-K - Yukika - SOUL LADY (The 1st Album) | Hallyu+

Dito tudo isto, fica meio óbvio que eu não só gostei da música como do álbum como um todo, né? No fim, a apreciação musical está muito relacionada em como refletimos nossas experiências nas melodias que ouvimos, e toda a reflexão que Yukika me trouxe com este lançamento (tanto o lado mais negativo quanto o mais positivo) deixou este álbum especial para mim. Eu só espero ele entrar logo no Spotify para eu dar vários streams pelo Last.fm e que as traduções das letras estejam disponíveis internet a fora para eu poder apreciar todas as facetas deste belíssimo trabalho enquanto contínuo a escrever o meu livro e tentar encontrar minha voz enquanto artista…


PS: Já passou um tempinho que isto explodiu na internet, mas é importante lembrar do que está ocorrendo com os protestos contra violência policial ocorrendo em vários lugares do mundo (inclusive aqui no Brasil). Percebi que é crucial neste momento procuramos nos informar e ajudar como puder (principalmente nos conscientizando sobre racismo). Não estou no meu lugar de fala aqui, mas estou dando o meu melhor para aprender a ser antirracista (é o mínimo do mínimo que posso fazer sobre tudo isso). Se você quiser/puder ajudar, clica aqui e dá uma olhada nos links do Black Lives Matter, compartilhando se possível. Em relação a conscientização, eu vi um vídeo muito bom falando sobre racismo para dar os primeiros passos para ter atitudes antes antirracistas, clica aqui pra dar uma olhada. Muito obrigado por ler o post até aqui!

9 comentários em “SOUL LADY, Yukika: Confissões de um intercambista cultural numa máquina do tempo

  1. Vc disse que a música se assemelha muito ao que o BED.IN lançava. Mas eu acho que ela continua muito parecida com a Mariya, tanto musicalmente como no modo de se vestir. E fico feliz que ela permaneça assim! Mas vamos ver se ela muda nos próximos trabalhos ou se ela permanece na vibe oitentista

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    1. Senti assim muito porque NEON era muito parecida com Plastic Love (tem uns partes que o instrumental é igual), mas nessa, a vibe mais animada tem umas referências meio parecidas com as dos singles do BED.IN que seguram um pouco a mão na guitarra, mas como a dupla não se leva muito a sério o contraste visual fica gritante kkk

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  2. É admirável a maneria como vc se propõe a aprender e reconhecer seus erros. Como artista vc tem um grande mérito por carregar essa percepção das coisas.

    Aa, acho que aos poucos tô virando fanzinha de city pop (Vai ser uma delicinha escutar isso na volta pra casa pós pandemia)

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    1. Muito obrigado 💖 Acho que a parte mais difícil de querer ser artista e trabalhar com desenho e escrita pra mim é justamente estar disposto a errar (e não ficar tentando polir tudo ao máximo antes de dar como “finalizado”) e toda esta discussão de apropriação cultural no twitter me pega muito de jeito (felizmente, com o passar das semanas eu vou ficando mais tranquilo quanto a esta questão)

      SIIIIIM!!! Este álbum tem muito aquela vibe de música de trilha sonora xD E City Pop é muito legal, tenho um colega que é super fã e já me indicou umas coisas muito legais, como o lançamento recente de uma cantora japonesa chamada Ai Furihara:

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      1. Caramba! O início me deu uma nostalgia enorme (nostalgia de épocas que nem vivi kkkk)
        Mais uma pra investir😁 valeu pela recomendação✌

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