Abracadabra, Brown Eyed Girls: O nascimento do sexy concept na 2ª geração do k-pop | Águas Passadas 005

Se você conheceu o k-pop há pouco tempo é capaz que nem tenha ouvido falar deste grupo implacável dentro do cenário capopeiro: as Brown Eyed Girls, um girlgroup de QUATORZE ANOS que AINDA ESTÁ ATIVO SEM NUNCA TER MUDADO DE INTEGRANTE. Se isto já parece histórico por si só (mesmo as boybands sendo mais “duráveis” dificilmente elas conseguem manter todo o seu line-up), imaginem descobrir que a resposta destas mulheres ao sucesso de Gee em 2009 foi o início do que hoje conhecemos como “sexy concept”?

Brown Eyed Girls. Quem nunca fez a Abracadabra? | Brown eyed girls, Psy  gentleman, Confident woman

Antes de Abracadabra estourar em 2009 e arrancar o prêmio de música do ano das mãos de Gee, JeA, Narsha, GaIn e Miryo já estavam na estrada com o grupo por três anos. Tudo começou em 2003, quando a Nega Network, uma empresa recém fundada, procurava entrar no mercado capopeiro em meio a queda da grande maioria dos grupos da primeira geração do k-pop. Eles conseguiram o contato de JeA, uma integrante de um grupo de trilhas sonoras para doramas (vamos lembrar que, nesta época, estamos na primeira grande onda de doramas coreanos, que iniciou com Sonata de Inverno, em 2002), e sugeriram para ela coordenar a criação de um girlgroup para a empresa gerenciar.

Como a empresa era pequena e não tinha nenhuma trainee, foi JeA quem sugeriu os nomes a serem selecionados. As primeiras foram Miryo, uma proeminente integrante do grupo de rap Honey Family, e Narsha, uma amiga sua da época do colegial (SIM! A maioria das integrantes debutou com mais de vinte anos!). Ainda assim, a empresa procurava debutar um grupo com cinco integrantes, então começaram audições.

Um dos compositores da empresa viu potencial em GaIn após ela ser eliminada do reality show Let’s Coke Play! Battle Shinhwa! e sugeriu a ela que tentasse a audição (em entrevistas, ela diz que estava chorando no banheiro pouco antes desta proposta). A outra escolhida, Yoari, treinou junto das outras quatro até a empresa decidir o estilo vocal dela não combinaria com o conceito de baladas e R&B que planejava para o grupo e a colocou como vocalista da banda Sprinkler, que lançou só um álbum e disbandou (e a fez virar backing vocal das Brown Eyed Girls em 2010… Olha só…)

Enfim, o palco estava montado e a empresa foi lentamente promovendo as Brown Eyed Girls como um grupo vocal em pequenos concertos conforme as garotas treinavam, até elas debutarem em 2006, após três anos de treino, com seu primeiro full album, tendo como single Come Closer, pretendendo ser um grupo que não mostraria os rostos em clipes ou materiais promocionais…

Já era nítido que o mercado coreano estava ficando saturado deste tipo de som. O single flopou catastroficamente e, para tentar poupar o prejuízo, elas relançaram o álbum com o single, Hold The Line, que estourou. Usando samples de músicas das Sugababes e do Daftpunk, a música conquistou a nação coreana e, por incrível que pareça, ganhou projeção internacional ao aparecer na trilha sonora de um videogame de dança.

O problema é que, apesar do sucesso e do boost que o grupo recebeu, em 2007, as novinhas do Wonder Girls EXPLODIRAM com Tell Me, virando mania e dando o pontapé inicial para uma real consolidação da segunda geração de girlgroups no k-pop. O conceito fofo e as vozes extremamente agudas viraram uma espécie de fórmula para o sucesso.

O som das Brown Eyed Girls estava se tornando datado e precisava de uma atualização rápida se o grupo quisesse manter um mínimo de relevância no novo cenário que se formava e não perder o mínimo de popularidade que conquistara.

Neste contexto, houve duas tentativas em 2008: LOVE, que trazia um pouco de dancepop eletrônico e atmosférico, e How Come, ligado ao eletropop bate-estaca de refrão repetitivo, com direito, pela primeira vez, a coreografia para o grupo. É curioso notar que, apesar de não terem hitado, ambas se parece muito com os lançamentos que o T-ARA vai desovar no ano seguinte em seu Álbum Absoluto.

O problema é que, novamente, um outro girlgroup novinho explodiu no cenário coreano logo no início de 2009 com suas vozes ainda mais finas, calças apertadas e um clipe que, pra época tinha uma resolução INCRÍVEL. O interesse no aegyo cresceu ainda mais, gerando uma avalanche de debuts de girlgroups no ano de 2009.

Era uma época de hit or miss: vários grupos que conhecemos hoje hitaram neste contexto, enquanto não se tinha nenhum nome novo realmente consolidado no imaginário sul-coreano para ocupar os charts. Porém, neste contexto, os grupos que já existiam corriam o perigo de já serem “velhos” demais para acompanhar a moda atual.

Em meio a este dilema, o grupo e a empresa precisavam mudar NOVAMENTE o estilo pra se manter relevantes no mercado. Então, com receio de as melodias mais açucaradas do aegyo mais piorarem do que melhorarem a situação do grupo (afinal JeA, Narsha e Miryo eram bem mais velhas que o padrão para as novas idols e as vozes de três das integrantes não combinariam com a sonoridade aegyo espevitada), veio a ideia de trazer um pop maduro, dançante e de pegada urbana.

Foi assim que apresentaram para as integrantes uma demo chamada “Voodoo”

As integrantes já falaram abertamente que, apesar de gostarem da música (tanto que uma das compositoras dela, Kim Eana, compõe músicas em conjunto delas ATÉ HOJE) , achavam que o conceito não era para elas, sem contar que a única confortável para coreografias na época era a GaIn. Mesmo assim, elas toparam e já encontraram o primeiro empecilho: a censura coreana achou o nome da música, sugerindo uma religião específica, controverso demais, ainda mais por ter um verso que relacionava o objeto do amor cego da letra com uma boneca (fazendo referência a bonecos vodus).

Então, ao invés de tentar mudar o conceito e a letra, apenas trocaram o nome da música para “Abracadabra” e, acreditem ou não, passou (a própria carreira solo da GaIn é cheia de temas “controversos” que sabe-se lá como conseguiram passar pela censura coreana… Afinal, como não esquecer ela falando sobre a bíblia enquanto abre um espacate e se esfrega no chão imitando a fucking serpente de Adão e Eva PARA UM PÚBLICO MAJORITATIRAMENTE CATÓLICO E CONSERVADOR? – cortaram uma parte da coreografia nas apresentações, é verdade, mas o clipe nem é +19 como outros que, por muito menos, foram censurados).

Mas isto não foi o suficiente, todas as envolvidas estavam dispostas a ir mais longe no que seria permitido ser apresentado para o público coreano. A diretora Hwans Su-a (sim! é uma diretorA!) concebeu o clipe de forma a chamar a atenção tanto para as partes narrativas (sempre mostradas em ambientes escuros) quanto para a coreografia (gravada inteiramente com um fundo branco por trás), procurando mostrar o conflito entre razão e emoção por trás do eu-lírico da canção.

Se isto aparentemente parece que vai ser um clipezinho romântico bonitinho, recomendo que dê um play no vídeo aqui embaixo e dê uma absorvida em tudo que tem ali.

Temos a representação de um relacionamento abusivo entre GaIn e um carinha que é violentamente encerrado pela Narsha. Os enfoques mais “sexys” da câmera só aparecem no começo e o objetivo nem é a focar na bunda ou na cintura da Narsha, mas manter um clima de suspense ao não mostrar a cena como um todo.

Na coreografia, dançarinos homens aparecem apenas para a Narsha USAR DE CADEIRA enquanto faz um truque de mágica e depois ficam eclipsados no fundo. Mesmo a cena com o passo extremamente sensual, com GaIn tirando a blusa e se esfregando no chão, é gravada da mesma forma que o resto da coreografia, sem nenhum enfoque mais sugestivo que o da coreografia em si.

E, claro, pra coroar, o homem explode no final com um quase-beijo entre Narsha e GaIn que pode representar desde sororidade feminina até amor lésbico mesmo.

Eu sou homem e não sei o quanto eu tenho lugar de fala pra dizer isto, mas DUVIDO que o conceito e a música seria tratado do mesmo jeito se tívessemos um diretor e um coreográfo (quem coreografou foi a própria GaIn). Este é um dos clipes mais sexys que o k-pop já ofereceu e passa muito longe do que costumamos ver na objetificação dos corpos femininos, seja em aegyo ou em sexy.

Claro que a Coreia, conservadora como é, poderia ignorar completamente isto aqui ou só partir pro slut-shamming mesmo. PORÉM, numa jogada de marketing estratégica, já colocaram no teaser o quase-beijo que deixou os netizens espumando. Em julho de 2009 só se falava no que este grupo iria lançar de tão provocante, criando um espaço que parecia completamente diferente de tudo que a indústria estava entregando, seja em Tell Me ou em Gee.

E então o clipe saiu e o hit veio, COM FORÇA.

Nas partes narrativas, o conteúdo foi considerado provocante e sugestivo, gerando um buzz inalcançável para qualquer outro lançamento da época. Na parte da coreografia, o passo “Sigeonbang chum“, que elas vão mexendo as cinturas de um lado para o outro durante os versos, ficou viral. Todo variety tinha um cover deste passo e até o 2AM e 2PM fizeram um cover em conjunto da música (sem contar que o Psy referencia este passo no lançamento seguinte ao Gagnam Style, com participação da GaIn). Em todo o lugar se falava que a GaIn havia assistido pornografia pra criar os passos e a fofoca só aumentava o buzz e a popularidade em cima do grupo (pouco depois, ela disse que, na verdade, se inspirou em filmes sensuais e eróticos, como Nove Semanas e Meia de Amor).

E, assim, a anti-Gee arrancou o prêmio de melhor música do ano do Girls’ Generation e começou uma onda reversa de sexy concept que caminharam ao lado do aegyo até muito pouco tempo atrás (hoje eu acredito que temos mais facetas de conceitos femininos que apenas o aegyo e o sexy, como era há alguns anos, principalmente em razão dos teen crush/girl crush da vida).

BROWN EYED GIRLS ABRACADABRA NARSHA GAIN JEA MIRYO NEGA ENTERTAINMENT |  K-Pop Zero

Este foi mais um texto pra série “investigativa” do blog: Águas Passadas kkkk Eu confesso que ele estava na minha caixa de rascunhos há uns três meses e agora finalmente consegui terminar! Espero que tenha gostado de saber mais sobre este single e este grupo icônicos ^^

O Aquário Hipster também tem Twitter!! Segue lá se quiser acompanhar indicações e comentários aleatórios de k-pop e BLs, com tweets ocasionais de artes e reflexões político filosóficas: @AquarioHipster

5 comentários em “Abracadabra, Brown Eyed Girls: O nascimento do sexy concept na 2ª geração do k-pop | Águas Passadas 005

  1. Acho interessante a importância delas na industria,principalmente dela terem sido o primeiro grupo de kpop a cantar falando sobre plasticas e como tudo isso afetava elas de certa forma da pressão dos coreanos ao padrão de beleza .Sem conta nas músicas que falam sobre sexo explícita mente e outros com coreografias sugestivas ,poucos conhecem brown eyed girls mas quem conhece ,acaba se apegando a essa aura que o grupo tem ,mesmo não sendo o grupo favorito do kpop de muitos .

    Curtido por 1 pessoa

    1. Siiim xD Elas parecem ser um grupo maduro e franco (desde Sixth Sense, na minha opinião), algo que é muito inusitado no contexto capopeiro… Dá muito a impressão que são quatro colegas de longa data totalmente diferentes que as diferentoes vezes se juntam pra lançar música juntas e cutucar o machismo da indústria no processo

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