Mr. Heart: Doramas coreanos são supervalorizados? | BL Review

Mr. Heart acabou esta semana depois de sua curta duração, marcando mais um pequeno BL coreano a atingir o plano da existência e mobilizar internet a fora. Produzido e lançado pela mesma equipe que fez o hypado Where Your Eyes Linger, Mr. Heart trouxe consigo a tarefa de manter o hype e viabilizar produções BLs em território coreano no circuito mainstream da Viki… Depois de me aventurar resenhando cada um dos episódios de Still 2gether, decidir pegar o drama pra resenhar e ver se vale tudo isso de elogio mesmo…

Eh… Talvez…?

Existe algo estranho que eu percebi depois que assisti Where Your Eyes Linger (que eu não gostei muito por toda a relação entre patrão rico x empregado pessoal subserviente que me irrita toda vez que aparece em romance). Aparentemente, boa parte de vários fandoms BL deitaram para o dorama, alegando não sei quantos mil elogios, sempre ressaltando a “qualidade que se espera de um dorama coreano”… Eu sei que existe um certo esmero visual quando se trata de doramas coreanos em relação a de outros países (assim como acontece nos videoclipes de k-pop) e, nisto, ambos os doramas realmente se destacam, mas, quanto a estória (que teoricamente, é o mais importante), temos alguns pontos a desejar.

Mr. Heart traz uma premissa simples, que, desde o começo promete ser algo descompromissado e fofo (criando um contraste pra fisgar quem não gostou de toda a bad vibe e angst de Where Your Eyes Linger como eu): SangHa, um energético e empolgado corredor de curtas distâncias, começa a trabalhar junto de Jinwon, um carrancudo e sério aspirante a maratonista, como pacemaker (eu procurei a tradução em português, mas achei só “marca-passo” kkk Vou manter em inglês mesmo kkk), só que, secretamente, SangHa é apaixonado por Jinwon desde o colegial e pretende finalmente declarar seu amor por ele.

Em meio a este contexto, somos apresentados a ambos os personagens de uma forma um pouco brusca (com o uso excessivo de flashbacks, na minha opinião, que cortam um pouco o fluxo da narrativa), seguindo uma estrutura comum a um estilo de narrativa chamado de “A Jornada do Herói”:

  1. Apresentação do Mundo Comum: onde vemos como Jinwon e SangHa se comportavam no ensino médio, como correr funcionava para o primeiro como uma forma de contrariar o pai e, também, sua recente frustação ao não conseguir mais vitórias desde que entrou na faculdade.
  2. Chamado para aventura: com a proposta do treinador, identificando que o problema de Jinwon era não conseguir manter um passo constantes pelos 42 quilômetros da maratona (é muita coisa o.o’), de Sangha ser o pacemaker.
  3. Recusa inicial ao chamado: Jinwon é contrário a proposta, mesmo após testar as habilidades de SangHa, e pretende continuar em seu Mundo Comum
  4. Aceitação ao chamado: quando Jinwon erra acidentalmente o quarto em que ia dormir e acaba dormindo junto do SangHa, criando o início da tensão romântica, e, logo depois, é ajudado pelo menino na meia maratona, na qual se sai surpreendentemente bem por causa dele.

Estes acontecimentos são distribuídos pelos dois primeiros episódios de uma forma um pouco confusa e desconexa, criando uma sensação de estranhamento, mas estabelecem o início da trama que traz dois focos principais: o romance entre SangHa e Jinwon, e o trabalho conjunto dos dois para Jinwon ganhar a maratona.

mr. heart | Tumblr

A partir daí, até, mais ou menos, a metade, a trama trabalha muito na química entre os dois personagens (com uma dose ok de fanservice surpreendentemente instrutivo sobre corrida) e como eles se contrastam durante os preparativos para a maratona. SangHa é pequeno e alegre enquanto que Jinwon é grande e sisudo, isto gera uma série de pequenos conflitos entre os dois que mantem a tensão romântica de forma competente por toda a série. A própria aparência física de ambos ajuda nisto (por Sang Ha ser pequeno ele traz uma aura mais descompromissada visualmente, assim como Jinwon, por ser mais alto, consegue contrastar facilmente com o outro antes mesmo de dizer uma palavra).

Imagem

Entretanto, depois que temos uma certa segurança narrativa de como as coisas vão se desenrolar, o enfoque narrativo troca para o Sang Ha e os conflitos começam a ficar um pouco mais sérios.

Subitamente, SangHa revela para Jinwon sobre seu passado de cortar o coração e sobre a dívida que ele tem. Isto muda um pouco a perspectiva para Jinwon que começa a querer corresponder os sentimentos de Sang Ha de uma forma mais fria e prática: encontrando meios para que a dívida do garoto seja paga a partir do trabalho dele como pacemaker. O problema é que, se Jinwon é mais pragmático neste sentido, Sang Ha é mais sentimental, interpretando este tipo de atitude como uma recusa a seus sentimentos (como se o dinheiro fosse pra deixar a relação deles estritamente profissional).

E então, a trama que estava caminhando até que bem e que caberia perfeitamente nos 80 minutos disponíveis começa a ficar grande demais para os oito episódios, assim como Where Your Eyes Linger em seus episódios finais.

A vinda dos cobradores, o aumento dos riscos na maratona (com a ameaça de sabotarem o Jinwon se o SangHa não chegar em primeiro e usar o dinheiro do prêmio para quita a dívida) e todo o conflito que surge por SangHa ter passado por cima do que, nos primeiros episódios, era mostrado como um dos grandes focos da narrativa (a vitória de Jinwon) soam rasos demais para o tempo disponível. Tudo parece muito corrido e rapidamente editado.

A impressão ainda fica um pouco pior pelo excessivo uso de flashbacks perto do final (algo que é bem típico de k-dramas, diga-se de passagem) ao invés de pequenas cenas que poderiam melhorar este desenvolvimento: alguma reação a mais do Jinwon, do capitão e da Hyori (a menina que faz parte da equipe) sobre a súbita mudança do Sang Ha ou como quitar a dívida realmente mudou como o próprio Sang Ha vive…

Subber Meju - Home | Facebook

Isto encerra toda a trama de forma meio abrupta no episódio final, deixando um gostinho meio amargo na boca, por mais que as cenas em que eles declaram seus sentimentos seja extremamente fofa e bem feita (o beijo foi bem muxoxo, mas ok, ok… A química entre os dois foi boa no decorrer da série). Assim, encerramos a narrativa com o amadurecimento de Jinwon e de SangHa após a aventura, onde o primeiro amolece um pouco seu coração e volta a descobrir paixão por correr e o segundo começa a se colocar no papel de protagonista da própria vida, se tornando um maratonista por si só.

Narrativas de doramas são geralmente o que chamamos de character driven, ou seja, focadas em ações de personagens que vão amadurecendo ao decorrer da estória. Em Mr. Heart, houve a tentativa de trabalhar igualmente ambos os protagonistas, de forma que tanto Jinwon quanto SangHa tivessem seu enfoque e sua evolução (algo que ficou bem menos dividido em Where Your Eyes Linger). Porém, por conta de seu tempo curtíssimo e de algumas escolhas de edição, a estória soa como uma resumo de si própria, quebrando um pouco o impacto que poderia ter.

Apesar do carisma dos atores, dos idols envolvidos (a menina que faz a Hyori é a líder do Dreamnote, acreditam capopeiras stans da nugulândia?) e de como a cinematografia é visualmente impecável, Mr. Heart passa longe de ser um dos melhores doramas BL do ano, como está se falando por aí. É uma história curta, fofa que, com sorte, dá certo no cenário coreano para termos espaço (temporal mesmo) para termos um pouquinho mais de episódios e os personagens serem melhor trabalhados em futuras produções da equipe.

E esta foi a primeira resenha do Aquário Hipster de um BL completo de uma só vez… ^^ Foi bem desafiador escolher o que comentar e o que não comentar (assim como tentar não descrever toda a estória no post), mas foi bem menos difícil do que imaginava… kk

Ficou curioso pra ver mais algum BL comentado aqui? Estou pensando se pego algum dos que estão lançando agora (como Oxygen e A Chance to Love), se revisito algo do começo do ano (My Engineer) ou de outros anos mesmo (como HIStory e Diary of Tootsies)… Alguma sugestão? xD

PS: as fotos estão meio esparsas no post porque, como o dorama é licenciado pela Viki, tem muitos poucos screenshots e gifs num tamanho bom pra colocar aqui rondando a internet @.@’

O Aquário Hipster também tem Twitter!! Segue lá se quiser acompanhar indicações e comentários aleatórios de k-pop e BLs, com tweets ocasionais de artes e reflexões político filosóficas: @AquarioHipster

4 comentários em “Mr. Heart: Doramas coreanos são supervalorizados? | BL Review

  1. ainda quero a review de losevick na minha mesa, mas vc tambem pode fazer de alguns bls chineses como guardian ou advanced bravely(mesmo a duas series tendo mais de 20 episodios) ou entao de series que abortam a comunidade LGBTQIA+ sem ser uma historia romantica com 3 will be free

    Curtido por 1 pessoa

    1. Percebi que você gosta de coisas com bastantes episódios kkk Eu ainda preciso ver Lovesick, mas ultimamente tô revendo uma série QUE AMO que o protagonista é LGBTQIA+ (Please Like Me)… Não sabia que 3 Will Be Free era assim, já pensei e assistir e dropei várias vezes kkk Quem sabe eu veja quando acabar Please Like Me xD

      Curtir

  2. Voltei esse post porque ia comentar antes e esqueci, mas como funciona os BL’s em países asiáticos tão preconceituosos, principalmente na Coréia que grande parte até nega que isso exista?? Quer dizer, onde passa? Quem assiste? A mídia fala sobre? Os atores que participam são mais abertos e respeitosos com esse tema? Confusa estou…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Então, é complexo… Porque, tipo, apesar do super preconceito, existe um mercado CADA VEZ MAIOR em BLs (principalmente Webtoons, na Coreia), focado no público feminino e tudo mais. Então, tipo, é capitalismo mesmo, dando uma fetichizada no rolê (que nem ships em boybands) pra ganhar dinheiros. Claro que no meio tem gente querendo aproveitar este espaço pra começar uma discussão (como o Holland, o MSRHLL e, eu acredito, o diretor por trás deste BL), mas o cenário é distante do movimento LGBTQIA+ e do cinema LGBTQIA+. Na Tailândia e no Japão é parecido, mas, como tem há mais tempo (principalmente no Japão), pessoas criadoras LGBTQIA+ estão se adentrando cada vez mais neste setor do mercado e contando suas histórias (recomendo muito o mangá Shimanami Tasogare, escrito por uma pessoa não-binária sobre a vida de LGBTQIA+s no Japão). Um caso inusitado é o das Filipinas, em que o cinema independente LGBTQIA+ aproveitou a onda de BLs e começou a produzir suas estórias seguindo um pouquinho o formato e estouraram no mainstream (por isto que Gameboys, por exemplo, consegue ser muito mais representativo que vários BLs de alto escalão da Tailândia)

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s