Tonight, Black Swan: O que é stannear ironicamente?

Um fenômeno vem acontecendo nas últimas semanas em meio ao fandom capopeiro brasileiro: a “volta” do Rania, um grupo queridinho de stans da Nugulândia, com outro nome, Black Swan, e novas integrantes, entre elas uma brasileira (Leia) e uma senegalesa (Fatou). Entre muitas presepadas e coisas BEM problemáticas, eu nunca fui muito afim de conhecer mais do Rania, porque eu sempre me incomodo de gostar de coisas que já estão falhando miseravelmente (dá um gosto amargo na boca), ainda mais envolvendo mal gerenciamento, integrantes sendo chutadas e se dando mal, e, claro, todo o rolê racista envolvendo a Alex no BP Rania. Enfim, eu pretendia ignorar este lançamento assim como tudo que o Rania já lançou mas ISTO AQUI ESTÁ MUITO BOM!

Eu fiquei pensando no que poderia trazer de novo, já que, da Blogosfera Fundo de Quintal ™, eu devo ser o que menos conhece o Rania. Pensei em falar um pouco sobre esta coisa de stannear grupos falidos e mal gerenciamento de empresas pelo humor (inclusive vi um vídeo bem interessante hoje sobre o papel do humor e da ironia no contexto político atual), mas acho que me falta um pouco de bagagem e paciência pra pesquisar referências.

De toda a forma, eu acredito que existe uma linha muito tênue entre a zoação em cima da Nugulândia e o que realmente gera preocupação e faz sentido tratar de uma forma mais séria. E, convenhamos, este setor de baixo orçamento do k-pop é um palco pronto pra vermos umas coisas bem… Bizarras no humor ácido que podem soltar por aí (umas piadas do ASIANMIXTAPE, por exemplo, teriam envelhecido MUITO MAL se o blog ainda estivesse no ar). O Rania é um destes grupos em que os sonhos de um monte de menina foi pro ralo, explorado pela empresa de uma forma péssima em termos de marketing ainda, o que resultou em coisas como slut-shaming por parte do público coreano. O gosto amargo que falei na introdução fica bem forte.

Não que eu não tenha minhas doses de piadas irônicas envolvendo a Nugulândia… Só acho que é um ponto interessante a se refletir. Afinal, até onde o humor pode ir? E o que as coisas que rimos tem a dizer sobre nós?

Okay… Agora que tivemos uma filosofada, vamos falar um pouco do batidão (eu acho incrível que eu sempre acho um jeito de filosofar em meio a batidão… 😅). Tonight é uma faixa pesada, agressiva, com gritos apocalípticos, coreografia brusca e muito, mas MUITO carão.

A faixa se equilibra numa mistura potente de dance pop com riffs de guitarra que só não estão mais altos que os gritos das integrantes no refrão. Apesar de ser MUITO CURTA (são menos de três minutos), ela consegue seguir todas as partes que precisamos a risca. Temos versos bem marcantes, um pré-refrão que cria a expectativa pra explosão e um refrão cheio de gritos que fecha a primeira rodada. Depois tudo se repete e AINDA TEMOS TEMPO para a ponte moldada no rap e mais um refrão, com os gritos mais apocalípticos do que nunca.

É uma das poucas faixas curtas que consegue entregar algo que soe completo se mantendo bem curtinha mesmo pra aumentar o replay factor.

Sobre a performance, eu dei play no clipe já focando na brasileira, como bom brasileiro paradoxal que é contra o nacionalismo mas tá pronto pra bater palma pra brasileira fazendo sucesso no exterior. Mas isto não durou nem meio minuto, porque a Fatou e a pseudo Yves (Hyemi) me hipnotizaram de jeito no carão. E quando veio a ponte e tivemos um rap que poderia rivalizar tranquilamente com as vozes grossas da rapper do Dreamcatcher e o do Stray Kids?

Resultado: já perdi a conta de quantas vezes eu vi este clipe.

Aí, de boas, tava curtindo… E me veio um pensamento chatinho “mas se você parar pra pensar o clipe é bem objetificador né? Tem até cena emulando os clipes conceituais deitados das Pocket Girls…”. Então, movido pelo meu crítico interno, fui atrás dos bastidores do lançamento e, choque-se: a diretora é uma MULHER!

Isto me deixou muito feliz, de verdade. O nome da diretora é Lee Sagan (o instagram dela aqui) e ela é uma das diretoras da produtora do Zanybros (que faz clipe pra uma caralhada de gente do primeiro escalão), além de ser colunista de cinematografia e editora da ELLE KOREA. Por mais que ainda tenha o sexy concept, ele ter sido montado por uma mulher muda muito a coisa de figura (ainda mais uma pessoa com um currículo desses, a Nugulândia tá podendo, hein?).

Aí pra coroar tudo, vendo os créditos da composição, percebi que tem mulheres participando também! Sério, nem parece a mesma empresa que teve a pachorra de mudar o nome do Rania pra Black Pearl Rania porque colocaram a Alex, uma integrante negra.

O título do álbum, Goodbye Rania, neste contexto, ganha até outro significado. Não é só pra milkar o pouco reconhecimento que a marca tem no exterior. Pode ser, também, uma declaração de que as presepadas do Rania não vão se repetir. Que realmente teremos um grupo com integrantes fora do eixo Coreia-China-Japão que será levado a sério.

Eu fiquei maravilhado com este debut, não tem outras palavras. Tem música boa, integrantes diversas, performances hipnóticas, mulheres na produção e na execução… Isto me deixa um pouco esperançoso para um futuro em que as problemáticas que vemos na indústria musical diminuam cada vez mais. Quem sabe isto gere uma onda positiva na Nugulândia? Só me resta sonhar conforme eu dou play mais uma vez em Tonight.

3 comentários em “Tonight, Black Swan: O que é stannear ironicamente?

  1. Ótimo debut (…ou redebut, dependendo do ponto de vista)! E sobre o vídeo do humor, Rita von Hunty é maravilhosa e sempre proporciona excelentes aulas!

    Curtido por 1 pessoa

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