MAGO, GFriend: O escapismo e idealização necessários da magia

A forma como nos percebemos e como demonstramos isto pode, por muitas vezes, gerar consequências desesperadoras pelas reações daqueles que somos obrigados a dividir 24 horas do nosso dia por conta da quarentena. Neste contexto, os mais diversos meios culturais cresceram neste período, sejam séries/doramas, músicas, livros e quadrinhos. Quanto maior a internalização de reações amargas das pessoas que moram contigo, mais profundo é o mergulho na cultura (seja ela mainstream ou não) para esquecermos de nossa incapacidade de lidar com o dia a dia sem se diminuir e fazer mais mal a si mesmo do que bem… O problema é que, principalmente no mainstream, o rio que mergulhamos é raso demais para a profundidade que sentimos necessária. E, neste contexto, GFriend encerra seu ano primeiro na BigHit com uma das maiores e melhores profundidades escapistas de todo o k-pop deste ano:

Um dos grandes apelos da música disco que todo mundo está se lembrando de emular são os ritmos dançantes e grudentos sonoramente que se repetem infinitamente por megamixes de sete ou mais minutos em discos de vinil. Porém, principalmente quando o estilo aproxima de sua decadência no começo dos anos oitenta, um amadurecimento o gênero musical mostra algo que vai além de combinações de melismas vocais, notas de teclado e cordas de violino: as letras.

Os anos oitenta nos EUA são palco para o início de uma espécie de trend no mainstream que passa a se utilizar fortemente de figuras de linguagem inusitadas para passar conceitos e imagens que vão além das mensagens diretas que marcam as músicas em inglês. É nesta época que os álbuns conceituais ganham forma e popularidade. É nesta época que o amor é um campo de batalha, que pequenas dançarinas dançam em sua mão, que algo pode te levar aos céus como uma reza e que existem homens com olhos de raio X. E, curiosamente, esta moda também está lentamente voltando ao mainstream, só que de uma forma desassociada da onda sonora do disco e do synthpop.

Não me entenda mal, eu adoro disco e entendo que boa parte dos lançamentos neste gênero possuem letras e mensagens bem óbvias, facilmente transmissíveis em duas linhas de refrão. Só que, quando uma letra tem um pouquinho mais de profundidade, o lançamento soa menos genérico e derivativo, melhorando o resultado final como um todo.

MAGO é um destes números. A eu lírica, observando seu futuro eu no espelho, deseja fugir do presente montada em uma vassoura, procurando aceitar e se expressar da forma que deseja, sobrepujando (no 4º verso do refrão) o julgamento do “mago” (no 2º verso do refrão), conforme espera a chegada de sua versão futura, mais completa consigo mesma:

MAGO, MAGO

Vá em frente e me julgue, nunca vou renunciar

MAGO, MAGO

Dance para mim

A noite vai tic tak tic tak

Me sinto tão elevada

A melodia segue marcada pelo baixo e pela bateria, caracterizando um disco bem mais oitentista que setentista. Cria-se uma textura mística no refrão (principalmente nos gritos apocalípticos de my life is waiting for you) que remete a um desespero e rapidez típicas de uma fuga apressada e necessária, como descrito na letra.

O clipe, apesar de lindo (principalmente com a Yuju e a SinB divando loucamente), falha no fechamento desta narrativa, considerando que tanto Apple quanto Crossroads trouxeram imagens visuais que combinavam com as letras de ambas as músicas. Talvez alguma referência maior a espelhos ou a magia tivesse deixado um pouco mais único ao invés de só uma noite na discoteca (mas não vou mentir: Yuju dando uma de wecking ball numa bola de disco foi um dos momentos mais ICÔNICOS do k-pop neste ano).

E o álbum traz o “fechamento” da trilogia (que, apesar de ser meio reciclagem e pedantismo, já é feito há um bom tempo no k-pop… Lembram da série Misconceptions do ShiNee?), com o título Walpurgis Night, uma referência a uma paradoxal festividade cristã do norte da europa em homenagem a Santa Valpurga, conhecida pela sua luta contra pestes e bruxas, apesar da data e das práticas coincidirem com rituais pagãos destas mesmas bruxas assassinadas para comemorar a chegada a primavera. Temos a presença das melhores faixas do grupo no ano na tracklist (Apple, Crossroads e Labyrinth), levemente remixadas (principalmente Apple, que aqui parece um batidão oitentista), junto de três duetos de integrantes, todos com participação das integrantes da composição, que também participarão da criação das letras, do conceito e da melodia de MAGO.

Indo de disco a country EDM, o álbum traz um aspecto diverso que realmente vale a pena ser ouvido (nem que seja uma vez), com destaque para o city pop de Three of Cups.

Download [Album] GFRIEND – 回:Walpurgis Night (MP3)

Eu demorei um pouquinho mais que o comum pra escrever sobre o lançamento e senti que, já que estou escrevendo um dia depois, era legal eu dar uma pesquisada sobre os contextos e algumas simbologias utilizadas.

MAGO, nesta segunda-feira, não foi apenas uma faixa boa para mim, mas também necessária conforme eu vou lidando com as decepções que algumas pessoas “companheiras de quarentena” estão me trazendo pelas menores coisas possíveis. Não tive como não me identificar com a mensagem de fugir em cima de uma vassoura e de aceitar seu futuro eu (ainda mais porque eu amo bruxas).

Eu também estou esperando pelo meu futuro eu chegar e botar o mago que me julga para dançar… Quem sabe no ano que vem esta chegada tenha mais vitórias que derrotas?

5 comentários em “MAGO, GFriend: O escapismo e idealização necessários da magia

  1. Boa sorte nessa sua descoberta sobre si mesmo ,pelo o oque vi no posto você esta bem abalado .
    Fique bem beba água e pense em coisas boas ,nessa vida temos que aposta só mas mãos de Deus, por que o ser humano esta propenso à sempre decepciona .
    Por esse motivo de desejo realmente muito aproveito de si mesmo ,e tudo de bom que você possa tirar de si mesmo sem se importar com opiniões em sua volta .

    Curtido por 1 pessoa

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