Odd Eye, Dreamcatcher: O rock e suas mensagens agressivamente relacionáveis

E Dreamcatcher está de volta encerrando mais uma trilogia de lançamentos! Apesar do grupo não ser tão presente nos meus replays, elas são um dos grupos mais consistentes e interessantes de se acompanhar no k-pop, servindo o seu conceito tantas vezes e de tantas formas que provaram não só que o rock não morreu, mas que também é possível equilibrar inovação com manutenção da identidade sonora visual. Vamos ver o que elas trouxeram agora que decidiram fazer referência ás Loonáticas em seu novo single?

Pelo que eu entendi, a ideia desta trilogia (Scream, BOCA e, agora, Odd Eye) foi trazer novos elementos para o rock típico do grupo, numa mistura de narrativa distópica e mágica envolvendo a Árvore da Linguagem (fanfiqueires apostos!) e uma oportunidade de atrair novos públicos e vender mais. Num primeiro momento, já tá dando certo, porque só no primeiro dia, este último EP já se tornou a maior venda delas no primeiro dia E NA PRIMEIRA SEMANA! A volta da Handong do Produce chinês fez efeito hein?

Enfim, por mais que eu ame girlgroups começando a hitar, vamos ao single.

A ideia de Odd Eye é misturar metal e hip-hop, o que, numa primeira ouvida, já parece ser um recorta e cola menos esquisito que BOCA, por exemplo. Como esperado, a música soa como a junção de gêneros mais orgânica da trilogia, conseguindo encaixar o break de rap muito bem na posição que já tornou comum no k-pop (2º verso) e trazer um refrão com mais cara de metal mesmo.

Não sou um expert em metal, mas o refrão de Odd Eye soa muito como o que eu gostaria de ter ouvido todas as vezes que dei uma chance para o lado mais metaleiro do rock. A guitarra e a bateria explodem numa confusão meio anticlimática e industrial, dando enfoque para a performance vocal das integrantes, que, na boca das bandas clássicas do gênero, seria algo meio rasgado e impronunciável nível Aggretsuko. Apesar de ter tirado o gostinho de um refrão chiclete e apocalíptico, o caráter mais autocontido combina com a mensagem da música e traz um bom contraste para as músicas mais padrão delas, que tem referências mais no j-rock.

Odd Eye fala sobre como elas acabaram não encontrando a utopia que procuravam no final. E como esta perda se internaliza dentro delas a partir de um reflexo distorcido de si mesmas. Afinal, se você não consegue superar suas barreiras e chegar no futuro que deseja, é bem improvável que uma boa parcela de culpa não internalize. “Se não chegamos lá é provavelmente porque não merecemos mesmo”… Né?

Este tipo de pensamento sombrio e derrotista pode acabar com a gente em dois palitos. Usar destas sensações como forma de expressão está no surgimento do rock enquanto movimento de contracultura, porque, diferente do que se espera, a música (e várias outras como ela) não tem um caráter emocional meramente apelativo por ser triste. Ela apela para a identificação que você pode sentir com o que está sendo descrito e, em meio a comunidade de pessoas que também curtem a música e se identificam com sua mensagem, tem-se a prova de que você não está sozinho nestes pensamentos desesperadores, normalizando toda a situação, o que, no processo, faz você lidar melhor com estes sentimentos.

É música com alma e coração. E talvez seja pela crescente falta disto que o rock tenha ficado vazio de apelo e significado na última década. Falta esta coragem de ser sincero com seus próprios sentimentos se utilizando da sonoridade agressiva do rock e seus vários subgêneros (afinal, baladinha costuma ser o go to para este tipo de mensagem confessional), criando este caráter de “unidade” que exalta o fandom como um grupo de pessoas que diminuem sua a solidão pelo mero fato de se identificarem com as mesmas músicas que você.

E o Dreamcatcher, lentamente, prova que consegue trazer este tipo de música sem sacrificar o apelo visual do k-pop (a Siyeon ficou tão perfeita de cabelo loiro… Sério, sem palavras pra caracterização dela) e o apelo sonoro do nicho roqueiro. Cada single segue mais catártico que a outro, aumentando o replay factor, seja o rock escolhido algo que estamos acostumados a ouvir ou não.

Nenhum álbum do Dreamcatcher chegou a funcionar 100% comigo, mas acho que é apenas questão de tempo, visto em como as tracklists delas costumam ser bem variadas e criativas. A queridinha da blogosfera está sendo Poison Love e, considerando que Tweaks dominou boa parte dos tops de fim de ano, faz todo o sentido. A faixa é uma versão mais sombria do club house que estamos acostumados, bem na vibe de “chorar na pista de dança” só que com isto sendo evidenciado também na melodia e na performance vocal das integrantes. 4 Memory é a mais fraquinha, trazendo o tipo de house que estamos acostumados a ouvir, não marcando o suficiente pra fazer altura as outras. New Days e Wind Blows soam como aberturas de animes, o que, de quebra, é uma ótima referência a sonoridade dos primeiros lançamentos do grupo. São bem agradáveis, apesar de não trazerem nada de novo para o que o grupo e as aberturas de anime já fizeram pro mundo (imagina uma playlist só com estas músicas mais animezadas do Dreamcatcher? Deve ser interessante… Vou dar uma olhada depois).

Odd Eye é um lançamento sólido para um grupo sólido. Dreamcatcher é aquele grupo que se tornou tão especialista no que faz, que, se errar, não é porque fez ruim, mas sim porque “arriscou demais”. O que vejo crescendo nos últimos comebacks (além, claro, do cacife pra fazer os clipes) é a importância das letras e da simbologia da mensagem passada. Fazer fanfic por fanfic um monte de grupo já fez, mas aliar isto a mensagens agressivamente profundas e tristes, típicas do próprio gênero que emulam, é de uma precisão mais que bem-vinda para o k-pop.

6 comentários em “Odd Eye, Dreamcatcher: O rock e suas mensagens agressivamente relacionáveis

  1. Gostei tanto da title, foi muito bem construída. Mas a história da trilogia parece ser interessante, só que não vejo as pessoas falando tanto disso. E como não acompanho o grupo, fiquei até interessada. Gosto de lançamentos com história como pano de fundo.

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    1. Então, sou muito fã das estórias, mas, de fato, não se falou muito… Eu costumo dar uma pesquisada rapidinho enquanto to escrevendo os posts e quando tem estória geralmente é bem fácil achar algo… Esse caso foi meio q a exceção @.@’

      Curtido por 1 pessoa

  2. Adorei ess música, por mais que escute ela menos que Boca é muito boa.
    Amo a parte do orquestral e explode a guitarra junto, da essa sensação de força e levanta o ânimo.
    Eu curto ouvir ela quando estou melancólica. Não sei, mas gosto. Eu só não acompanho elas com a frequência que queria e saber os nomes e ouvir este mini porque ando tão atarefada e só vou no automático com grupos que sei de cor e salteado. Foi o tempo que quando via um grupo e passava a semana toda ouvindo e analisando tudo.

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    1. Nossa, eu queria manjar muito mais delas também… kkk

      Saudades dessa época kk Lembro que quando descobri kpop pelo SNSD eu baixava um álbum e escutava ele durante uma semana inteira até baixar o próximo (fui fazendo isso cronologicamente até a era atual da época – The Boys), hoje eu escuto o mini uma vez, quando dá, enquanto faço o post e é isso aí kkk Se não é um ato favorito e nenhuma música me chamou a atenção de primeira, nem vou atrás mais kk

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