3 Will Be Free: Ação, LGBTQIAs+ e reflexões sobre liberdade | “BL” Review

De tempos em tempos, o post comigo analisando Still 2gether e o personagem do Sarawat acaba entrando na lista dos mais vistos do dia do blog. Eu acho isto meio louco porque o Aquário tá longe de ter uma grande sessão de posts que acompanham o lançamentos dos BLs ou de reviews. Mas, considerando isto, eu estava pensando em voltar a fazer posts relacionados a doramas, não só por ser legal, mas por ver esta receptividade.

Pensei em fazer sobre os “Melhores BLs de 2020”, mas aí percebi que vi mais BL de outros anos em 2020 do que BLs que estavam lançando kkkk Então achei melhor só esperar terminar de ver um novo dorama e depois escrever aqui. E este dorama foi 3 Will Be Free.

3 Will Be Free สามเราต้องรอด [Official Trailer] - YouTube

3 Will Be Free é um dorama tailândes diferente do que eu (e acredito que também uma boa parte das pessoas que veem BLs) estou acostumado. Ele não é boys love BOYS LOVE (por isto as aspas no título), mas contem personagens LGBTQIA+ principais, que dividem cena com personagens héteros em harmonia. Além disso, na relação de afeto entre os dois meninos, toda a forma como as cenas são construídas segue muito do que vemos em BL… Então pensei, por que não?

O dorama é a jornada de liberdade de Neo, Miw, Shin, Mae e Ter. Neo é um stripper bissexual/pansexual que foge do magnata Thana e seus homens depois de ter um caso com a esposa dele. Shin, gay, filho de Thana, está frustrado na vida por inseguranças românticas e profissionais. E Miw é a gerente de um bar que foge das violências que sofreu em seu passado. Acidentalmente, os três se encontram e acabam matando Phon, um dos homens de Thana e, no processo, esposa do magnata também morre. Thana busca vingança e manda Ter, o discípulo de Phon, para caçá-los. Neste contexto, Mae, mulher trans (interpretada por uma mulher trans, inclusive), a namorada de Phon, se junta a Ter também buscando vingança, enquanto se aproxima de conseguir uma vaga para uma cirurgia de redesignação sexual. Em meio a esta fuga, uma atração física e sentimental começa a ocorrer entre Neo, Miw e Shin (SIM, ENTRE OS TRÊS), conforme os limites entre o certo e o errado ficam cada vez mais distorcidos para Ter e Mae.

É praticamente como se aquele clipe do Triple H virasse um dorama.

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É uma estória recheada de ação, bem no estilo daqueles filmes de perseguição onde os protagonistas tem que ficar fugindo dos vilões. O interessante (é, claro, além de termos personagens LGBTQIA+ muito presentes num tipo de trama em que quase nunca vemos personagens assim) é como o dorama é MUITO BEM estruturado em termos de ritmo da estória e cinematografia. Tendo apenas 10 episódios, a estória consegue se manter bem frenética e os episódios de, em média, 50 minutos, passam voando. Inclusive, todos estão oficialmente no Youtube, com a grande maioria dos episódios tendo legenda em português.

Para conseguir equilibrar a leitura de quem nunca viu o dorama e quem viu, eu vou primeiro fazer uma análise sem spoilers e, depois de um aviso, eu entro em especificidades da estória e dos personagens (assim não estraga sua experiência se você curtiu a ideia do dorama e ficou com vontade de ver).

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Uma grande supresa que 3 Will Be Free trás é na preocupação que o enredo tem de mostrar o lado emocional de todos os personagens com um mínimo de foco. Todo mundo (e até uns que morrem no meio do caminho) tem um mínimo de aprofundamento psicológico, fugindo e muito da lógica meio “máquina sem sentimentos” que os heróis e vilões costumam ter em filmes/séries com esta pegada mais de ação. Inclusive, um episódio INTEIRO é utilizado apenas para mostrar e aprofundar psicologicamente em um dos protagonistas, algo que é bem incomum em uma trama tão pautada na adrenalina dos acontecimentos.

Os romances que surgem (que fogem da expectativa monogâmica e hetenormativa que costumamos ver nos BLs) soam extremamente naturais e bem montados. Uma relação de amizade e companheirismo é mostrada antes mesmo de vermos o famigerado “crush” e isto, por si só, já é um ponto muito alto pra qualquer relação romântica ficcional saudável.

Além disto, existiu uma preocupação real de todas as minorias sociais envolvidas no contexto da estória fossem tratadas com cuidado. Há vários momentos em que o dorama critica abertamente o machismo, assim como a transfobia, a homofobia e, espante-se, até a bifobia. Isto, claro, sem perder o pulso da sequência narrativa dos fatos que permeiam os personagens e sem deixar a estória dos personagens ser unicamente sobre a violência que sofrem da sociedade.

Quanto a ação e aventura, apesar de não ser minha área de expertise (kkkk), achei que foi algo bem montado e com real tensão de episódio a episódio. O roteiro não tem dó de vários personagens e as atitudes de Neo, Miw e Shin em meio a fuga tem, em sua grande maioria, bastante sentido e lógica, sem soar necessariamente clichê ou previsível. Na real, o dorama tem sua parcela de previsibilidade, mas a coragem que eles tiveram em trabalhar com expectativas foi realmente algo surpreendente pra mim. Quando tudo parece ok, BUM! um dos protagonistas pode estar prestes a morrer.

E a cinematografia do dorama ajuda a trazer este clima de decadência e desespero, como se estivesse mostrando um dos piores lados da sociedade tailandesa para nós, seja por lugares escuros, com poucos recursos tecnológicos, que não tiveram sua construção terminada… É um detalhe bem sutil, mas que consegue se diferenciar muito do típico cenário da faculdade que costumamos ver tanto em doramas héteros quanto BLs.

Agora, começa a sessão de SPOILERS depois da imagem abaixo, então, se você quer ficou interessado em assistir e não quer pegar SPOILERS por causa do post, é só parar por aqui (ou descer até o último parágrafo de conclusão, se quiser).

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A narrativa de 3 Will Be Free pode ser divida em alguns pequenos arcos, que mostram a sequência de locais nas quais o trio de protagonistas está se escondendo: (I) a introdução, (II) o hotel, (III) a floresta, (IV) a cidade natal de Miw e a (V) volta para Bangkok. Tendo uma duração relativamente parecida de 1,5 a 2 episódios, cada pequeno arco funciona como um espaço para aprofundamento dos personagens, além, é claro, de servir como continuação temporal da narrativa da fuga.

O que eu achei muito interessante na estória é que, além de focar na adrenalina da perseguição, cada pequeno arco foi utilizado como uma forma de aprofundar nos personagens, aumentando ainda mais o significado do título: 3 Will Be Free (“Os 3 Serão Livres”). Afinal, a “liberdade” mencionada aqui não é apenas algo físico, envolvendo escapar das garras de Thana (e, depois, do Chefe John), mas algo psicológico e sentimental. Cada um dos cinco protagonistas precisa se libertar de entravas psicológicas e emocionais que os impedia de viver a vida da forma que preferiam.

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O personagem em que isto é mais óbvio é, claramente, a Mae. Desde a introdução, torcemos para ela se levantar contra os clientes opressores e ir atrás de seus sonhos, desejo no qual Phon era praticamente uma materialização. Com a morte dele, ela precisa aprender a assumir estas vontades por conta própria e se libertar das próprias inseguranças. Infelizmente, o final não mostrou muito a conclusão dela para podermos vez a finalização deste processo. Inclusive, o final do dorama deve ser uma das únicas partes em que realmente alguns defeitos incomodaram…

Mas, seguindo com os personagens….

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Shin é o segundo personagem em que os conflitos emocionais e psicológicos estão evidentes, muito por conta da própria forma como ele é introvertido e mais sentimental, tanto que, até a metade do dorama, ele parece meio que o “elo fraco” do trio por conta disto. O personagem precisa superar a sombra do próprio pai e suas inseguranças envolvendo relacionamentos românticos e a arte. Por ter sido rejeitado de uma forma meio exemplar (deu dó…) logo na primeira declaração, ele meio que ficou se culpando, o que refletiu-se até na sua crença de que ele não era bom o suficiente para ser um artista.

Este ponto específico do Shin bateu muito em mim, porque a insegurança que ele descreve no episódio 5 é EXAMENTE o que eu sinto em relação a minha arte. Pra quem não sabe, eu estou prestando vestibular pra fazer Artes Visuais ao mesmo tempo que tento ir postando meus desenhos na internet. Esta sensação de insegurança e da aparente “falta de originalidade e talento” que o Shin acredita ter é algo que lido praticamente toda vez que sento para desenhar. E, pelo que eu vi, isto é algo bem comum no meio artístico, principalmente com artistas iniciantes. Realmente, a verossimilhança do personagem neste aspecto foi tão boa que até chegou a assustar.

Enfim, neste contexto, Shin precisa se libertar do lugar de rebaixamento em que ele mesmo se colocou. Isto fica bem nítido na forma como ele se coloca como “a vela do relacionamento” do Neo com a Miw sucessivas vezes (inclusive confundindo a cabeça de muitas pessoas que não entenderam a relação de poliamor dos três, mas enfim…). Constantemente, ele acredita que não tem como o Neo também gostar dele se a Miw tá por perto. É uma baixa autoestima do caramba que só vai melhorando conforme o Neo e, principalmente, a Miw vão conversando com ele e entendendo o quanto o lado sentimental dele é também um grande sinal de força.

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A Miw, por sua vez, foi uma personagem muito carismática (provavelmente, a mais divertida de todo o dorama) que sofreu O PÃO QUE O DIABO AMASSOU. Achei incrível como a narrativa dela deixa bem claro o machismo da sociedade tailandesa, desde coisas mais “leves” (como xingarem ela pelas roupas que usa) até o extremo da tentativa de estupro pelo padrasto. A personagem é bem feminista neste aspecto, soando de forma bem natural em seus vários momentos em que deixa claro como ela aprendeu a sempre desconfiar de homens. Alguns discursos dela pareceram mais forçados que outros em alguns momentos, mas o resultado final ficou muito bom e natural.

Dois momentos dela marcaram muito na minha memória, envolvendo esta questão: a empatia que ela sente pela dona do hotel, que é espancada pelo marido, e sua predisposição para ajudá-la sem pedir nada em troca, e a cena em que ela critica os argumentos da dona do restaurante em que trabalha antes da volta para Bangkok, culpando-a pelo cliente ter assediado ela. São cenas muito marcantes e que mostram muito mais nuances deste discurso do que apenas a dicotomia de homem super mal X mulher super boa que muitas narrativas trazem quando “tentam” ser “woke”.

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O Neo, dos três, é o mais simples dos personagens (e também o musculosinho que fica sem camisa e tudo mais, importante notar). Ele é um sonhador e quer ter uma vida tranquila, depois de tudo que o trabalho de garoto de programa trouxe de ruim para ele. A liberdade, para ele, tem muito mais haver com a coragem do que com algum entrave emocional. É até interessante, porque ele consegue inspirar facilmente o Shin e a Miw a “se libertarem”, mas não consegue ir atrás sozinho de seus sonhos, bem mais simples e com bem menos complicações que a situação dos outros dois.

O arco romântico dele com a Miw e com o Shin foi muito bem trabalhado, assim como a forma como ele deixa claro sua bissexualidade/pansexualidade. É como se ele estivesse se afirmando diversas vezes não apenas para os personagens a sua volta, mas também para a pessoa telespectadora que não está muito familiar com isto. Fica meio forçado as vezes? Fica. Mas entendo a proposta, já que um personagem bi/pan já é difícil de aceitarem e entenderem no contexto BLístico, imagina uma relação poliamorosa?

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E, por fim, o Ter (sim, o carinha engraçadão de 2gether faz um assassino de aluguel aqui) traz a surpresa de ter um final trágico (algo que eu realmente não esperava que ia acontecer), apesar de toda a transformação que ele passa. Ficou um pouco fora de sincronia com os outros personagens, porque ele só começa a questionar suas próprias ações lá pro final do arco IV, mas ainda foi mostrada a tempo de dar um mínimo de aprofundamento e o alinhar com a trama de liberdade dos outros quatro.

Com ele, a ideia é parecida com a do Shin (preso em um papel no qual ele mesmo acabou se colocando), só que com o agravante de a morte de Phon ter retirado a confiança que ele tinha em si mesmo, deixando ele em um lugar ainda mais sombrio e violento do que já estava (afinal, ele meio que forçou a Mae a matar o Tonhão irmão do Neo). É triste justamente porque, quando finalmente parecia que ele tinha conseguido se libertar (e começado a assumir que tá gostando da Mae), ele morre. O que é uma ótima estratégia pra dar mais empatia a um personagem que foi praticamente um dos vilões por mais da metade da série.

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É interessante que 3 Will Be Free, apesar de seguir vários moldes de estórias de ação, não é algo muito caracterizável como plot-driven (uma estória na qual os fatos que ocorrem fazem os personagens agirem e a trama continuar), estrutura típica do gênero, mas sim character-driven (uma estória na qual as ações dos personagens é que geram fatos que movem a trama). As ameaças que aparecem são sempre consequência de algo que algum personagem fez (um bom exemplo é a própria aparição do Chefe John no negócio! Se fosse um filme de ação padrão, ele só ia aparecer por ser rival do Thana, mas, no dorama, ele é envolvido porque a MIW DECIDE ENVOLVÊ-LO). Por isto, falar sobre o enredo do dorama é muito mais analisar o desenvolvimento dos personagens do que o dos fatos. E, é neste ponto que a trama escorrega e esquece de suas próprias características.

Por ser movida pelos personagens, espera-se que a conclusão da estória mostre como eles evoluíram depois da aventura certo? E, apesar de parecer que vemos isto no personagem do Neo e da Miw, o grande enfoque que o final dá é o encerramento DOS FATOS e não a evolução dos personagens, como se realmente o enredo não tivesse trabalhado muito o aprofundamento emocional dos envolvidos. Não vemos o final da Mae de fato (ela só aparece no lugar certo na hora certa pra matar o Thana numa cena chocante e salvar todo mundo -.-‘), não fica muito claro o que o Shin decidiu referente a arte (na verdade, parece que ele teve de fazer justamente o que ele não queria: herdar o negócio do pai) e a Miw meio que vira um anexo do final do Neo. Foi triste ver como eles não conseguiram fechar as pontas no que ia além da ação, porque justamente este foi o maior diferencial que a estória teve a oferecer em seu decorrer.

E, como dita a nossa impressão, um final meio meh deixa um gostinho ruim na boca, apesar de todo o resto ser muito dinâmico, emotivo, emocionante e bem construído.

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3 Will Be Free é um dorama para muitos públicos. É aquele tipo de produção que intersecciona nichos totalmente diferentes, podendo funcionar tanto para os fãs de filmes do Vinn Diesel quanto para os BL stans de plantão. Apesar de não possuir uma conclusão que honre sua trajetória, o dorama conseguiu trabalhar muito bem tudo a que se propôs, dando profundidade a uma trama que, num primeiro momento, parecia só ser uma ação com LGBTQIAs+ em destaque, valendo e muito a pena assistir.

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E este foi a volta de posts de BL aqui no Aquário Hipster… Pretendo desenvolver alguma periodicidade pra isto (semanal? quinzenal?), mas vamos ver como vai ser minha disponibilidade de tempo pra terminar mais um dorama (mas, não se preocupe, pelo menos já tive a ideia sobre o que vai ser o próximo post de BL…). Gostou da resenha de 3 Will Be Free? Tem alguma sugestão de dorama pra eu resenhar? ^^

Confira as outras BL Reviews do Aquário Hipster clicando aqui ^^

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PS: Relendo o último review de BL que fiz aqui, lembrei que o motivo de eu ter visto este dorama maravilhoso foi a recomendação da leticia nos comentários daquele post… Muito obrigado pela recomendação ❤ Acabei fazendo o post como você sugeriu mesmo kkk

4 comentários em “3 Will Be Free: Ação, LGBTQIAs+ e reflexões sobre liberdade | “BL” Review

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