You Make Me Dance: Flashdance… Escorregando na casca de banana | BL Review

A segunda BL Review de Março no Aquário Hipster (de acordo com o cronograma) foi também a primeira super sincronizada com o fim do dorama: You Make Me Dance, que terminou ontem (19/03), mais uma produção da W-STORY (a mesma que fez Where Your Eyes Linger e Mr. Heart). Eu estava totalmente descrente de BLs coreanos e resolvi dar mais uma chance pra este porque gostei da premissa meio Flashdance… Será que o apelo pra filme de dança velho dos EUA ajudou a produtora a dar uma melhorada na narrativa de seus doramas? Ou a protagonista escorregou numa casca de banana durante a apresentação final de dança?

QUASE!!!

Bem, vamos lá. Primeiro, as informações gerais:

You Make Me Dance é um dorama sul-coreano com oito episódios que possuem entre 12 e 15 minutos de duração cada. A trama acompanha Song Shi On (Chu Young Woo), estudante universitário de dança contemporânea, que começa a ser perseguido por Jin Hong Seok (Won Hyung Hoon), que é o responsável pelo gerenciamento da dívida que o garoto contraiu ao pegar um empréstimo da companhia Chachacha Capital. A única chance do garoto conseguir o dinheiro é passar na audição de uma apresentação de dança e o credor, tendo simpatizado por ele, decide ajudá-lo a conseguir isto.

Segundo, o disclaimer:

Para conseguir equilibrar a leitura de quem nunca viu o dorama e quem viu, eu vou primeiro fazer uma análise sem spoilers e, depois de um aviso, eu entro em especificidades da estória e dos personagens (assim não estraga sua experiência se você curtiu a ideia do dorama e ficou com vontade de ver) ^^

Sinceramente, se eu soubesse de antemão que é a mesma produtora por trás de Where Your Eyes Linger e Mr. Heart, eu provavelmente nem teria começado a assistir (descobri hoje, depois que TERMINEI kkkk). Isto porque ambos os doramas receberam um super confete da fanbase, apesar de entregarem estórias corridas, bagunçadas e de melodrama meio vazio (se quiser ver eu sentando o pau em Mr. Heart, só clicar aqui ^^). You Make Me Dance, porém, consegue equilibrar sua proposta com mais habilidade que suas predecessoras, QUASE conseguindo entregar um dorama decente e crível.

A estória é simples e direta, como um filme de comédia romântica: “Shi On é o dançarino energético e good vibes enquanto que Hyung Hoon é o sisudo frio, eles vão se conhecer por meio de um conflito, mas relaxem que vão se apaixonar”. Uma proposta organizada assim já é um ponto positivo em comparação aos outros dois doramas da W-STORY, então se você já curtiu eles é capaz de AMAR este daqui (e se não curtiu, este aqui fica bem mais agradável).

O dorama traz poucos elementos, poucos personagens e até poucos cenários, o que, para uma trama tão curta, é essencial. O que foge do protagonista (Shi On) não tem foco e isto deixa o espaço claro para se explorar os dilemas dele e de sua estória, com todos os outros personagens funcionando como apoio a isto (como 90% dos filmes de comédia romântica que funcionam). O objetivo final, com o quitar da dívida e a apresentação final de dança, fica estabelecido logo no começo com os riscos lá em cima (sem precisar trazer nada a mais depois) sendo uma jornada suave e agradável por boa parte da estória. Tem uma escorregada nos dois últimos episódios (com conflitos sendo tratados de uma forma um pouco… desnecessária), mas não chega a afetar tanto o gosto final da trama.

Assim, You Make Me Dance pode ser um clichêzinho ótimo se você está num dia frio (seja literal ou metaforicamente) pra aquecer um pouquinho o coração enquanto toma chocolate quente. É só ignorar as “escorregadinhas” que tá tudo certo ^^

Mas se você não consegue ignorar… Bem… Aí sugiro que veja rapidinho o dorama e passe pra parte com spoilers, porque aí eu vou dar uma boa pistolada em cima.

Agora, começa a sessão de SPOILERS depois da imagem abaixo, então, se você quer ficou interessado em assistir e não quer pegar SPOILERS por causa do post, é só parar por aqui (ou descer até o último parágrafo de conclusão, se quiser).

Muito bem, agora que o elefante branco da parte sem spoilers já saiu da sala, vamos dissecar um pouco mais no QUASE e nas escorregadas que o dorama faz JUSTAMENTE quando estava tudo certo.

Pra começar, a estrutura da estória envolve duas jornadas específicas: a relação de Shi On com as pessoas de seu mundo comum e o romance que desperta entre ele e o Hyung Hoon.

A primeira é mostrada, principalmente, na relação do protagonista com a mãe, que o abandonou depois que ele se casou, e com seu rival na dança, Lee Jung Hoon (Lex). É incrível o cuidado e a verossimilhança que ambos os problemas foram trabalhados em tão pouco tempo de tela. Ao invés de já jogar na sua cara o conflito e o deixar óbvio, a trama decide por introduzí-lo o mais rápido possível, para, sutilmente, ir mostrando as camadas em que ele afeta o protagonista. Desta forma, não conseguimos ter uma opinião formada de pronto. Só vamos absorvendo o que aparece conforme vemos o quão cruéis são estas duas relações pra Shi On.

A parte da mãe, que, depois é revelado, ficou com o dinheiro do empréstimo, é de cortar o coração. Inicialmente, acreditamos nas palavras de Shi On de que a mãe dele é boa e tals, até vermos as sucessivas mensagens sem resposta e o aparentemente desaparecimento da mulher da vida do filho, sem qualquer explicação decente. E tudo isto “é de cortar o coração” pela forma como foi mostrado, como lentamente nós conseguimos ver mais uma camada emocional escondida do personagem e ele se mostra fragilizado e solitário, apesar da personalidade animada. Não é apenas um Momento Triste de Dorama Coreano pra Tocar a Música Tema no Fundo (já já chegamos a isto), é uma tristeza que faz parte da construção do personagem e agrega em seu desenvolvimento e em um caráter mais tridimensional à trama.

Jung Hoon, sem sombra de dúvidas, é subutilizado, principalmente na reta final. Até o episódio seis, as ameaças do personagem vão se mostrando cada vez mais “vilanescas” (como excluir o Shi On propositalmente pra quebrar o espírito dele e, depois, tentar sabotá-lo fisicamente com o trabalho de modelo) e funcionam para dar a impressão de que ganhar o papel é algo “difícil”. Por mais que torcemos para nossos favoritos atingir seus objetivos, é CRUCIAL que a narrativa mostre que este objetivo não é algo fácil. Pode até ter um final clichê, mas precisamos ver uma dose de esforço por parte do personagem pra conseguir. Se ele conseguir fácil, deixa de ser relacionável, e, ao invés de torcermos por ele, acabamos ficando com raiva ou indignados por ele ter conseguido “fácil demais”.

Então, depois de construir a rivalidade por seis episódios, POR QUE RAIOS o rival nem aparece na audição?! Nenhuma ameaça pra desestabilizar o garoto antes da apresentação, nenhuma sensação de competitividade pra conseguir o papel. Do jeito que fizeram, parece que só ele prestou pro negócio, então é claro que ele passou (ainda mais descobrindo o resultado logo depois da apresentação… Que seleção funciona assim?!). E, assim, a construção dos episódios anteriores fica perdida pelo gosto de chuchu que fica o final.

Sem contar que eles NÃO MOSTRAM A DANÇA DIREITO. ELES FICAM FALANDO DA DANÇA O DORAMA INTEIRO E, NA HORA DE MOSTRAR O NEGÓCIO, ME PASSAM ENTRECORTADOS POR… FLASHBACKS 🙄 Duvido que as pessoas gostariam de Flashdance se a épica dança da protagonista no final fosse cortada desse jeito. Quebra totalmente o clima e a construção da narrativa. É como se você visse todo o processo de pintura de um quadro pra, no final, só conseguir enxergar metade dele completo.

Sem contar que mostrar que ele passou ANTES de mostrar a dança foi uma decisão narrativa péssima. Tirou qualquer tensão que o momento poderia ter. NENHUM mangá/filme/dorama/gibi de esporte ou artes deve fazer isso… Imagina se uma luta do Naruto passasse como flashback depois de ele dizer pra Sakura que ele ganhou?!

Quanto ao romance com Hyung Hoon, os acertos e os erros são similares: temos um começo e uma construção muito bem feitos para um final muxoxo que conseguiu deixar uma impressão meio vazia.

A dualidade entre os dois trabalha o conceito de “os opostos se atraem”, típico de qualquer estória romântica (desde 2gether até We Best Love, por exemplo): Shi On é alegre e aparentemente extrovertido, enquanto que Hyung Hoon é sério e aparentemente introvertido. Os dois se complementam na estória e se ajudam em seus dilemas com a característica que falta no outro. Curiosamente, as características dos dois te enganam da primeira impressão e, assim que vemos mais estes personagens em ação, percebemos que Hyung Hoon é muito mais expressivo e direto que Shi On, que guarda os sentimentos dentro de si até não poder mais. É extremamente interessante ver como eles vão ficando lentamente mais próximos, de uma forma natural (mesmo com a trope forçada pra qualquer dorama que se prese de “vamos viver num mesmo teto” sério, esse clichê já se esgotou lá no começo da hallyu em 2002 gente) e como eles se revelam totalmente diferentes do que pareciam a primeira vista, muito mais pelo que eles fazem do que pelo que eles falam.

O personagem do Hyung Hoon não chega a ter tanto profundamento (e nem precisa), mas o mínimo de conflito está lá: ele quer sair deste ramo e, portanto, resolver o caso do Shi On é essencial para que possa viver a vida como quer. Isto deixa mais natural a forma como ele vai ficando cada vez mais próximo e preocupado com o dançarino, conseguindo passar suavemente pelo surgimento dos sentimentos sem soar forçado. É nítido que a cada episódio eles vão ficando cada vez mais confortáveis um com o outro, conseguindo se aproximar cada vez mais (como acontece na vida real mesmo).

E, claro, a atriz que faz a chefe dele (Lee Soo Ryun) foi a primeira mulher a servir na equipe de guarda-costas do presidente da Coreia (de 2003 a 2014), o que foi um fato bem legal de descobrir.

Mas Contudo Porém Entretanto Todavia, assim como no outro enfoque do dorama, a progressão se perde lá pro final do episódio sete.

A introdução do dorama (uma das melhores que já vi, por sinal) deixa bem claro pra nós e para os próprios personagens que eles são almas gêmeas. Fica claro aos personagens que um romance entre eles pode surgir e, assim, esta memória do primeiro encontro (que foi três anos antes da trama começar) fica intrinsecamente ligada ao casal se efetivar. A utilização do podcast que aparece nesta cena, inclusive, foi um ótimo adendo e uma referência ótima pras várias comédias românticas noventistas e do começo dos anos 2000 que se utilizaram do recurso de comentaristas de rádio para aproximar seus personagens.

O “clique” para o casal acontecer se dá quando ambos se lembram deste encontro e acontece o primeiro beijo. Até aí tudo bem (a cena de um puxando o braço do outro pra beijar é TÃO COREANA, sério, todo dorama romântico deles tem isso), assim como a relutância do Hyung Hoon pra começar o relacionamento (afinal ele prometeu que ia pro fucking VIETNÃ pra não expulsarem o Shi On de casa). O problema é que MINUTOS DEPOIS (lembrando que não tivemos a cena da dança quando deveríamos ter tido a porcaria da cena da dança) o conflito é resolvido.

Novamente, sem dificuldades, sem noção de risco, nem nada. Parece que, quando o Shi On ganhou, simplesmente uma chave ligou na cabeça do Hyung Hoon e “ok, podemos beijar e partir pra cama agora”.

Eu entendo que parte dos BLs sofre uma pressão imensa pra ter essas cenas que sugerem sexo, mas em You Make Me Dance ela ficou tão… Mal colocada. Eles terem uma comemoração e depois já partirem pros “finalmentes” é tão… Rápido. Não parece os mesmos personagens que demoraram episódios e episódios pra encostarem os dedos mindinhos… E aí, na manhã seguinte, ele vai embora sem mais nem menos só pra termos um Momento Triste de Dorama Coreano pra Tocar a Música Tema no Fundo (falei que chegaríamos a isto kkk).

O drama desta parte é tão forçado e artificial que eu fiquei assistindo toda a música tocar com tédio. Se fosse uma equipe criativa que trouxesse este tipo de situação fraca em toda a trama, eu até relevaria, mas eles sabiam como entregar drama que prestasse com os arcos do Shi On com sua mãe e com seu rival… Por que fizeram algo tão meia boca justo pro final?!

O problema de acontecer no final é que afeta toda a percepção do dorama. Por mais que eu tenha gostado bastante de tudo até 2/3 do episódio sete (o que inclusive rendeu uma nota 8 pro dorama no meu perfil do MyDramaList), estou escrevendo este post espumando de indignação, pois a última impressão que ficou foi estas escorregadas fortíssimas do final.

Só não foi pior porque as cenas finais (com a utilização do podcast pra reunir os dois novamente) foram um nível ok de forçação de barra. Claro que a chefe dele vai deixar ele livre depois de ouvir a declaração pública desesperada do Shi On, é o poder do amor, do fio vermelho (UWMA bateu forte todas as vezes que eles faziam esta referência kkkk). É esperado que num romance destes tenha um momento meio fantasioso em que “o amor vence de tudo”, porque é também nesta fantasia que reside o apelo de qualquer trama romântica.

Vendo este finalzinho, eu consegui ficar um pouco menos decepcionado com os responsáveis pelo dorama e até acho que ele legal de recomendar pra alguém assistir (algo que eu não diria sobre Mr. Heart e Where Your Eyes Linger).

You Make Me Dance | Rakuten Viki

No fim, You Make Me Dance te dá a impressão de que ele poderia ter terminado melhor. É como se, na apresentação final do Flashdance, a protagonista escorregasse numa casca de banana no meio da dança. Mesmo ela conseguindo se recuperar e passando, fica nítido que a apresentação ficou aquém do esperado. Mas, mesmo assim, tivemos uma apresentação ótima antes da escorregada.

Até que, neste sentido, o dorama conseguiu me deixar com um pouco menos de ranço dos BLs coreanos. Ainda acho que eles são exaltados apenas por serem coreanos? Acho. Mas, um dia, vou assistir os outros que tem (Color Rush, Wish You e To My Star, se não me falha a memória) e fazer a review aqui. Uma hora eu sei que a Coreia vai conseguir acertar alguma trama quase 100% sem escorregar assim, tenho fé.

Confira as outras BL Reviews do Aquário Hipster clicando aqui ^^

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4 comentários em “You Make Me Dance: Flashdance… Escorregando na casca de banana | BL Review

  1. Ah eu gosto de Mr. Heart, mas acho que gosto mais por causa dos personagens kkkkk
    Cara dois ultimos ep foram de matar, parecia muito que eles estavam sem dinheiro pra continuar e só falaram ” Vamo colocar tudo junto e resolver rapidão e é isso ai” para esses BL’s coreanos eu SEMPRE vou esperando a coisa mais podre e mal feita do mundo criando zero expectativas, pq dai se o dorama for no minimo razoavel eu saio satisfeito.
    Mas eu sinto que eles estão melhorando aos poucos na produção de BL’s ainda é tudo muito recente, mas ao menos esta caminhando pra algo né kkkk

    Curtido por 1 pessoa

    1. Os personagens de Mr. Heart são adoráveis mesmo, mas a confusão da narrativa me deixou com ranço mesmo assim x.x

      Nossa, esta é uma boa estratégia, principalmente pros episódios finais… Foi tão porco x.x… Acredito que daqui uns dois anos os BLs deles sejam bem mais digeríveis (até porque devem ganhar uma duração decente pros episódios), mas até lá… 😅 kkkk

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