Don’t Call Me, SHINee: Compacto e descompromissado | Album Review 009

Estamos encerrando março surpreendentemente cumprindo o cronograma de reviews e postando a última review de sábado pontualmente! Yay!!! xD O álbum da vez é o novo full do SHINee, Don’t Call Me, que teve um single de gosto… questionável, pra dizer o mínimo. O que será que podemos esperar do NCTinator da SM em cima do grupo? Será que vão estragar as b-sides também?

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Para mim, SHINee é a contraparte masculina para o Girls Generation no k-pop. E isto se dá pelo fato de eles terem sido a primeira boyband que eu escutei lá em 2011, quando ainda estava fascinado em Gee e achava que Jessica e Taeyeon eram melhores amigas EVER. De todos os grupos que descobri neste cenário, eles foram os únicos que se mantiveram firmes e continuaram lançando música boa, mesmo depois da grande tragédia que foi a partida do Jonghyun… Dito isto, então, Don’t Call Me parece ser a primeira entrada do grupo efetivamente na nova geração, seguindo enfrente numa nova fase (agora que 3/4 do line-up já serviu e o peso da tragédia já não permeia o lançamento, como ocorreu com Story of Light).

Ou seja: as expectativas estavam bem altas quando fui ouvir isto aqui.

Como esperado de qualquer álbum de um ato da SM, a primeira faixa é o single, Don’t Call Me.

Conforme as semanas foram passando, eu tenho sentimentos ainda mais dúbios quanto a faixa. O gerenciamento por trás do grupo foi muito esperto em trazer uma faixa NCTizada, garantindo um sucesso nos charts meio que tranquilo, apesar do grupo não lançar nada em conjunto desde 2018. É uma jogada safe, pra garantir que os fãs novos não tenham preconceito do grupo como “os tiozões que já deviam ter desbandado” (como provavelmente a maioria das pessoas se sentem sobre o Super Junior, por exemplo).

Assim, a faixa segue os maneirismos atuais do trap e dos sintetizadores mais pesados, no clima meio hip-hop meio industrial que acompanha 90% das boybands ativas hoje. Por mais que tenham tentado criar algo menos derivativo pro grupo nos versos, o refrão ainda é algo BEM modinha e BEM encaixado no contexto atual. Se por um lado, isto lembra todas as vezes que o grupo seguiu a modinha a risca (como falei no post sobre o single), por outro, nos lembra como as músicas deles pareciam totalmente desconectadas do esperado pra boybands no k-pop (como exemplos dá pra pegar coisas como Juliette, Dream Girl, Married to the Music, 1 of 1, Good Evening…).

A impressão que dá é que, se isto salva o grupo do flop, acaba sacrificando a identidade que conquistou muitos fãs até 2018. É a mesma impressão meio meh quando o Mamamoo deixou o retrô de lado e começou a soar mais mainstream que nunca (Gogobebe foi um prenúncio disso e AYA acabou de vez com as esperanças de que elas iam se manter fora da modinha).

A esperança já parece perdida depois do single matador, mas então temos Heart Attack, uma brisa de ar fresco depois de tanto bate lata. A faixa é um número funky classudo, com uma construção simples, sintetizadores dançantes e um refrão moldado por harmônicos super afinados. Tirando sua intro sutil e com pegadas de house, a faixa é uma daquelas demos masculinas genéricas que deve sobrar de monte nos estoques da SM. Até a letra é exatamente o que você espera de uma faixa com este nome: eles foram tomados pela paixão com tanta força que parece um ataque do coração.

Em outros álbuns seria algo agradável e, talvez, até esquecível a depender da tracklist, mas, depois de Don’t Call Me, a faixa deixa claro que o NCTinator da SM só atingiu o single, o que é um alívio…

E, claro, o Key viralizando por imitar as ending fairy (os idols que ficam arfando depois da performance quando a câmera foca no rosto deles) na apresentação pra tirar um sarro dos novinhos foi sensacional kkk

Marry You é, de longe, uma das minhas faixas preferidas de todo álbum. Ela traz uma simplicidade e competência tão agradáveis de se ouvir que não precisa de nenhuma grande invencionice para se destacar (por mais que eu ame certos tipos de invencionice kkk). Ela é um número clássico até demais de R&B, daqueles que você ouviria tranquilamente nos anos 90, tirando um sintetizador aqui ou ali. Eles gritam em coro, como se nem fizessem esforço, completamente em harmonia, que querem pedir a garota em casamento, da forma mais romântica e piegas que você pode imaginar.

É legal ver um tema como casamento surgindo nas músicas do SHINee, porque é algo que começa a dialogar com as idades deles (afinal, os idols costumam casar pouco depois dos trinta anos), soa mais maduro e natural para o grupo. Eles não precisam fingir que são uns garotos de vinte e pouco pagando de rappers de voz grossa, o gimmick do grupo sempre foi direcionado para o caráter romântico da música pop (claro que a capacidade técnica deles de executar coreografias super complexas trouxe singles mais dançantes neste contexto, mas nunca chegou a negar o romance) e ver algo assim dentro da tracklist é a evolução natural que eu sempre espero de vários atos musicais e quase nunca vejo…

CØDE volta a tracklist para algo mais upbeat, com uma espécie de nu-disco fantasmagórico, que permeia explosões de sintetizadores no refrão e um instrumental super sutil na ponte. É uma grande favorita da fanbase e, provavelmente, o single no coração de muita gente, pois é realmente algo que poderia se esperar do grupo em meio a onda retrô que está tomando conta do cenário musical.

Na letra, os quatro te convidam a quebrar o código da perfeição, pedindo a seu interlocutor para fugir dos caminhos comuns e procurar as respostas para nossos demônios internos no desconhecido. É uma mensagem muito bem escrita e inteligente, ainda mais dentro da sonoridade que os sintetizadores estão brincando lá no fundo. Colocar uma metáfora de seres humanos como máquinas travadas por códigos em cima de um disco de base em synthpop, que explode e some em meio a sons ambientes, criou uma textura palpável demais para simplesmente se ignorar o conteúdo da letra depois de a conhecermos.

É como se acompanhássemos eles fugindo metafórica e literalmente de uma distopia dominada pela tecnologia, que, assustadoramente, é bem parecida com nossa realidade moldada pela exposição pública na internet e pela perfeição que somos forçados a aparentar a todo momento.

I Really Want You não deixa a peteca cair e segue com o ritmo lá em cima em um dancepop ainda mais funky que Heart Attack. Na faixa, eles começam os versos sussurrando, conforme o clima mais ficando cada vez mais quente entre eles e seu interlocutor, até desembocar no pós-refrão com os saxofones explodindo no fundo conforme os quatro vão cantando, um de cada vez, que “realmente te querem”. É o tipo de faixa dançante descompromissada e meio camp que só o k-pop sabe entregar com qualidade nos dias de hoje. Toda boyband boa tem uma dessas nas tracklists.

SHINee Dropped First Colorful Teasers For "Don't Call Me" Comeback

Kiss Kiss mantem mantem o dance-pop (desta vez com mais influência nas batidas oitentistas), mas, ao invés da explosão de gritos e instrumentos da faixa anterior, ela se mantem contida e particular, com eles sussurrando em nossos ouvidos conforme estão se aproximando para nos beijar (fico pensando se a utilização de tanta segunda pessoa do singular em letras de k-pop é pra dar a impressão de que eles tão falando contigo mesmo… 🤔). A faixa traz um caráter meio privado, com os harmônicos sendo delicados e bem agudos (nada como ouvir uma boyband harmonizando DE VERDADE, né? Olha a outro dessa música, mano!).

Body Rhythm traz, pela segunda vez na tracklist, uma faixa na qual o grupo impressiona com algo inesperado. Eu, pelo menos, não lembro de nenhuma música deles com cara de reggae fusion (ou que tenha a voz do Key se destacando kkkk) e, sinceramente, depois dessa, Why So Lonely está destruída, na sarjeta, juntamente com todas as tentativas fracassadas de reggae do ano passado.

A faixa acerta por medir muito bem a dose na parte reggae e na parte fusion (se podemos colocar desta forma): a batida de reggae está lá, logo nos primeiros versos, e permeia todo o instrumental, como esperado, porém, ao invés de se manter nessa eternamente (como em Why So Lonely e Say My Name), vários elementos vão surgindo no decorrer da faixa que vão aumentando ainda mais a efetividade da batida inicial. Assim, a faixa fica ainda mais potente enquanto um número evocativo de reggae e não soa desconexa com adição de elementos de trap e dancepop (como aconteceu com Sukhumvit Swimming).

Na letra, temos mais uma música com a tensão sexual nas alturas, com eles te convidando a acompanhar o ritmo corporal deles e dançar juntinho 👀

Attention é, de todas as faixas, a que mais lembra os lançamentos de inspiração house deles no último álbum. Com vozes fininhas e deixando o dancehall se torcer entre uma leva de assovios e outra, esta é uma música que é, ao mesmo tempo, romântica e sombria, como várias do Story of Light. Da mesma forma, a letra segue um lado mais etéreo (que também tínhamos no álbum) misturando o clássico tema romântico com uma jornada filosófica de autodescobrimento, com a “atenção” do título sendo direcionada a própria percepção destes sentimentos. Conforme eles vão mergulhando em uma “profundidade inconsciente” e sentem “seu coração começar a se colorir”, eles falam consigo mesmos para relaxarem (apesar da tensão) e prestarem atenção em seus próprios sentimentos.

A letra não chega a ser tão direta no sentido romântico quanto as anteriores, então dá pra fazer algumas reflexões sobre como pode ser sobre eles estarem falando consigo mesmos, conforme percebem e aceitam uma parte dentro de si mesmos que nunca tinham parado pra prestar atenção.

Kind termina o álbum com uma baladinha no piano (eles não iam deixar um álbum sem baladinha né, gente? A única vez que aconteceu isso fizeram um repack e colocaram CINCO BALADINHAS na tracklist). Entretanto, ao invés de ser uma coisa romântica ou ambígua (como vimos em Attention e CØDE), a faixa é bem mais honesta em seus versos, com o título, “gentileza”, sendo tratado como interlocutora da mensagem passada.

Eles falam sobre uma jornada cheia de desafios, solidão e questionamentos sem resposta, no qual a gentileza sempre esteve por trás dos momentos de superação. A letra se posiciona em um momento de maturidade, com eles refletindo sobre o passado, percebendo esta atuação da gentileza, e agradecendo por todo o apoio. A mensagem é envelopada com eles querendo responder aos questionamentos sem respostas com esta nova maturidade.

É uma letra bem madura e que ganha bastante propriedade por ser cantada por eles (que possuem TREZE ANOS de carreira). A música em si não chega a ser um grande espetáculo, mas consegue encerrar o álbum numa tônica interessante sem ser genérica demais.

Don’t Call Me não é um álbum ESPETACULAR do SHINee, mas seria um álbum espetacular na mão de qualquer outra boyband. A grande força deste full é ele não ser comprido demais, permitindo que as faixas mais genéricas e lugar comum (Heart Attack, I Really Want You e Kiss Kiss) não soem como fillers num mal sentido. São oito faixas redondinhas, sem muito direcionamento ou conceito unificador por trás (o que é interessante porque faz uns oito anos que os álbuns do SHINee sempre são meio temáticos e conceituais por toda a sua tracklist), que funcionam como um retorno do grupo a antiga forma. É uma atualização despretenciosa aos fãs depois de tantos sentimentos e hiatus de 2018 pra cá. Sinceramente, apesar de eu adorar um conceito, é legal ver um full album mais descompromissado, bem executado e com uma boa variedade sonora.

Mas, claro, né, a SM é péssima pra montar tracklists, então eu provavelmente daria uma boa mexida pras músicas ficarem em uma ordem melhor. Provavelmente eu colocaria Marry You lá em baixo, próximo a baladinha, e deixaria Heart Attack como intro, pra obrigar a pessoa a escutar o single questionável e engolir com a transição boa que ele faria para CØDE:

  1. Heart Attack
  2. Don’t Call Me
  3. CØDE
  4. I Really Want You
  5. Kiss Kiss
  6. Body Rhythm
  7. Attention
  8. Marry You
  9. Kind

Ah, e eu sei que eles vão lançar um repack em abril (como sempre, nem sei porque não esperei o repack sair antes de prometer a review @.@’), mas, como metade dos repacks deles estragam a fluidez dos álbuns originais (geralmente deixam a tracklist muito grande), vou comentar das músicas novas junto com o single novo (vamos torcer para que não seja outra faixa NCTizada 🙏)

E a meta do mês foi cumprida!!!! Ai minha deusa que felicidade xD!!!! Aguardem que no meio desta semana tem mais um De Dentro do Aquário, falando sobre o mês de março e montando o cronograma de BL e Albums Reviews para abril ^^ Algum álbum recente (ou que vai lançar) que gostariam que fosse analisado?? xD

O Aquário Hipster também tem Twitter!! Segue lá se quiser acompanhar surtos e comentários aleatórios de k-pop e BLs, com tweets ocasionais de artes e reflexões político filosóficas: @AquarioHipster

4 comentários em “Don’t Call Me, SHINee: Compacto e descompromissado | Album Review 009

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