LILAC, IU: Mais uma série de baladas genéricas? | Album Review 010

A primeira Album Review de março está entre nós! Prometendo revirar o k-pop ao comemorar seus trinta anos (na idade coreana), IU trouxe seu quinto full album (ela não lançava um full desde Palette em 2017). Entre singles ruins e bons, o álbum e já está entre nós! Será que ela conseguiu entregar o tipo de profundidade fora da casinha que permeia todo lançamento “comemorativo” envolvendo sua idade ou sua carreira?

A IU é um caso bem interessante dentro da indústria. Depois de tantos lançamentos ainda no topo dos charts e controle criativo total sobre sua carreira, ela consegue variar entre experimentar coisas novas e lançar a baladinha que o coreano médio curte ouvir, refletindo sobre a própria carreira no processo (quando ela tá afim). Mas, para mim, os singles da IU sempre funcionam melhor quando ela tira um pouco a máscara de idol e fala sobre si mesma, sua carreira e sua persona pública. Foi assim em 23, em Palette, em BBIBBI, em Love Poem (na teoria, porque a música em si ‘-‘) e, com sorte, o conjunto todo de LILAC também trará esta impressão.

O único problema que pode aparecer em qualquer álbum da IU (seja EP ou full) são as tracklists matadoras (no mal sentido), nas quais as baladinhas que o coreano médio curte ficam tão mal posicionadas que metade do álbum é passível de esquecimento (a única exceção a isso é o MARAVILHOSO Modern Times sem o repack). Os álbuns mais recentes dela sofrem disso tão forte que, depois de me decepcionar com metade de Palette eu simplesmente ignorei Love Poem e devo ter ouvido ele só uma vez, se muito.

Estou esperançoso que LILAC possa trazer algo melhor, já que a própria IU vem dizendo que esta é a primeira vez que ela tá gastando mais dinheiro na PRODUÇÃO das músicas (o que, em teoria, parece ótimo).

Comum para qualquer álbum coreano, porém estranho para a IU (que sempre gostou de umas faixas de introdução), o álbum já começa com seu single principal, LILAC, cheio de simbologias quanto a sua trajetória de vida durante os vinte anos.

A faixa mira um pouco no retrô inespecífico, pegando referências de vários estilos passados diferentes e entregando algo que também é diferente de tudo que referencia. Temos um pouco de synthpop oitentista no baixo, um pouco de city pop, um pouco de disco e por aí vai. É uma faixa extremamente alinhada com as modinhas atuais, ao mesmo tempo que não soa necessariamente genérica ou repetitiva. Isto porque o instrumental é recheado de elementos, que se alternam antes que possamos associar o baixo a um lançamento da Sunmi ou o saxofone a alguma diva japonesa do city pop.

E, em cima de todas estas camadas, temos a voz doce e fininha da IU, dando um caráter primaveril a música (vamos lembrar que na Coreia é primavera), como ela fosse mesmo uma versão sonora de uma brisa suave que carrega as pétalas das flores pela rua. O que, na letra, é a analogia utilizada pela IU para representar seus vinte anos (uma referência ao primeiro EP que teve independência criativa Spring of a Twenty Year Old), descrevendo-os como uma época mágica, épica, linda e já nostálgica, porque esta se encerrando. Porém, diferente de coisas como Aoharaido (“a primavera de nossas vidas”, tá bom… -.-‘), IU deixa claro como esta é apenas MAIS UMA de suas primaveras e muitas outras estão por vir.

No clipe, insto fica bem evidente, com o trem representando o caminhar de 20 a 29 anos da persona artística da IU. Cada estação representa um lançamento (com a data do lado ainda, pra agradar as mais virgianas) e a impressão que dá é como ela foi passando por todas estas experiências crescendo enquanto pessoa e artista. Afinal, tem UM BOCADO de coisa diferente nesta trajetória: tem álbum de covers, tem feat super faturado, tem invencionices sonoras, tem polêmicas com o público coreano e por aí vai. Dentro do trem, ela procura mostrar como esta época foi de festividades (afinal foi quando ela adquiriu independência artística) e como também teve suas provações, pela cena em que ela aparentemente tomou uma surra (como não esquecer de todas as polêmicas que permearam o lançamento de CHAT-SHIRE? Ou de como ela foi criticada em The Producers e Scarlet Heart: Ryo?).

Ao fim da década, as experiências ficam na memória e terminam (como representado na MARAVILHOSA cena animada parecendo uma tela de pintura – lembram que ela falou que gosta das cores em paletas de pintura em Pallete?), como tudo na vida, abrindo a oportunidade para um novo trem (o da década de 30 a 39) surgir com novas experiências, provações e aventuras.

Ao terminar o clipe dizendo que a primavera sempre retornará, ela foca no lado positivo de entrar em uma nova fase da vida, além de, claro, trazer uma mensagem positiva de melhores tempos (que pode ser muito aplicada ao contexto atual da COVID… não acredito que foi uma mera coincidência conseguirmos interpretar desta forma).

A seguir temos a primeira album track e, provavelmente, a mais provável de gerar polêmica, Flu, dado o atual contexto da COVID, cujo alguns sintomas se assemelham aos da gripe, e da utilização da palavra “vírus” (que está sendo evitada em vários contextos, dado o caráter que possui em meio a pandemia). Isto porque a faixa usa a analogia de “contrair gripe” com se apaixonar. Sinceramente, foi uma faixa infeliz em letra. Eu entendo que não é nada demais, mas tem uma falta de sensibilidade da IU e da equipe dela de colocar este tipo de letra no contexto atual. Um verso como “essa dor é como gripe”, que aparece no pós-refrão, já traz a memória o contexto pesado da COVID pra uma faixa bem levinha sobre se arrepender por se apaixonar.

Passado isto, a música não chega a valer toda a reflexão que promove incidentalmente. É um R&B com inspirações trap leve e fofinho, que cai naquela linha de faixas pseudoindie meio pedantes que consiste em mais da metade da playlist de k-indie do Spotify. Se não fosse a questão da letra que já traz uma antipatia, a faixa poderia ser uma boa de transição, porque ela realmente liga bem Lilac com Coin, a próxima faixa, de uma forma orgânica.

Coin é, de longe, uma das faixas mais legais do álbum. A sonoridade é um dance-pop bem funky, digna de músicas criativas de boybands, só que bem divertida por ser justamente a vozinha fina da IU que tá tá bancando essa agressividade atrevida (inclusive, se arriscando num rap pela primeira vez!). Foi bem interessante ela dar clipe pra esta faixa também, contrastando com a imagem mais polida e fofa de Lilac. Assim ela volta a ter mais tridimensionalidade em sua persona musical, algo que não acontecia desde Palette.

O clipe consegue ressaltar todo o caráter sassy que ela brinca na letra, se mostrando como a rainha da jogatina. São muitas cenas legais de ver, vários looks de terno pra você se apaixonar, efeitos de luz MUITO LEGAIS no fundo e, claro, uma censura inventiva pra não mostrar jogos de cartas como conhecemos mesmo (acho incrível como estas escapadas da censura coreana trazem umas coisas bem aesthetic, como o fósforo na boca imitando cigarro).

A faixa retoma uma tradição em álbuns de k-pop de album tracks com algum tema/figura de linguagem bem específico que é desenvolvido unicamente nessa faixa. O f(x) era rainha nisso e tinha gemas como Dracula, Airplane e Cowboy.

E, sim, no segundo pré-refrão ela fala “vamos” em português mesmo… Ela curte várias coisas da cultura brasileira (não é a toa que foi uma das pioneiras em bossa-nova dentro do k-pop e que já fez uma música dedicada ao livro Meu Pé de Laranja Lima).

Hi spring Bye é ela: a grande e pavorosa baladinha para agradar o coreano médio.

O grande problema de faixas assim é que pra funcionar, ela precisa chamar atenção ou pelo instrumental emotivo ou pela letra emotiva. Os coreanos possuem uma tendência bem específica em baladas que não possuem muita progressão ou elementos que evoluem na melodia, deixando elas todas com uma cara meio blasé e super parecidas uma com a outra. Hi spring Bye segue todos estes maneirismos a risca, tendo, ainda, uma letra romântica sem muita inspiração por trás. Relacionar amor com primavera até chega a combinar com LILAC e traz uma certa unidade para o álbum, mas, ainda sim, não é como se eu já não tivesse visto esta analogia e esta construção em outras trocentas baladinhas que servem pra tema de dorama.

E aí que a tracklist matadora da IU que falei mais cedo mostra as caras, com Celebrity aparecendo logo depois. A faixa começa com aquele tipo de pop mínimo meio indie que virou bem característico dela com BBIBBI, o que não chega a ser bom, mas também não ofende. O crescendo do pré-refrão flerta com future bass e cria alguma expectativa, mas o refrão se resumem a sintetizadores house depois de uma frasezinha de efeito.

A letra tem uma vibe motivacional, envolvendo a dualidade que encontramos em nossos altos e baixos, e nos lembrando que, mesmo nos piores momentos, nós ainda somos especiais como celebridades. O clipe reflete bem este conceito, sendo bem bonito de assistir e tudo mais… Mas falta profunidade e singularidade para a faixa funcionar nesta proposta. Ela é chupada da modinha house e do k-indie, deixando como algo genérico demais para trazer uma mensagem que não seja igualmente genérica.

Depois de trazer duas faixas super genéricas, Troll (feat. DEAN) teria que ter algum tipo de diferencial, senão o álbum ia pras cucuias que nem Palette. Felizmente, a presença do DEAN traz um sabor diferente (afinal tem uma voz pra contrastar com a fininha da IU). A construção da faixa tem seu quê de diferente, construindo os versos em um trap animadinho pra um crescendo em BOSSA-NOVA. Sim, a IU foi de trap a bossa-nova em segundos. E foi super natural!

Além disso, tanto a intro quanto a outro da faixa merecem menção, imitando a própria melodia dos versos de forma abafada, como se a música estivesse tocando ao fundo antes de, de fato, começar.

A faixa é o que eu esperaria de alguém independente de brasilidades, o que é um elogio, apesar de eu não curtir mais brasilidades há um bom tempo. A letra tem sua dose de criatividade, com os dois fazendo o papel de um casal que ficam trollando um ao outro ao não assumir que gostam um do outro, como uma música que se repete interminavelmente no streaming. Os versos do DEAN ainda trazem um caráter narrativo, que deixa a faixa com um quê de conto, m pequeno retrato de uma estória, com referências o suficiente pra ser específica e não se resumir a uma reflexão abstrata sobre seu tema.

Além disso, o título da faixa é genial, não sendo citado em nenhum momento, criando aquele tipo de música que não subestima a inteligência de seu ouvinte ao não partir para o óbvio.

Empty Cup é uma balada melancólica no violão, como a IU sempre costuma colocar em seus álbuns, tratando sobre o tédio que permeia um relacionamento. O refrão repete várias vezes “I’m sick of your love” de uma forma bem grudenta, que deixa ela mais impactante que um monte de outras baladas no violão. Como ela é curtinha e traz outro título incomum, funciona como um momento mais tranquilo e introspectivo do álbum sem soar esquecível ou genérica… Por meio segundo, antes de ser eclipsada pela faixa seguinte…

My sea é outra baladinha, desta vez no piano, trazendo no começo a expectativa que é mais uma faixa genérica que poderia estar em um dorama. Porém, conforme ela se desenvolve, criando momentum e crescendo junto com a voz a IU a cada refrão, ela ganha o caráter épico e fantasioso de um solo de uma princesa da Disney. A letra só ajuda neste fato, com ela refletindo sobre as memórias de sua infância e como seus sonhos foram se transformando, tendo momentos em que ela nem se reconhece no espelho.

Conforme o refrão vai ficando mais potente, a letra vai ficando mais libertadora, com ela desejando virar uma onda e se perder no mundo. É IMPOSSÍVEL não ouvir os gritos da IU e não ter na cabeça a típica cena de princesa da Disney, com ela correndo em um campo aberto, olhando para o horizonte cheio de esperança e, lentamente, ganhando força e confiança em si mesma para voltar a seu Mundo Comum pouco antes do Chamado para Aventura acontecer.

Acontece um despertar e um reconhecimento próprio no decorrer destes cinco minutos e pouco de faixa, que traz toda esta sensação na qual vários e vários frames de animação são necessários para conseguir transmitir em sua completude. É de uma produção e entrega espantosas, que merecia um clipe animado pra honrar a referência que provavelmente tiveram produzindo isto daqui.

Ah puh vem num péssimo timing, trazendo o clima mais chill e narrativo que Troll trouxe, com outro refrão chiclete que nem Empty Cup, mas que soa dispensável após a baladona anterior. A referência a mar continua, com ela se descrevendo a partir personagens, misturando um caráter despretensioso de uma faixa de verão com um caráter meio simbolista de fábula. É uma faixa que seria um ótimo pre-release ou single final do álbum (depois de ele já ser lançado), porque é bem divertida e tem uma produção fora dos modismos atuais, seguindo um dance-pop mínimo. Mas, dada as outras faixas que o álbum trouxe, ela não parece funcionar no meio da tracklist.

E então Epilogue encerra, entregando uma das faixas mais esquisitas que ouvi neste ano. Brincando com metalinguagem, IU fala conosco, perguntando sobre nossa jornada ouvindo seu álbum e agradecendo caso nossa experiência seja positiva. No refrão, ela reflete sobre uma sensação estranha que não está em lugar nenhum e permeia tudo, um tipo de percepção sobre um ciclo infinito que permeia todas as fases de nossa vida, como uma verdadeira filósofa conversando conosco. E aí, passa a nos perguntar sobre a efemeridade da memória e se preocupa com o próprio esquecimento. Voltando ao refrão, ela procura se acalmar, trazendo novamente a sensação de um ciclo infinito. E, pouco depois, a faixa é encerrada com ela concluindo que não se arrepende de nada e que espera nos encontrar novamente (nos convidando a acompanhá-la e ouvir seu futuro álbum).

A letra, por si só, tem o seu caráter chocante, mas, a MÚSICA, minha deusa, que criativo. Ela começa com uma melodia bem comum de faixas mais “ambiente”, como música de elevador ou de restaurante, com o violão e o piano aumentando o caráter íntimo da letra. E aí, sem qualquer aviso, o pós-refrão traz uma espécie de voz processada que lembra canto lírico do começo do século XX (como as músicas que a Branca de Neve canta), murmurando sílabas incompreensíveis. É um pós-refrão forte, criativo, que dá a faixa um caráter único e diferente. É este tipo de ousadia e criativo que eu espero de um nome tão consolidado e de caráter artístico como a IU!

Assim, o álbum se encerra perfeitamente, em ritmo e letra, dando a impressão de que foi uma ouvida perfeita, apesar de não ser muito isto que aconteceu… 🤔

Pretty Ji Brasil 🦊 #LILAC on Twitter: "📸 #IU no MV de Coin, que será  lançado amanhã às 6 horas da manhã! (1)… "

LILAC traz exatamente os erros e acertos que eu esperava de um full album da IU. Metade da tracklist é ótima e vale a ouvida repetidas vezes (LILAC, Coin, Troll, My sea e Epilogue) enquanto a outra metade sofre, sendo genérica demais (Hi spring Bye, Flu, Celebrity) ou estando muito mal posicionada na tracklist (Empty Cup e Ah puh). Se, por um lado, isto não decepciona, por outro, isto mantém o meu pé atrás para os próximos lançamentos dela, já que o único álbum realmente coeso e bem estruturado que ela conseguiu entregar foi Modern Times (CHAT-SHIRE não chega a ser ruim ou ter os problemas de tracklist, mas não acho que tem o impacto e a audácia que o single promete que vai ter). Novamente, IU prometeu um trabalho totalmente fora da casinha e só conseguiu tirar um dos pés da casa.

Considerando as faixas que eu curti do álbum, eu tentaria dar uma melhorada na tracklist, deixando assim:

  1. Ah puh
  2. LILAC
  3. Troll (feat. DEAN)
  4. Coin
  5. Empty Cup
  6. My sea
  7. Epilogue

Assim, LILAC teria uma faixa de introdução divertida para chamar de si, os efeitos “radiofônicos” de Coin e Troll seriam evidenciados, com Empty Cup servindo de transição para a baladona, que terminaria com Epilogue mesmo porque a sequência das duas últimas faixas ficou realmente muito orgânica.

Eu estou pensando em começar a montar estas reorganizações de álbum como playlist no Spotify pra eu ouvir desse jeito (amo ouvir um negócio com uma ordem pensada kkk), você ouviria por essa playlist ou pela ordem normal do álbum? 🤔 No próximo álbum que eu trocar a tracklist vou linkar no post e ver como vai ser kkkk

(edit: a pedidos da Rafa nos comentários eu já fiz a playlist do LILAC reorganizado e vou deixar aqui pra quem se interessar ^^)

PS: FINALMENTE ESTE POST SAIU!!! ✨ Décima Album Review do blog, babe 😎

O Aquário Hipster também tem Twitter!! Segue lá se quiser acompanhar surtos e comentários aleatórios de k-pop e BLs, com tweets ocasionais de artes e reflexões político filosóficas: @AquarioHipster

5 comentários em “LILAC, IU: Mais uma série de baladas genéricas? | Album Review 010

  1. arthur, eu CHOREI ouvindo my sea, sabe… até escrevi na minha review como essa música é poderosa e, parando pra pensar, a iu utiliza o artifício de água que cura MUITO MELHOR que a wendy. mas ainda assim é surpreendente que eu tenha chorado com algo da iu, que sempre me botou pra dormir com esse tipo de baladão. e disponibiliza essas playlists com a tracklist reorganizada, é uma experiência e tanto

    Curtido por 1 pessoa

    1. Nossa, SIM, a ideia curativa da água tá bem melhor expressada aqui (inclusive, dava pra o álbum ter um nome com água também, porque essa analogia aparece em umas três faixas…). Nossa, mas chocado que você chegou a chorar, tem horas que a música pega a gente e não tem jeito mesmo ✨ (eu com Zombie foi igualzinho igualzinho ano passado…). A playlist tá aqui xD!!! Montei ela e vou linkar no post tbm ^^ (fiquei feliz q vc ficou interessada em ouvir na ordem q falei 💖)

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