Atlantis, ShiNee: A raridade de um repack necessário

Desde sua concepção e surgimento, os repacks parecem ser uma coisa muito característica do k-pop e da Dua Lipa, com um álbum sendo reorganizado em conceito e tracklist poucos meses depois de ser lançado, pra impulsionar as vendas (seja porque está vendendo pouco ou porque está vendendo muito). O ShiNee teve repack de praticamente TODOS os seus full albums (e olha que estamos no sétimo!), trazendo um single a mais que, as vezes bom ou as vezes ruim, estragava a fluidez dos álbuns originais. Na verdade, 99% dos repacks no k-pop tem um pouco esta conotação desnecessária, mesmo sendo os singles ótimos. Considerando que o single original era algo para ser enterrado para sempre na fanbase, será que o repack pode ser uma esperança no fim do túnel?

Indo direto ao ponto: SIM! MIL VEZES SIM!

Pela primeira vez NA HISTÓRIA DO K-POP um repack trouxe algo que MELHOROU o lançamento original. E eu digo isto não apenas em matéria de single, mas todo o projeto do álbum físico e das duas faixas extras que acompanham Atlantis deixaram o lançamento bem mais impactante e redondo para compensar os prováveis dois anos que não teremos um comeback do grupo (já que o Taemin vai estar descansando da SM no exército).

Eu disse que na Album Review de Don’t Call Me que o álbum original consistia em “oito faixas redondinhas, sem muito direcionamento ou conceito unificador por trás (o que é interessante porque faz uns oito anos que os álbuns do SHINee sempre são meio temáticos e conceituais por toda a sua tracklist)”. Isto, para mim, deixava o álbum com um caráter inferior aos outros do grupo por comparação, já que o resultado final é uma ouvida agradável e despretensiosa, mas não parece o tipo de álbum que terá impacto o suficiente para suprir o futuro hiatus do grupo.

Com Atlantis, a coisa muda TOTALMENTE de figura.

Primeiro, o single. Além de ser um substituto para a péssima Don’t Call Me (que interpreto apenas como uma medida comercial da SM de vender o álbum deles seguindo a modinha), Atlantis é um ótimo exemplo do que as album tracks entrega, soando mais natural como o single do projeto: uma mistura de funky e nudisco, permeada de elementos de dance-pop mais modernos. A faixa começa guiada pelo baixo e vai crescendo, principalmente pelos melismas dos vocalistas do grupo todos menos o Minho, até ganhar os violinos na backtrack, que explodem em sintetizadores bem modernos de dance-pop com influências de dubstep e do baixo que apareceu lá no começo.

Até mesmo o drop de rap no segundo verso (onde o Minho mostra a cara na line distribution) não soa forçado e chupado do trap industrial do NCTinator. A transição é brusca, mas tem um caráter mais de future bass, soando como um splash na água logo depois do Onew dizer que “vai mergulhar em você”. Foi uma sequência bem natural e bem pensada pro rap não aparecer na ponte, onde o nudisco brilha e eles gritam mais que qualquer outra boyband antes do último refrão onde todos os elementos da faixa se unem novamente.

A letra não chega a ser nada demais (eles comparam se apaixonar com mergulhar em profundezas inexploradas do oceano), mas ganha pontos por ter um nome que não é mencionado durante a faixa, apenas sugerindo que esta profundidade é Atlântida, ao invés de dizer na sua cara (quem leu o post da IU ontem sabe como gosto de música com nome criativo kkk)

O clipe consegue trazer um pouco de aesthetic submarino pra combinar com o encarte do álbum (algo que Don’t Call Me falhou MISERAVELMENTE), mas deixa o foco para onde o ShiNee sempre se destacou: a coreografia. Deve ser até difícil fazer um clipe muito diferentão pra eles, porque a entrega da dança é tão impactante que não tem “loonaverso” que consiga impressionar mais do que a sincronia que eles tem. Neste sentido, colocá-los como trabalhadores de um pet shop aquático de manhã e exploradores de Atlântida de noite foi uma boa pedida (com looks maravilhosos que conseguiu valorizar a beleza de TODO MUNDO).

Segundo, as novas album tracks. Diferente do que ocorre com qualquer repack do ShiNee, Atlantis vem apenas com mais duas faixas novas além do single: Area e Days and Years. Mantendo um número menor de faixas, o álbum ainda fica num comprimento legal (juntando todas, dá só 40min, o que é bem aceitável e ouvível do que a quase UMA HORA de Married to The Music, por exemplo) e, além disso, as faixas trazem justamente o que faltava no álbum anterior para deixar a tracklist mais orgânica: midtempos.

Ignorando Don’t Call Me, tínhamos no álbum original: cinco músicas upbeat, um reggae e duas mais lentas jogadas a esmo na tracklist. Seria impossível conseguir fazer uma boa transição entre as faixas sem alguma coisa mais intermediária no meio e o repack traz justamente isto. Area é um R&B melancólico, de nome criativo (novamente) trazendo a melancolia de procurar por algo que preencha o vazio que sentimos em nossos corações, sem sucesso, como se eles não conseguissem sair da mesma “área”. É uma versão mais triste e com mais elementos de Marry You, com um instrumental soturno, que realmente consegue traduzir essa sensação de imutabilidade cruel para sonoridade da faixa.

Da mesma forma, Days and Years é uma power ballad de refrão agitado, equilibrando a existência de tantas faixas funky no álbum com uma baladinha como Kind. A faixa segue um pop mínimo até explodir no refrão com sintetizadores que lembram bastante os utilizados em Atlantis, o que já gera uma unidade pro lançamento legal de se ver. A letra é meio o que se espera: eles vão ficar do lado de quem os acompanha por dias e anos, protegendo-o da mesma forma que foram protegidos (pelo menos a referência a romance não é super óbvia, apesar de aparente).

Terceiro, o encarte. A SM tem o cacife pra fazer os melhores álbuns físicos, então eu espero apenas o melhor vindo dela. Com duas versões (Adventure e Ocean), mesmo sem termos um vídeo completo de unboxing ainda, já dá pra ver a unidade conceitual que as fotos vão trazer, ligando com o conceito de exploradores em busca de Atlândida, que dá ao álbum como um todo uma unificação temática que o tira do genérico. Deixa de ser dance-pop por si mesmo e passa a ganhar um caráter levemente fanficável, que combina com qualquer lançamento de k-pop (dada a importância que os clipes e os photobooks tem pra indústria como um todo).

SHINee - Atlantis Lyrics » Color Coded Lyrics | Lyrics at CCL
Que capa mais linda, sério 💖

No fim, Atlantis consegue o impensável e deixa as músicas de Don’t Call Me mais coesas dentro de um álbum. É impensável para mim que um repack soe realmente como algo que melhore o produto original que nem sei mais o que escrever kkk O single, junto de CØDE, se destacam entre as faixas mais animadas e Area, junto de Marry You, complementam como as melhores faixas mais calmas.

Eles tentaram melhorar a tracklist oficial na disposição das novas faixas, não vou mentir, mas ainda assim ficou aquém do esperado. Eu tô tentando readaptar a reorganização que tinha feito da tracklist na Album Review, mas tá se provando mais difícil do que eu imaginava kkk Eu dei uma pensada e acho que consegui uma disposição boa pra valorizar todas as faixas, menos Don’t Call Me porque, a partir de hoje, é como se este single não existisse pra mim…

Pensei bastante em qual poderia ser a faixa de introdução do álbum e, entre a questão temática de Area (que é a única música de fossa do álbum) e a cara de transição entre o som house do último álbum e o desse que temos em Attention, decidi colocar Area em primeiro, pra não deixar todos os números mais lentos no final… Aí, diferente do que se espera de um álbum de k-pop, só single só vem depois de uma boa dose de faixas mais animadas, que funcionam em sequência justamente por suas intros (se não fosse os DEZ SEGUNDINHOS de house no começo de Heart Attack, nunca colocaria ela depois de CØDE).

Então, pra não deixar todos os três números mais funky juntos (o que os deixariam com cara de genérico), deixei Atlantis e Body Rhythm antes de Kiss Kiss aparecer. A do reggae, inclusive, foi A FAIXA MAIS DÍFICIL DE ENCAIXAR, ela não combina muito com nada e soa abrupta depois de praticamente todas as músicas (mas também não faria sentido começar o álbum com ela), então coloquei depois do single porque achei a combinação menos pior…

E aí, pra finalizar, temos os harmônicos de Kiss Kiss puxando as faixas mais lentas, com Kind cedendo o espaço de última faixa para Days and Years, que SOA MUITO como faixa de final de álbum, dando um gostinho de quero mais sem cair no baladão lento por completo.

O Aquário Hipster também tem Twitter!! Segue lá se quiser acompanhar surtos e comentários aleatórios de k-pop e BLs, com tweets ocasionais de artes e reflexões político filosóficas: @AquarioHipster

6 comentários em “Atlantis, ShiNee: A raridade de um repack necessário

  1. Eu sinceramente sai bem satisfeito com esse repack album eu ainda estava meio nervoso achando que poderia acabar vindo alguma outra bomba, mas felizmente Shinee volto para os eixos direitinho.
    Nunca fui alguém q liga para as tracklist, pois tenho o costume de ouvir no youtube os videos separados e dai vou ouvindo na ordem q eu gosto, mas vou dar uma conferida nessa sua tenho certeza q fico ótima.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ai, fala depois oq vc achou da tracklist!!! xD Eu gosto muito de sentir a “vibe” de um álbum, então sempre encano com tracklists kkk

      Foi muito bom a SM esquecer o NCTinator nesse lançamento 🙏 Imagina se os singles do ShiNee entre os hiatus do exército são apenas try-hard? T-T

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  2. Eu li e concordei com tudo! Esse é o Shinee que gosto ❤ amei essa música, e não parei de ouvir, a vontade que tive foi de sair dançando sem parar.
    A coreografia tá uma maravilha e não vejo a hora de ver ela completa_ me deu uma vibe do antigo Shinee que tanto surtava_ . E sim, a capa do álbum está uma coisa linda e queria_ quando vi as fotos promocionais eu pensava “pelo amor sm, essa capa tá linda, vê se não estraga com uma música furreca e horrorosa!” E então veio essa coisa linda. Eu tava com as expectativas tão baixas, porque depois daquela tenebrosa_ nem lembrei o nome de tanta tristeza_
    PS. Até na tracklist é difícil de encaixar essa música horrenda, e tipo, se eu colocasse obrigatoriamente eu pularia sem parar.
    PS.2 eu vendo esse lançamento deles, me recordou quando vi eles pela primeira vez, aquela energia, aquela aura, pra mim foi tipo o novo se misturando com o velho.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Nossa, lembra mesmo essa energia inicial deles!! Não tinha parado pra pensar nisso, mas é verdade, parece que é o ShiNee voltando a forma depois de tudo que aconteceu e da música horrível… E que bom que a SM não estragou porque olha, o tanto de capa bonita do Red Velvet que virou single médio… X.x’

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