We Best Love, Fighting Mr.2nd: Problemático ou só mal escrito? | BL Review

E chegou, finalmente, a review da segunda temporada de We Best Love! Com o post da resenha da primeira temporada se consolidando como O POST DESTE ANO COM O MAIOR NÚMERO DE VISUALIZAÇÕES EM 2021 ATÉ AGORA (algo que eu nem de longe imaginaria), veio junto uma pressão de escrever sobre a segunda temporada da melhor forma possível e isso (mais um ataque de rinite 😅) fez o post demorar bem mais pra sair… Enfim, mangas arregaçadas e olhos atentos, vamos ver tudo de bom e RUIM que o Fighting Mr.2nd conseguiu melhorar e ESTRAGAR da primeira temporada?? 🧐

Se você chegou aqui de paraquedas, We Best Love é um dorama taiwanês curtíssimo, com seis episódios de 30 minutos, que foi idealizado como um projeto de duas temporadas iniciais (No.1 For You e Fighting Mr. 2nd). A trama da segunda temporada acompanha Zhou Shu Yi (YU) conforme ele lidera um projeto de incorporação de um setor de T.I. coordenado por Gao Shi De (Sam Lin), seu ex-namorado da faculdade, cinco anos depois de seu relacionamento terminar de forma turbulenta sem os dois se falarem desde então. Em meio a isto, temos também Yu Zhen Xuan (Chih Tian Shih), da equipe de Gao Shi De, que finalmente encontra seu crush de colegial, Pei Shou Yi (Ray Chang), doze anos depois que ele sumiu sem deixar pistas.

Para conseguir equilibrar a leitura de quem nunca viu o dorama e quem viu, eu vou (que nem em todas as reviews de BL aqui do blog) primeiro fazer uma análise sem spoilers e, depois de um aviso, eu entro em especificidades da estória e dos personagens (assim não estraga sua experiência se você curtiu a ideia do dorama e ficou com vontade de ver) ^^

Fighting Mr.2nd tinha, em suas costas, todo tipo de baixa expectativa que você poderia esperar. O episódio 6.5 da primeira temporada deu um pequeno teaser do que poderia ser o conflito da segunda temporada e tudo soou raso e mal construído, ainda mais com um salto temporal GIGANTE no meio. O drama começa com essa carga em cima da cabeça e, apesar de conseguir estrear ok em seu primeiro episódio, ele só realmente entra nos eixos lá pro episódio 4.

Digo, sinceramente, que, depois dos episódios 2 e 3, quase parei de assistir. Existem erros gritantes de narrativa, como personagens surgindo do nada (como se tivessem sido “empurrados” pra aparecer na cena), mudança de humor súbita de personagem, aquela “clássica” romanização de cena meio problemática de pegação e por aí vai… Dá realmente argumento e corporificação para a baixa expectativa que o episódio 6.5 anunciou. Mas Contudo Todavia Porém, a partir de seu quarto episódio, o dorama dá uma boa virada e conserta quase tudo em que escorregou, conseguindo terminar de uma forma até que espetacular.

Se você não viu nenhum BL japonês, provavelmente, o cenário de Fighting Mr. 2nd é algo incomum. Os protagonistas são adultos, seus dilemas pessoais e profissionais se confundem e as decisões românticas vem com uma certa maturidade que abrange vários aspectos da vida além da paixão ou do crush (como um livro da Jane Austen, sendo bem gentil no elogio). Nisso, o dorama consegue brilhar, conseguindo amadurecer os personagens universitários da primeira temporada e os tornando críveis o suficiente para soarem realmente como adultos perto da casa dos 30 anos.

O dilema empresarial envolvido é bem feito (dado o comprimento do dorama) e a relação dos personagens com seu trabalho é bem verossímil (eu mesmo consegui me identificar com algumas coisas que já passei trabalhando em escritório, assim como me identifiquei com algumas coisas em Cherry Magic). Causa um certo estranhamento inicial (principalmente se você não está acostumado), mas Fighting Mr. 2nd é uma boa adição a esta categoria de BLs que tratam de pessoas adultas trabalhando.

Por um outro lado, a temporada não consegue se manter tão coesa como No.1 For You. Aqui, eles tentaram adicionar elementos mais inovadores aos clichês (principalmente no casal do Pei Shou Yi x Zhen Xuan) e não conseguiram trabalhar tudo muito bem. A forma como a trama mais lugar comum atua é meio porca em alguns momentos e esta impressão só se dissipa, porque eles vão melhorando conforme chega no final. Foi uma boa tentativa, mas faltou um certo refinamento em algumas atitudes de personagens.

Assim, o dorama ainda continua bom de assistir (ainda mais se você cansou dos BLs universitários) e tem vários acertos inacreditáveis em sua trajetória, mas com uma quantidade maior de ressalvas que sua primeira temporada. E nos vamos a elas a seguir xD

Agora, começa a sessão de SPOILERS depois da imagem abaixo, então, se você quer ficou interessado em assistir e não quer pegar SPOILERS por causa do post, é só parar por aqui (ou descer até o último parágrafo de conclusão, se quiser).

Vamos ser sinceros aqui? Fighting Mr. 2nd não começa bem, pelo menos, não no que se refere a parte principal: Shu Yi x Shi De. O roteiro é fraco e espalhafatoso demais para como os personagens vão sendo construídos (toda aquela coisa de “vou quebrar o coração dele que nem ele quebrou o meu” do Shu Yi é adolescente demais pra um homem de quase 30 anos). O fanservice no primeiro episódio soa muito como os piores exemplos de fanservice forçado de vários BLs tailandeses pré-2018 e todo o contexto que gerou este cenário soa vago demais. Parece que Lin Pei Yu (a roteirista) usou o grande salto temporal como desculpa pra não precisar entrar em muitos detalhes sobre como os personagens se sentem com o que aconteceu. E toda vez que isto acontece dá uma impressão de que o roteiro ficou inacabado

Por outro lado, neste comecinho, existe uma introdução muito divertida e relacionável a um espaço de trabalho. Os comentários dos figurantes do escritório dão um pouco de equilíbrio humorístico entre as brigas e sofrimentos do casal principal, com o próprio Zhen Xuan desempenhando um papel bem divertido de se ver como um dos líderes da equipe.

É doido demais porque, agora que eu vi toda a segunda temporada (e o especial), estes episódios iniciais soam vazios na minha memória. Como em um BOYS LOVE, o subplot de empresa ficou mais marcante que os GAROTOS SE AMANDO (ou se odiando, no caso)?

Acredito que isto se deu pela forma como a trama só foi jogando os personagens e as situações em tela, pra só depois (EPISÓDIOS depois) dar uma explicação ou um aprofundamento necessário para elas fazerem sentido. A relutância de Shi De e a existência da promessa para com o pai do Shu Yi (Yoza Eriku minha deusa, como ele tá gato na foto do mydramalist!!! o.o) é uma das coisas mais bagunçadas e mal explicadas que já vi em um dorama que promete um roteiro a ser levado a sério. Isto é o epicentro (pelo menos de forma material) de todo o dilema entre o Shu Yi e o Shi De e trataram de um jeito bem mais ou menos.

Não é nem que a ideia em si é ruim (afinal é uma novela e a atuação dos envolvidos faz a proposta da promessa soar mais acreditável), mas ela é apresentada de uma forma toda confusa, picotada, sem muita explicação para o fato do Shi De não ter contado isto pro Shu Yi logo de cara. E a transformação do pai do Shu Yi de grande vilão do casal para uma espécie de alívio cômico (na cena em que ele e o Shi De estão bebendo) foi brusca demais e tirou boa parte da força que a desaprovação dele parecia ter no começo.

A coisa só começa a melhorar quando o Shu Yi descobre deste arranjo e passa a reagir de uma forma menos caricata. Ficar com raiva dos dois é normal, mas o motivo pra ele ficar com raiva do Shi De foi EXCEPCIONAL. Sério, foi uma coisa madura e natural de se ver a questão da confiança entre os dois ser levantada. Confiança é a base de qualquer relacionamento. E, quando ele pergunta pro Shi De o porquê de ele só não ter contado a situação para eles enfrentarem juntos, não só ele, mas nós, enquanto público, ficamos com uma reação de “nossa, é verdade, né? Por que ele só não falou pro namorado sobre isso?”

O fato de terem construído o Shi De como alguém perfeccionista na primeira temporada ajuda a dar um pouco mais de contexto para a decisão dele aqui. Lá ele tinha medo de perder o controle da situação e aqui não é diferente, mas, no decorrer dos episódios, isto não fica tão claro. É dado a nós, enquanto público, a preencher esta lacuna, o que, novamente, parece o resultado de um trabalho meio inacabado.

E isto também recai sobre a cena deletada em que era explicada sobre quem era a loira no especial da primeira temporada. Um pessoal ficou reclamando que cortaram, mas, curiosamente, a construção de que o Shu Yi não precisa saber porque CONFIA no Shi De foi algo bem mais legal e orgânico de se ver, então uma cena como aquela só ia chover no molhado.

E a cena problemática (vamos tirar esse elefante branco da sala logo). Sério, pra que a cena sugerindo sexo forçado?! Coisa mais sem pé nem cabeça! Não apenas pelo fato de isto ser algo meio problemático por si só (até porque está fora do contexto de uma fantasia sexual, sendo representado justamente num contexto verossímil que meio que normaliza este tipo de comportamento como acontece em 90% dos romances, vamos ser sinceros), mas ela destoa do tom e do fluxo da narrativa de uma forma bizarra. Não faz sentido o Shi De ir pra cima do Shu Yi nessa forma, assim como não faz sentido o Shu Yi ceder e ficar “tudo bem”. Claro, isso foi usado pra apressar um pouco as coisas, dissipar o conflito entre os dois e encerrar o plano de “vingança” do Shu Yi. Mas se ia encerrar tão rápido e porcamente, pra que começou?!

É incrível porque o próprio dorama tem muita consciência da situação de homens gays reais em Taiwan (como veremos no último episódio), mas, quando é pra deixar isto mais no campo do texto do que do subtexto, o negócio escorrega de uma forma desastrosa. Pode ser algo apelativo de propósito, porque conversa com uma parte significativa do fandom BL e atrai mais público, mas, analisando o cuidado na produção, na caracterização dos personagens e na própria forma como a Lin Pei Yu conseguiu trabalhar com coisas dificílimas de fazer em qualquer romance num contexto arriscado para o cenário taiwanês de BLs, usar apenas isto como justificativa soa pobre e preguiçoso (Lovely Writer, por exemplo, está brincando bastante com esta expectativa, problematizando as próprias cenas e situações que constrói).

Caso esteja se perguntando, o caráter arriscado deste BL se encontra em uma espécie de barreira que todo o mercado encontra fora do Japão: o gigantesco sucesso das tramas colegiais da Tailândia, com uma resposta financeira bem segura para as produtoras, deixou os players envolvidos com receio de tentar qualquer coisa que fuja muito desta fórmula. Em Taiwan, o quase fim da franquia HIStory e própria concepção de We Best Love como duas temporadas é resultado disso.

Apesar de ser amada por muitos, HIstory3: Trapped foi um dos maiores FRACASSOS entre os doramas taiwaneses de 2019. O investimento da série foi muito alto e a recepção do público foi de mista a negativa. Houve uma grande resistência a uma trama mais adulta, com críticas a caracterização dos personagens e a própria fluidez da trama. Como forma de tentar recuperar o dinheiro perdido, a ideia de fantasia para a segunda estória de HIStory3 foi substituída pelo clichê colegial de Make Our Days Count… Que EXPLODIU em elogios e popularidade (mesmo tendo muito mais erros narrativos e de caracterização de personagens que Trapped). A franquia (com a equipe da Chocomedia) acabou do mesmo jeito, mas esta diferença em recepção diz muito sobre como sair da corrente mainstream sem planejar uma espécie de transição pode ser um tiro no pé.

We Best Love faz isto ao trazer uma narrativa inteira se passando no contexto universitário, como qualquer hit tailandês, ganhar o público resistente a mudanças e já os fazer simpatizar com os atores e personagens. Assim, ao trazê-los um pouco mais velhos em sua continuação, os espectadores já estavam predispostos a criticar menos o dorama e aceitar um BL de adultos trabalhando mais facilmente. E isto foi GENIAL! É uma sacada de gênio que conseguiu não só fazer o dorama provavelmente ser renovado pra mais uma temporada com eles adultos e trabalhando, mas abriu as portas para o gênero BL fugir um pouco de seu molde colegial/universitário.

Ou seja, se essa equipe teve a sagacidade de fazer tudo isto, pensando em todo este contexto, eu não vou ficar passando pano pra erros tão gritantes quando a cena da pegação problemática.

第二名的逆襲We Best Love : Fighting mr 2nd Ep 5

Voltando a narrativa, a estratégia de amadurecer os personagens também funciona durante a segunda temporada para ajudar na mudança do foco narrativo. Existia um claro desejo artístico aqui de tentar contar um BL entre duas pessoas com características psicológicas diferentes do padrão e todos os passos foram feitos para que nós, enquanto público, fossemos lentamente introduzidos a este casal a partir dos protagonistas clichês de Shu Yi e Shi De.

Zhen Xuan é de longe a grande estrela da segunda parte de Fighting Mr.2nd, entregando uma atuação e um roteiro de pessoas que realmente pesquisaram como é alguém com síndrome de asperger. Minha irmãzinha escreve as estórias dela e é fascinada pela representatividade de pessoas com deficiências mentais em narrativas. Ela pesquisa pra caramba como fazer uma boa representação (e tudo que tá de errado nas várias representações que vemos por aí) e foi um CHOQUE ver como Zhen Xuan se encaixa perfeitamente em todos os fatores que as fontes dela elencavam como necessários para um personagem com asperger não soar caricato.

Ele é uma pessoa adulta e entende muito bem as responsabilidades de seu trabalho. Não há o menor espaço para um comportamento infantilizado caricatural ou algo tipo de representação que pode soar até preconceituosa. O personagem dele faz sentido dentro de todo o contexto da trama e as atitudes dele refletem numa medida extremamente equilibrada uma pessoa com síndrome de asperger de fato (pelo menos pelo que pesquisei, se achar alguma coisa errado, me corrige aí nos comentários que estamos aqui pra aprender ^^).

Nisso, quando ele assume o protagonismo lá pros episódios 5 e 6, o personagem se destaca como um dos mais complexos e bem feitos. Se no começo ele era “empurrado” para subitamente aparecer em cena e encontrar o Pei Shou Yi, com a tensão romântica toda bagunçada, mais pro final, começamos a entender um pouco melhor o lado dele e a coisa soa cada vez menos superficial. É aqui que o subtexto da síndrome deixa de ser um mero subtexto e ganha forma nas ações do personagem. Ele não é um token de pessoas com asperger, ele simplesmente tem a síndrome e isto faz parte de como o personagem foi construído.

Eu não esperava, sinceramente. Mesmo com o tempo de DOZE ANOS sendo algo meio inacreditável demais, na já famigerada cena em que ele leva a caixa de coisas de coisas do Pei Shou Yi que ele guardou, eu acreditei. Eu me emocionei. Eu estava lá, sentindo o que o Zhen Xuan estava sentindo. Não apenas compreendendo a intensidade do negócio, mas sentindo. E é aí que a representatividade que tanto se fala no twitter mostra seu real potencial.

Eu mesmo senti que minha visão deu uma mudada. Quebrou um pouco aquela impressão de “estranho” e “distante” de pessoas que tem transtornos do espectro autista (como asperger), a partir das coisas que eu já vi em outras estórias. E o fato de eu conseguir ficar tão próximo do personagem que é, teoricamente, tão diferente de mim, traz a grande questão que “somos todos iguais” sem alarde, sem biscoitagem, sem querer palmas de um tipo de “crítica especializada de twitter”. Só somos iguais e pronto.

O diálogo dessa cena foi muito bem escrito. Pensando melhor, toda a construção, desde hackearem o sistema da empresa para desembocar nisso foi muito bem pensada. Pela deusa, a Pei Yu até conseguiu te enganar em quem seria o culpado pela destruição de dados! (ou você desconfiava da mulher o tempo todo? Duvido, tudo apontava para o carinha). Usar isto como uma espécie de gatilho que tira Zhen Xuan de seu lugar comum e força Pei Shou Yi a enfrentar esta situação foi uma introdução ótima para o casal poder participar da trama sem grandes quebras no ritmo da narrativa.

E, perceba a sagacidade do diretor e da roteirista, quando esta trama começa, o casal hypado do Shu Yi e Shi De está em seus romantic moments relembrando a primeira temporada que foi super bem aceita. Soa ainda mais orgânico e menos agressiva a transição da estória mais clichê deles para a mais arriscada de Zhen Xuan e Pei Shou Yi. Um ótimo trabalho, sério.

Além de aturem pra facilitar esta transição, as cenas nostálgicas do Shu Yi e do Shi De dão uma certa impressão de caráter cíclico na narrativa, que só vai ir ficando mais forte conforme ela se aproxima de seu final. Nesta ótica, os intervalos de tempo malucos e gigantes de cinco e doze anos começam a ganhar um significado maior do que, meramente, uma “escrita porca”.

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Existem certos preceitos em construções narrativas parecem ser universais e escritos em pedra. Coisas como a jornada do herói (como vimos na review de A Tale of a Thousand Stars) e o conflito que cerca toda trama (como vimos nas reviews de Still2gether) parecem conceitos primordiais que, necessariamente tem que estar presente nas narrativas para elas conseguirem ter sentido e progressão dentro e fora de si mesmas…

Será mesmo?

É curioso notar que estas duas ideias que falei são trabalhadas a partir de escritores e críticos do eixo Europa-EUA e carregam consigo os valores inerentes ao ideal que a sociedade ocidental carrega consigo. Quando escapamos um pouco desta lógica e somos apresentados a obras do eixo China-Japão, por exemplo, vemos como estas questões são relacionáveis. Afinal, não seriam os animes slice of life, por exemplo, estórias em que não há qualquer tipo de conflito (narrativamente falando)?

A concepção que temos de tempo entra igualmente, nesta reflexão. A ideia de tempo linear (ligada mais aos povos de origem anglo-saxã) ou afetivo (ligada aos povos latinos) é algo particular das sociedades ocidentais. Somos tão acostumados a esta dicotomia que até aprendemos em escola uma divisão de tempo em linear e psicológico (alinear) quando começamos a ver literatura. Mas, lembremos, estamos consumindo uma estória produzida fora deste contexto e que, apesar de permeada pela globalização, escapa dessa lógica temporal do ocidente.

Ao reviver as situações que passaram na primeira temporada (desde o episódio 4 até o 6), Shu Yi e Shi De evidenciam o caráter cíclico do tempo, como a passagem da vida e da matéria funciona a partir de ciclos que inevitavelmente se repetem. Neste sentido, a ideia de “tempo perdido” é relativizada e, no contexto do dorama, os cinco anos que se passaram entre os dois soa mais figurativo que real. Claro, cinco anos ainda é muita coisa, mas a forma como os personagens (e a roteirista) encaram este tempo é permeada por uma visão diferente da de um dia, necessariamente, após o outro.

Parando pra pensar nisso, fica bem mais crível os cinco (e doze) anos que se passaram entre os personagens. Se o tempo é cíclico, o que, na nossa percepção mais latina (que é permeada pela ligação de tempo e afetividade) seria “tempo perdido”, passa a ser apenas mais um ciclo que se encerra para outro inevitavelmente começar. Assim, a ideia não é que o Shu Yi e o Shi De guardaram estes sentimentos por todos esses anos (como somos levados a acreditar a partir de nossa visão), mas sim que esses sentimentos se afloraram quando um novo ciclo começou.

Pode parecer doidera, mas para um segundo pra pensar. Quando você sente raiva ou afeto por alguém, essa sensação tem um caráter mais linear (o sentimento vai crescendo ou diminuindo com o passar do tempo) ou cíclico (a partir de certos momentos ou cenários seus sentimentos ficam mais fracos e fortes, seguindo um certa gradação)?

Não digo que isto foi algo pensado propositalmente pela equipe por trás do dorama, mas é um tipo de percepção natural, que é representada por estas características na estória e só causa estranhamento a nós, que estamos mais distantes desta percepção.

Eu sei, é muita brisa kkk Mas é algo que achei bem legal e queria por aqui.

Assim, conforme os episódios passam, certos acontecimentos se repetem (seja referenciando a primeira temporada ou estórias anteriores dos personagens) e isto dá mais substância e completitude as tramas, seja na parte arriscada de Zhen Xuan e Pei Shou Yi ou na parte mais clichê de Shu Yi e Shi De. Um grande exemplo disto é a aparição da mãe do Shi De (Helena Hsu) justamente no sexto episódio de Fighting Mr.2nd (assim como apareceu no sexto episódio de No.1 For You). Não é mera coincidência.

Neste contexto, a transformação pela qual Zhen Xuan deve passar na trama fica ainda mais forte. Em todo o dorama, ele se apega a memória do Pei Shou Yi de doze anos atrás e não ao que se encontra na frente dele. É extremamente simbólico o ato de ele desapegar dos bens materiais, ainda mais dentro da profusão de sentimentos que envolve alguém com asperger. Nesta cena, Zhen Xuan está deixando o ciclo inicial que teve com Pei Shou Yi se encerrar e só assim um novo ciclo pode começar, dando a oportunidade dos dois ficarem juntos ou não.

Bem, e depois de toda esta rasgação de seda filosófica, eu PRECISO dar uma criticada, porque, neste ponto da narrativa, o Pei Shou Yi acabou sendo um grande balde de água fria. Ok, a ideia de ele não ter apego emocional é algo verossímil, real e até representativo? Sim. Mas foi jogado do nada, sem contexto e sem desenvolvimento, dando, novamente, a impressão de algo inacabado.

Eles, literalmente, só falaram deste ponto do Pei Shou Yi no ÚLTIMO episódio. O personagem aparece desde a primeira temporada e nenhum tipo de dica ou impressão se dá sobre este aspecto seu. Parece que foi inventado depois e colocado de qualquer jeito.

Além disso, a conclusão dele com Zhen Xuan ficou confusa. A impressão que tive é que ele resolveu tentar o relacionamento depois de tudo, mas isto não foi muito bem confirmado pelas cenas que foram mostradas. E chega até a confundir quando tem a cena de fanservice imaginação do Zhen Xuan. O episódio 6.5 da vez, focado neles, poderia trazer algum tipo de luz pra isto, mas, no fim, serviu para outro propósito (que vou falar daqui a pouco).

A resposta do personagem do Pei Shou Yi, em termos de estrutura mesmo, fica fraca demais para combinar com o personagem do Zhen Xuan. É um personagem completo, muito bem trabalhado, ao lado de alguém que nem aprofundamento tem direito. Na minha opinião, deixaram pra explorar isto muito pro final e o tempo acabou faltando pra dar um resultado mais satisfatório.

Por sorte, os outros núcleos não perdem a mão enquanto o Pei Shou Yi tá lá sendo mal escrito: o pai do Shu Yi ganha um pouco mais de tridimensionalidade e sentido ao falar com o protagonista da mãe (essa cena com os dois falando em japonês dela foi LINDA e muito bem feita, me emocionei mesmo isto sendo jogado a esmo no último episódio) e o terceiro casal, Bing Wei (Evan Luo) e Zhe Yu (Richard Lee), ganham foco em uma das cenas mais memoráveis e calorosas de todos os BL que já vi: um pedido de casamento!

Vamos lá, não sei qual seu histórico em BLs ou quantos você já viu, mas eu, pelo menos, nunca vi essa cena, tão clássica em casais hétero, sendo trabalhada com seriedade e materialidade dentro de um BL. E isto ocorre, principalmente, por dois motivos: (1) em boa parte do mundo, gays não podem legalmente se casar como os héteros e (2) a ideia de “casamento” é muito usada como fanservice nos BLs ganhando um caráter mais fantasioso que verossímil. Quando me aparecem dois gays querendo se casar em um país em que eles podem legalmente se casar (sim, em Taiwan, é legal), a ideia soa tão material, tão possível… Sério, eu quase chorei vendo, porque foi a primeira vez que consegui sentir a possibilidade de um casamento da mesma forma que alguém hétero que vê romance sente.

Eu vi umas pessoas que perderam a hora do Brasil e não perceberam que eles eram um casal. Fiquei chocado. Se você for uma dessas pessoas, me fala aí nos comentários: você realmente prestou atenção no dorama? Lá na primeira temporada eles ficaram estabelecidos como casal depois de passarem a noite inteira juntos na “noite do terror” da faculdade. E durante toda a segunda temporada eles agem como um casal de namorados com anos de relação e proximidade (não tem beijo nem nada até o último episódio, mas não é possível que tem gente que acha que beijo é sinônimo de relação romântica).

Enfim, eu acredito que esta ideia de casamento é uma ótima premissa para uma terceira temporada. Jogaram muito bem durante todo o Fighting Mr.2nd que o Zhe Yu se acha o bonzão pra cima do Bing Wei. A teoria do “burro e da cenoura” parece dar a entender que o Zhe Yu tá no controle enrolando o Bing Wei, mas, como o próprio Shu Yi sugere na cena em que falam disso, o único que tá sendo enrolado aí é o próprio Zhe Yu. Ele se recusa a dar o braço a torcer pro Bing Wei e isto pode gerar consequências cômicas e dramáticas bem empolgantes de se ver.

Imagina um drama pré-casamento que nem VÁRIOS filmes românticos héteros num BL? Queria muito uma terceira temporada assim… Vamos torcer!!!

E com o pedido de casamento o dorama se encer- NÃO, não, temos mais um episódio 6.5!

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O medo que eu tive pra assistir isto daqui… Depois do episódio 6.5 da primeira temporada foi uma das coisas mais porcamente construídas que eu já vi (ainda não tinha assistido o primeiro arco de YDestiny ainda, só pra deixar claro kkk), eu jurava que iam escorregar de novo. Porém, diferente do esperado, o especial não traz nada de novo. Na verdade, uns 75% dele são cenas que já vimos do Zhen Xuan e do Pei Shou Yi, misturadas com algumas cenas de flashback que devem ter sido cortadas na edição final do dorama.

Soa inútil assistí-lo (e é um pouco, porque não traz nada demais além de um pouquinho mais de aprofundamento para o passado dos dois), mas a existência dele é outra jogada bem esperta da equipe por trás do dorama. Tendo sido exibido sozinho, uma semana depois do final da série, acredito que isto seja um teste para ver como a audiência reage a We Best Love sem a presença de Shu Yi e Shi De. Assim, eles conseguem estudar a possibilidade de arriscar uma terceira temporada com os dois deixando o protagonismo de lado pra focar em Zhen Xuan x Pei Shou Yi e Bing Wei x Zhe Yu. Eu tô torcendo muito para que seja isto, porque acho que estes casais ainda tem muito potencial pra serem explorados (e mais um conflito mal feito pra Shu Yi e Shi De não vai ficar legal não…)

Assim, oficialmente, termina-se o dorama (com a promessa de que a estória deles não acabou 👀) com um impacto bem positivo. Eu sei que eles erraram no começo, mas, diferente de 90% dos doramas, conseguiram acertar no final, e a impressão que fica sempre é a do final (lembra que You Make Me Dance estava ótimo, mas como o final ficou horrível eu fiquei até com raiva do dorama?).

Depois de doze episódios, eu fiquei chocado com a forte impressão que os personagens ficaram em mim, mesmo comigo tendo várias ressalvas a trama. Foi realmente um trabalho que tentou ser excepcional e, por incrível que pareça, conseguiu acertar nas coisas mais difíceis e errar nas mais simples.

Apesar do título sensacionalista do post evidenciar a parte ruim (até pra conversar com o título da review da primeira temporada), eu genuinamente gostei do dorama e provavelmente veria Fighting Mr.2nd de novo sem problemas (principalmente os três últimos episódios), até com mais prazer do que No.1 For You. Vou torcer muito para que tenha uma terceira temporada, porque, diferente de muitas equipes por aí, esta provou saber muito bem trazer novas facetas para sua trama e para seus personagens com uma nova temporada…

E eu nem acredito que terminei esta review!!!! Ahh 😆😆😆 Estava com MUITO bloqueio pra terminar de escrever ela e gostei bastante do resultado ^^ E aí, qual das duas temporadas você preferiu mais: No.1 For You ou Fighting Mr. 2nd?

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