Ugly Dance, ONF: Filósofos sem orçamento

Depois de ter lançado o primeiro lançamento masculino realmente bom do ano e ganhar um espaço no header do blog, ONF voltou sem qualquer aviso para um repack de seu primeiro full album. Como o full foi bem executado e conseguiu não errar muito, mesmo com a moda masculina de hoje ameaçando estragá-lo a todo momento que saía um teaser novo, eu JURAVA que este seria o comeback em que pagaríamos pelas músicas boas com uma barulheira inaudível e sem personalidade que estragaria todo o projeto…

Por sorte, Ugly Dance conseguiu escapar desse mal.

Com um introdução épica, tanto no clipe quanto na referência orquestral a Beautiful Beautiful, chegamos a algo muito mais simples (e barato), com eles dançando dentro de um galpão temático em dois figurinos diferentes. Não vou reclamar, pois UM DOS MELHORES CLIPES DA GALÁXIA é exatamente isso, mas quebrou um pouco a expectativa… Não deve ter sobrado UM CENTAVO pra WM Entertaiment, ainda mais com o comeback do Oh My Girl e os dez anos B1A4 tudo perto…

De toda forma, quando o single de agora chega, temos alguns flertes com a onda hip-hop que inspira boa parte dos atos masculinos na Coreia (a estética dos robôs dançando lembrou MUITO Panini do Lil Nas X), mas não chega a cair no industrial ou no trap que permeiam o mainstream atual. A faixa se permanece muito mais “pura” neste sentido, evocando os beats base de rap por todos os versos conforme eles vão harmonizando ou mandando umas rimas. É só no pré-refrão e no pós-refrão que vemos um pouco mais de inventividade, com a melodia crescendo em elementos no primeiro para explodir em elementos orquestrais no segundo, conversando com os sintetizadores presentes no pré e pós-refrão de Beautiful Beautiful.

É bizarro, porque, apesar das faixas não terem absolutamente nada a ver uma com a outra, estes pequenos elementos as relacionam de uma forma muito orgânica, criando uma sequência natural entre os dois singles que mantem uma consistência que nos permite dizer “claro que são faixas do mesmo álbum”. É muito gratificante perceber este cuidado, mesmo com o baixo orçamento, porque realmente dá um significado para o repack e esconde um pouco melhor a ideia de reciclagem de trabalho que todo o conceito de repackage album tem na prática.

O clipe, por si só, não faz muita coisa (ainda mais como um follow-up da explosão visual que foi Beautiful Beautiful), mas gravaram a performance dos meninos de uma forma bem interessante (com vários efeitos de câmera pra não ficar muito maçante pra um clipe oficial) e fizeram umas transições entre um figuro e outro que ficaram tão CERTINHAS que deu até dó de quem teve que fazer as gravações baterem em CADA SEGUNDO pra cortar os vídeos no momento exato kk

Além do single, temos mais duas músicas no álbum que, por incrível que pareça conseguem acrescentar muito bem o que eles já tinham mostrado com o álbum original. The Dreamer referencia a maravilhosa The Realist, tanto em melodia quanto em letra, mas eu vou focar aqui na outra b-side (até porque tô pensando em escrever um Album Review em maio sobre esse álbum): My Genesis (Übermensch).

A faixa consegue trazer outra album track impressionante para o catálogo do ONF, não apenas em melodia, mas também em letra, referenciando nada mais nada menos que um conceito filosófico cunhado por Nietzsche em 1883. É de uma audácia conceitual muito grande para um contexto super mainstream (só lembro do LOONA chegar nessa nível, referenciando a Fita de Moebius com o Odd Eye Circle), mas o pior é que não só ficou bem feito, como também se ligou totalmente com a ideia que o clipe de Beautiful Beautiful e o photoshoot tanto do álbum quanto do repackage querem passar: uma narrativa cyberpunk.

O conceito em questão é o Übermensch (“super-homem” ou “ultra-homem” em alemão), um grau de elevação do individuo que o faz superar o mundo “do além” pregado pelo cristianismo e pela filosofia e conseguir viver sem o ideal imaginário de um mundo “aparente”, seja este o mundo das ideias do Platão ou o “além-vida” do cristianismo. Apresentado em Assim Falou Zaratustra, o conceito surge junto de uma série de críticas às construções filosóficas e religiosas que formavam as ideias de “homem”, de “Deus” e de “ética” no imaginário popular e acadêmico da Europa do século XIX.

Não tem como pensar nesse conceito fora deste contexto (tanto que foi justamente assim que o governo alemão do Hitler distorceu os textos do filósofo e transformou o conceito numa espécie de justificativa teórica para todos os massacres que realizou em prol de uma “raça humana superior”), mas, em suma, a ideia do “super-homem” de Nietzsche é um exercício que propõe a desconstrução dos valores limitadores da existência humana de sua época. É um “ser humano ideal” que nós aspiraríamos ser para vivermos mais plenamente o agora, sem se preocupar com o intangível e imaterial.

Vamos lembrar que Nietszche foi inspirado pela concepção de Kant, do século XVIII, de que é impossível conhecer o mundo como ele é “em si”: o mundo existe, está lá, mas está sempre fora de alcance. Desta forma, procurar significações para um mundo inalcançável não faria o menor sentido e toda a diferenciação que Platão (e seus discípulos) e o cristianismo fazem sobre o “nosso mundo” e o “outro mundo” também deixa de fazer sentido. Assim, o verdadeiro viver é alcançado quando essa diferenciação é jogada pela janela e passamos a preocupar apenas com o mundo em que vivemos, sem nos imputarmos a algum outro existir além de nossa própria existência aqui e agora. E, nesta quebra de paradigmas, o questionamento que Nietszche nos trás é: os conceitos de “ser humano”, de “deus” e até mesmo de “ética” seriam os mesmos neste contexto? Afinal, a ética cristã, por exemplo, não está embasada justamente no dogma de que existe um “além-mundo”?

Tudo isto foi pra explicar que o übermensch mencionado pelo ONF está extremamente alinhado com o conceito filosófico (!!!!). Na letra, eles descrevem uma espécie de renascimento da percepção, brincando com a ideia de dogmas em heróis e vilões, realidade e sonho (olha The Realist e The Dreamer aqui de novo!), verdade e mentira, como um instrumento para superar o sistema (dentro da narrativa cyberpunk do álbum) e superarmos A NÓS MESMOS. Eles continuam na ponte falando para “não ter medo e lutar contra a gravidade que te segura”, com o sentido de gravidade trazendo justamente a ideia de preceitos inquestionáveis que remetem aos dogmas cristãos e platônicos que Nietzsche critica. E, enquanto “super-homens” em “sua gênese” (como o título da faixa diz), eles aspiram superar os questionamentos entre tangível e intangível porque assim eles “estão além de si mesmos, criam a si mesmos, em sonhos sem limites” (como fala o encerramento da faixa).

É uma viagem sem igual que, além de promover a reflexão, estabelece muito bem o personagem que o grupo construiu para si de “rebeldes de uma sociedade opressora” para estes comebacks. Uma grande referência que eu consegui ver nisso daqui foi a relação dos lançamentos da Janelle Monaé com ficção científica, filosofia e crítica social (e olha que isto é um puta de um elogio, porque, mano, os álbuns dela são de uma profundidade surpreendente). A própria Ugly Dance pode ter um paralelo com Dance Apocalyptic, mas vamos deixar essas reflexões pra Album Review kkkk

ONF – CITY OF ONF (Album) | ♥ Bubble Days...

Em seu mais novo comeback, ONF conseguiu aumentar a profundidade de seu último lançamento (que já era bom!) mesmo com um single que não é muito marcante. Afinal, como lembrar de Ugly Dance depois de ouvir My Genesis (Übermensch)? Eu só estou achando bizarro que tem só uns três vídeos sobre essa faixa no youtube, porque ela é realmente o grande destaque do comeback e só não é o grande destaque do ONF neste ano, porque The Realist é igualmente profunda e impactante, e Beatiful Beautiful teve todo um clipe lindo que ficou intrínseco a faixa que também é impactante. Pode não parecer, mas vejo o ONF, sutilmente, cheio de fogo no olhar para as boybands pseudo-conceituais que emulam o BTS (só lembro de cabeça do ATEEZ agora, mas sei que tem mais), assim como o AOA estava cheio de fogo no olhar para todos os girlgroups de primeiro escalão quando lançou Like a Cat.

Enfim, espero que tenha conseguido explicar o conceito filosófico bem (fiquei umas duas horas pra conseguir ficar um textinho legal kkk) e vamos torcer esse salto de qualidade também no Oh My Girl no mês que vem. Amo as meninas, mas eu simplesmente NÃO CONSIGO ficar stanneando se ficam lançando bomba genérica como single de álbum meia-bomba x.x’

It's Time to 'Ugly Dance' With ONF - The Honey POP

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2 comentários em “Ugly Dance, ONF: Filósofos sem orçamento

  1. Nossa Review do album sim!!! Olha eu realmente fiquei muito surpreso em ver que eles conseguiram manter a qualidade do Album, mas ainda estou chocado que My Genesis não teve uma live nem no Showcase mano! Mas quem sabe não surge alguma live futuramente….
    Sobre a parte de filosofia eu já tinha ouvido falar desse termo Super-Homem (moro com um pseudo filosofo kkk), então acho que ficou facil para entender e sinceramente eu nunca iria esperar esse nivel de profundidade narrativa dentro da historia de um Album, pois eles não deixaram somente em um unico MV como normalmente os grupos fazem, eles levaram todo o conceito para as musicas também o que é excelente! Eu realmente espero que eles continuem fazendo esse tipo de musica pq eles vão longe comigo desse modo kkkk

    Curtido por 1 pessoa

    1. Nossa, se eles continuarem assim eu vou stannear muitoo!!! É levando o conceito a sério sabe? Bem legal :3

      Eu estudei mais sobre o Kant do que sobre o Nietzsche na faculdade, mas reler sobre deu uma reavivada das coisas na minha cabeça kk que bom q ficou fácil de entender 💖

      Eu também não esperava tanta profundidade assim, agora eles só precisam mostrar pro mundo né?? Espero que tenha alguma live de My Genesis!!! Essa música merece MUITO

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