timeabout, Yukika: Uma boa reflexão vence o “mais do mesmo”? | Album Review 011

E chegamos a última Album Review de abril!! O timing dessa review foi muito bom de uma forma cruel, porque, nos últimos dois dias dessa semana, eu estou encarando uma parte do meu passado, assim como a Yukika propõe em timeabout,. Então, com algumas reflexões da minha parte e a vontade de terminar algo pra melhorar o astral, vamos ver o que a Dama japonesa de Seul trouxe para seu recomeço em 2021?

YUKIKA

Eu sempre fui meio aberto sobre minhas inseguranças com meu trabalho e o contexto atual desde que o blog voltou ano passado então vou dizer que minha bad vibe é por conta disso. Mesmo quase seis meses depois de sair de lá e começar uma faculdade em algo que acredito, a ideia de um encontro especial com as pessoas desse lugar gatilhou muitos sentimentos ruins dentro de mim e, apesar de eu não ter muito a coragem de falar na cara das pessoas o quão mal fiquei com isso, sorrateiramente, não vou participar do encontro (que está acontecendo enquanto começo a escrever o post) e vou tentar utilizar a máquina do tempo da Yukika para tentar sentir um pouco menos pior comigo mesmo…

Pensando no histórico da Yukika, eu fico imaginando quantos perrengues ela deve ter passado quando começou sua carreira na Coreia (lá pra 2016) por ser japonesa. Eu sei, eu sei, existem vários idols japoneses no circuito idol coreano (inclusive as três japonesas do IZ*ONE voltaram para sua terra natal com lágrimas dos coreanos nas costas nesta última semana), mas algo na mensagem da Yukika e em todo contexto criado para ela conseguir debutar solo parece deixar mais claro o lado penoso para qualquer pessoa japonesa que tente a sorte em território coreano. Afinal, o Japão não foi o melhor dos governos para a Coreia nos últimos, bem, CINCO MIL anos…

Vê-la lançando o full album do ano passado dá muito esta impressão, mostrando uma série de retratos da vida meio solitária que ela enfrentou na Coreia, enquanto a esperança e a decepção mostravam suas facetas ao mesmo tempo para ela. Porém, depois desta narrativa, qual seria o próximo passo? Ela continuaria a explorar esta faceta ou tentaria algo diferente? É isto que timeabout, (com a vírgula no título) irá nos mostrar.

Girlgroups Brasil on Twitter: "YUKIKA revelou as primeiras fotos teasers  para o lançamento do seu primeiro mini album 'timeabout'! O comeback da  solista está marcado para o dia 7 de abril!… https://t.co/SHE9C6dF1x"

O álbum mantêm um mínimo do conceito do anterior (cheio de interlúdios) ao começar com a intro Leap foward. Num instrumental de um minuto, é como se ela tivesse conseguido condensar a sonoridade de todo o seu EP nesta pequena parcela de tempo, como um teaser para o que estamos prestes a ouvir: a melodia começa calma e apagada, ganhando aos poucos elementos mais fortes de city pop, parecendo cada vez mais alta e “próxima” a você. A impressão que dá é que a Yukika está andando em sua direção, pedindo para que passe os próximos dezessete minutos com ela, e aprecie a viagem. Não é a melhor das intros (em conceito mesmo), mas para o que ela quis passar, até que funciona.

Insomnia é, como esperado da Yukika, um single com forte influências de city pop. Porém, diferente do caráter mais “purista” do retrô de seus outros singles seus, a faixa traz algumas referências diferentes, até ousadas para alguém que se manteve tão fiel a um gênero tão específico:

  • Os versos são de um dance-pop delicado e mínimo, com diversos elementos extremamente sutis no fundo da batida constante
  • A ponte é guiada inicialmente por violinos, como um nudisco, e depois ganha proeminência do baixo, como uma música chill do comecinho dos anos oitenta
  • O caráter “citypopesco” só aparece com força mesmo quando chega o refrão e ela suspira em nossos ouvidos, com sua já característica voz fina e agudíssima.

Sinto ouvindo uma faixa mais próxima do Poetic Narrator do que da Mariya Takeuchi, o que é um ótimo sinal. Ela já tinha dado entrevistas dizendo que pretendia brincar com diferentes gêneros mais modernos em seus futuros lançamentos e Insomnia é, claramente, um passo sólido e muito bem pensado neste caminho. Talvez não seja para todos os ouvidos, mas, claramente, é uma faixa que combina com sua letra, seu clipe e o próprio momento que a Yukika está passando em sua carreira (e, talvez, com o seu momento na vida também).

yukika stats| Love month is out right now (@chartsyukika) | Twitter

Utilizando o tema da insônia como catapulta para refletir sobre seu próprio passado, a faixa tem Yukika refletindo sobre suas ações, conversando consigo mesma sobre o que mudou e o que permaneceu igual com o passar do tempo. Isto é representado visualmente no clipe com a Yukika de cabelo rosa transcendendo a malha do tempo em uma noite de insônia para encontrar e encorajar a menina de cabelo preto (que seria ela mais jovem) a seguir pelo caminho que ela (a do passado) acredita que é certo. Desde a primeira vez que comentei da Yukika aqui no blog eu vi um quê de viajante do tempo, mas nunca imaginei que ela iria levar para o lado psicológico da coisa.

É muito interessante porque é mais uma relação dialética entre as duas personas do que apenas o futuro dando um apoio pro passado. Dialogar com seu eu do passado é uma coisa que pode dar muita força, seja você o “futuro” que tem remorso por suas escolhas ou o “passado” que ancia por momentos melhores. Cometemos erros, os superamos, mas as vezes eles voltam para nos assombrar (como o que aconteceu comigo com esse rolê do antigo trabalho) e isto quebra muito a nossa confiança nas escolhas que estamos fazendo e fizemos. As vezes, o jeito é lembrar do nosso eu antigo, que queria muito e podia pouco, para lembrarmos o quão importantes são as escolhas que fizemos e como os erros que cometemos são justamente os fatores que acabaram nos dando a experiência para fazermos as melhores escolhas.

Numa transição perigosamente orgânica demais, chega Lovemonth, com a viajante do tempo paralisada no continuum durante “um mês de amor”. A Rafa do AYO GG fez uma análise MARAVILHOSA envolvendo os caracteres coreanos e japoneses que nomeiam a faixa, então, aqui, vou tentar trazer algo mais relacionado a narrativa de autodescoberta que Insomnia sugere. Afinal, porque não poderia ser este amor mencionado pela Yukika na letra algo relacionado a sua própria “eu do passado”? Ou a própria eu do passado encontrando seu “eu futuro”?

É curioso porque esta faixa é, justamente, uma das que mais bebem da fonte do j-pop de 80/90, tal qual o primeiro full album dela, com explosões de sininhos, teclados e sabe-se lá que outros sintetizadores exagerados de açúcar no instrumental. Conforme seus versos mais contidos contrastam com o brilho do refrão cheio de elementos, vemos uma relação muito forte com as faixas do ano passado em estilística que, apesar de PARECER diferente quando ela lançou como pre-release há uns dois meses (como eu mesmo falei no post solo pra esta faixa), é bem semelhante em estrutura e sentimento aos singles anteriores. E, apesar da mensagem ser bonita e a faixa bem produzida, dá um certo clima de “mais do mesmo” que acaba dando uma estragada na tracklist, principalmante quando chega a próxima faixa.

YUKIKA is back with 'Lovemonth' - thekmeal

Eu entendo, a Yukika gosta de city pop, um gênero musical super específico, mas quando chega TIME TRAVEL sinto como se estivesse ouvido a mesma música pela terceira vez. A faixa não é, nem de longe, tão parecida assim com as duas anteriores (o refrão aqui é bem mais impactante), porém os elementos que se destacam são praticamente os mesmos: sininhos e um batidão j-pop oitentista (com os trompetes de Lovemonth dando as caras de novo). E, por mais que tenha um instrumental rico que consegue brincar e muito com o tempo da música conforme ela está cantando, não posso dizer que me impactou tanto assim. Agora mesmo, escutando a música repetida vezes, ela ainda soa como a faixa mais fraca do álbum, justamente por ser a terceira rodada citypopesca seguida no mesmo padrão.

E nem venha me dizer que ela tá sendo fiel ao city pop apostando nisso, porque foi justamente na diferenciação de texturas que o SOUL LADY conseguiu fazer até mesmo suas faixas mais básicas brilharem na tracklist (exemplo: I Feel Love e Soul Lady tem a mesma carga energética cheia de trompetes, mas, logo depois, temos uma música mais contida como NEON, que quebra um pouco o clima parecido, fazendo Yesterday, que vem logo após e segue um pouco as duas primeiras, soar bem menos derivativa do que se ela estivesse logo depois de Soul Lady). É um detalhe da tracklist que me incomoda e me faz dar um pouco de razão para todo mundo que fala que as músicas da Yukika são todas parecidas, porque, colocadas nesta ordem, elas parecem mesmo.

Quanto a narrativa, Time Travel se trata do convite. Da proposta que a Yukika do futuro faz para a Yukika do passado depois daquele breve momento de amor-próprio e auto aceitação que vemos em Lovemonth. Ela se convida e nos convida a compartilhar de sua jornada, como se fosse o Aladdin estendendo a mão pra Jasmine pouco antes de cantar Um Mundo Ideal. Sinceramente, seria uma faixa perfeita para introduzir todo o conceito de viagem no tempo e é uma pena que a tracklist fez ela soar tão fraca pra mim…

Yukika has 'Insomnia' in comeback MV | All Access Asia

Por sorte, Secret salva o EP deste aparente marasmo estilístico, com uma transição propositalmente brusca que te acorda e faz prestar atenção no que vai vir a seguir. A faixa é, talvez, um dos melhores aegyos dos últimos tempos, apostando em uma melodia de synthpop oitentista guiada pelo baixo, mas sob uma mascara de sintetizadores que a deixa fofinha e super açucarada. É uma faixa tão COREANA que, se alguma empresa fosse doida o suficiente pra estrear um grupo aegyo com músicas de qualidade hoje em dia, provavelmente o single seria algo como Secret.

Tudo na faixa evoca o lado divertido, fofinho e levemente infantil do aegyo capopeiro, sem perder a batida dançante e cheia de texturas no processo. Seja os versos que passam entre si como se fossem várias integrantes cantando. A intro com uma pseudo-rapper suspirando umas coisas. O refrão com uma voz FINÍSSIMA que usa da repetição de uma onomatopeia no começo e do título coreano da música no fim. A ponte que congela o instrumental inteiro para a visual ocupar o center da formação… Enfim, se o aegyo voltar assim, escutarei com prazer!

Quanto a letra, Secret é bem óbvia em conteúdo, falando sobre um segredo que é escondido pelo eu lírico de seu interlocutor. Contudo, dentro da narrativa, esta pode ser uma resposta da Yukika do passado. O refrão tem uma partezinha que fala sobre ela querer “cair no sonho” do seu interlocutor, que, na brisa, pode ser a viagem no tempo, e “ir secretamente ao seu encontro”, aceitando a proposta da viagem com relutância. Na verdade, se pararmos pra olhar a tracklist, pode ser como um diálogo entre as duas Yukikas:

  • Insomnia é a Yukika do futuro voltando ao passado
  • Lovemonth é a Yukika do passado encontrando seu futuro num processo de autoaceitação
  • TIME TRAVEL é a proposta da Yukika do futuro para a Yukika do passado viajar com ela
  • E Secret seria a Yukika do passado relutante em aceitar a proposta, por ter partes de si mesma que não quer mostrar pra ninguém, mas se deixando levar

Louco, né? Acabei de pensar nisso enquanto escrevia sobre Secret e já tá rolando altas ceninhas entre as duas Yukikas na minha cabeça kkkk

PUNG! já encerra o álbum com mais uma vertente citypopesca raiz (o começo realmente parece aqueles vídeos do youtube de 1h de citypop japonês kkkk), desta vez mais ligada a balada emocional do que ao synths oitentistas, no número mais sóbrio do álbum. Apesar de não cair na beleza de SHADE (minha faixa preferida da Yukika), a voz dela está um pouco menos fina e transmite um caráter melancólico mais aparente (mas a Yukika parece que sempre canta sorrindo, sei lá…). Temos uma profusão de elementos na melodia, que realmente se preocupam em deixar a faixa interessante a cada nova sessão, com cada rodada e versos + refrão soando levemente diferentes da anterior. É aquele tipo de faixa calma que parece simples, mas, a cada vez que você parar pra escutar vai encontrar um elemento diferente, desembocando em um dos encerramentos mais místicos e efetivos de todos os álbuns de 2021, que deixa a narrativa do EP propositalmente inacabada, de forma a se alinhar com a vírgula presente em seu título.

Em PUNG! estamos em outro momento. Não vemos mais as facetas da viagem e do encontro entre as Yukikas, dando a entender que a própria narrativa do EP é menos linear do que aparenta (ou que o próximo EP vai preencher um pouco mais esta questão). Ao invés disto, temos a Yukika lentamente pegando no sono (ou acordando), relembrando da noite de insônia que teve em meio a uma estória de aventura e imaginação, como um sonho. As transições dos versos, ao invés de seguirem uma lógica de declarações ou fatos, seguem uma passagem de aspecto a aspecto, com figuras de linguagem transmitindo uma sensação luminosa e acalorada preenchendo o eu lírico conforme a faixa vai progredindo.

Assim, o final do EP é como aquelas estórias ambíguas em que ficamos na dúvida se o que acorreu com a protagonista era real ou imaginação. Teria a Yukika do futuro realmente viajado ao passado? Teria a Yukika do passado realmente encontrado seu eu do futuro? Ou ela apenas sonhou com isso?

Os coros no encerramento da faixa propõe uma ideia sutil de continuidade que deixa estas questões sem resposta no ar conforme a voz da Yukika fica cada vez mais distante e desaparece…

Yukika - The 1st Mini Album: timeabout, (Teaser Photos 1 & 2) : kpop

timeabout, é, sem dúvidas, uma viagem, assim como seu predecessor. Por ser mais curto, existem menos oportunidades para Yukika trazer um pouco de ambientação para o clima reflexivo de suas faixas, mas, mesmo assim, a proposta consegue funcionar e te fazer submergir nas camadas de fanfic e autorreflexão que o lançamento propõe. Por outro lado, o EP falha em sua tracklist, soando mais derivativo e homogêneo, mesmo com as faixas funcionando bem sozinhas. A grande culpada disso é a tracklist que, ainda por cima, é tão fechadinha que não promove muito uma grande mudança (como eu costumo fazer quando tenho uma crica dessas pra cima do álbum).

Eu não consigo imaginar nenhuma outra forma que as músicas se reorganizem para ficarem melhores porque esta já parece ser a melhor configuração que elas poderiam obter. Por ser um EP, deveria ter pelo menos mais uma faixa um pouco mais longe do “espectro city pop” pra contrastar com as outras e que mudasse um pouco o tom do álbum (colocar tudo isso nas costas de Secret é pedir demais). Nem precisaria ir muito longe… Se fosse mais rockish (como a Ai Furuhata) ou mais sóbria (como SHADE), mesmo mantendo as referências, o resultado final do EP ia soar bem melhor e mais lembrável.

No fim, só metade das faixas ficam comigo (Insomnia, Secret e PUNG!) e com muito menos força que as de Soul Lady (um dos interlúdios desse álbum é toque dos meus alarmes até hoje, pra você ter uma noção). Fiquei um pouco decepcionado, mas a reflexão e a mensagem positiva que ela trouxe neste lançamento compensou um pouco (são coisas muito boas de lembrar em momentos como este que eu falei no comecinho do post), sinto que estou um pouco melhor com meus fantasmas internos, mas sei que eles vão acabar voltando e, neste sentido, escrever aqui foi um processo muito bom para desligar um pouco de tudo isso sem tentar conter a bad vibe ou esconder minhas emoções (o que nunca é muito saudável…)

Desta forma, se encerra o cronograma de abril e logo mais teremos maio com novas Albums (e BLs) Reviews 💖

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6 comentários em “timeabout, Yukika: Uma boa reflexão vence o “mais do mesmo”? | Album Review 011

  1. ai que legal que vc me citou aqui kkkkkk acho que vc, assim como eu, escreveu a review de madrugada e, por mais que eu não seja uma pessoa tão noturna, o efeito que esse horário exerce sobre o ser humano é muito doido né? sei lá, parece que a madrugada tem um quê de fantasia, os sentimentos ficam mais aflorados… enquanto eu escrevia, lembrei muito de quando eu fui pro interior de sp fazer faculdade. tinham dias que a tristeza me avassalava, sabe? ficava maior que eu. e eu saía pelas ruas de rio claro pedalando sem rumo às 3 da manhã. chorando, refletindo. foi uma época muito dura na minha vida e foi essa sensação que o álbum me trouxe, principalmente na última faixa, e eu não sou de sofrer efeitos externos por conta das mídias. aliás, eu sou meio turrona pra alguém canceriana KKKKKKKK mas acho que o timeabout tem isso de conseguir fazer a gente mergulhar em nós mesmos né? enfim, espero que vc esteja bem com tudo isso que aconteceu com vc e essa conexão entre a gente vai além da blogosfera. qualquer coisa estou aqui!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Nossa, SIM! A madrugada parece uma hora meio mágica em que tudo pode acontecer 💖 É engraçado como conversa com a gente de uma forma emocional, né? As sensações se ligam a situações e vem a tona na nossa memória… Nossa, imagino que deve ter sido um período muito difícil mesmo T-T
      Chocado que vc é canceriana e turrona kkkk Astrologia deu uma desviada (mas eu mesmo sou um aquariano super sentimental kk)

      Muito obrigado, de paixão 💖 Estes últimos dias estão sendo bem difíceis pra mim, mas tô focando no lado positivo das coisas e deixar as sensações saírem (pra não ficar tudo entalado na gente sabe?), assim vou dando uma melhorada

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