Nobleman Ryu’s Wedding: Subvertendo um clichê hétero | BL Review

Nobleman Ryu’s Wedding deve ser o BL coreano que mais chamou atenção desde o lançamento de Where Your Eyes Linger no ano passado. Com a premissa de ter uma trama histórica e a proposta de trazer atores já conhecidos do público que acompanha os BLs coreanos, o dorama parece ser uma brisa de novidade pra pessoas como eu, que estão meio cansadas com essas produções mínimas vindas da Coreia que SEMPRE estragam o final (pelo menos nas três que eu vi) e costumam receber confete demais da fanbase… Será que a proposta diferente conseguiu ser bem executada e merece o confete?

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Nobleman Ryu’s Wedding (O Casamento do Nobre Ryu) é o mais novo BL coreano, o primeiro a trazer um elenco de atores que já trabalhou em outros BLs e a trazer uma trama histórica. A trama segue Ryu Ho Sun (Kang In Soo, de Wish You) que descobre, na noite de núpcias, que foi enganado e se casou com Choi Ki Wan (Lee Se Jin, de Mr. Heart), irmão de sua noiva, ao invés da dita cuja (Cha Soo Jin), que fugiu. Tentando sustentar as aparências até ela voltar, o improvável acontece e Kim Tae Hyung (Jang Eui Soo, de Where Your Eyes Linger), amigo de Ryu, se apaixona por Ki Wan, sem saber que ele é um homem.

Para conseguir equilibrar a leitura de quem nunca viu o dorama e quem viu, eu vou (que nem em todas as reviews de BL aqui do blog) primeiro fazer uma análise sem spoilers e, depois de um aviso, eu entro em especificidades da estória e dos personagens (assim não estraga sua experiência se você curtiu a ideia do dorama e ficou com vontade de ver) ^^

O fato do dorama trazer um contexto histórico (provavelmente ambientado na Dinastia Joseon) realmente o faz se destacar e já merece uma conferida. É muito gratificante ver uma estória que reconhece a existência de pessoas LGBTQIA+ no passado, algo que foi escondido e apagado por séculos de revisionismo histórico. Isto aumenta ainda mais com o número gigantesco de doramas coreanos históricos, o que deixa as coisas um pouco “em pé de igualdade” entre as tramas héteras e BLs (ainda tem um longo caminho percorrer, mas é um começo).

Contudo, dá pra perceber que a trama de Nobleman Ryu’s Wedding não é o seu lanchinho coreano usual de 80min e pode acabar te dando um gosto bem amargo na boca. Em termos de estrutura, todo conflito envolvendo a troca dos irmãos no casamento segue como plano de fundo, sem assumir o foco em nenhum momento. Apesar de isto seguir uma estrutura meio clássica na literatura oriental do século X/XI (algo que vou entrar em mais detalhe na parte com spoilers), a falta de uma progressão de fatos até o clímax pode causar uma sensação de marasmo na narrativa, parecendo que a trama não tem direcionamento.

A ideia do triângulo amoroso (que também é meio que uma novidade dentro dos BLs coreanos) não chega a ser muito trabalhada não, mesmo dentro desta proposta. Seja pelo tempo curto ou por escolher focar mais em outras coisas, tem mais tensão romântica entre o Tae Hyun e o Ki Wan nos materiais promocionais do que no dorama em si kkkk

Assim, a trama assume um caráter mais calmo, remetendo o slice of life dos animes, brincando com os papéis de gênero e um pouco com a tensão romântica. Não é uma epopeia histórica com gays, infelizmente, mas traz um tipo diferente de estrutura narrativa que é legal dar uma conferida, principalmente pra se ter uma experiência um pouco diferente das estruturas mais ocidentalizadas que estamos acostumados.

Agora, começa a sessão de SPOILERS depois da imagem abaixo, então, se você quer ficou interessado em assistir e não quer pegar SPOILERS por causa do post, é só parar por aqui (ou descer até o último parágrafo de conclusão, se quiser).

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É bem curiosa a ideia de um BL histórico ter demorado tanto para aparecer na Coreia. Assim como a China, o país exporta um número gigantesco de doramas passados na Dinastia Joseon (até como uma forma de declarar culturalmente a independência de sua história da história chinesa) e imaginar que, em nenhum momento, haveria espaço para uma trama LGBTQIA+ neste contexto é, no mínimo, piada. Acredito que já deve existir vários webtoons BL notáveis que tem esse foco (já que o grande mercado de BLs na Coreia orbita em volta dos webtoons), então ter um live-action assim não é só natural como esperado.

Inclusive, em sua própria premissa, Nobleman Ryu’s Wedding consegue dialogar com estes típicos doramas históricos, por subverter uma trope extremamente comum: a menina que se disfarça de eunuco.

Eu, que não sou uma pessoa que assiste muitos doramas héteros, já consigo pensar em uns cinco que usam desta premissa pra aproximar a protagonista de seu príncipe, brincando com o fanservice no meio, claro. Ver o contrário acontecer, justamente impossibilitando a mera existência de um relacionamento hétero na trama (assim como os “doramas de eunuco” fazem com os relacionamentos homossexuais) é gratificante demais. Não acredito que a ideia tenha sido esta, mas é como se este BL estivesse tirando sarro desta trope ao mesmo tempo que a executa com os mesmos maneirismos.

Enquanto esposa, Choi Ki Wan se vê envolto de afazeres domésticos ligados ao papel feminino na sociedade coreana, da mesma forma que as protagonistas disfarçadas de “eunuco” conseguem certos privilégios por ocupar um papel masculino (o que, curiosamente, deixa bem mais escondido o papel mais servil que a mulher desempenhava no contexto doméstico), só que ao contrário. Então, se elas conseguem estudar, ter mais tempo livre, se dedicar a atividades físicas e religiosas, Ki Wan tem que passar seus dias tentando agradar sua sogra e cunhada ao mostrar como é “uma boa esposa”.

Existe até um certo tom de crítica aqui, pela forma como o feminino assume um protagonismo. As tarefas que Ki Wan deve executar são difíceis e cansativas, algo que foge do radar de Ryu Ho Sun (e de qualquer homem num geral) e gera uma certa sensação de injustiça entre os deveres de cada um do casal. Isto fica ainda mais nítido no momento em que Ho Sun descobre que seu esposo também estuda literatura, mas não tem mais tempo e disposição para prosseguir lendo em meio as tarefas “de esposa”. E vai ficando ainda mais aparente com o surgimento do Tae Hyun, que, ao contrário do protagonista, reconhece o esforço e o valor nas tarefas domésticas (naquela cena em que os três estão almoçando).

Arquivos Nobleman Ryu's Wedding - ORIENTAL LINE

Esta progressão (se é que podemos chamar assim) é mostrada em pequenos fragmentos que concentra algum fato específico ou “desafio” que Ki Wan tem que superar para que o disfarce não seja descoberto. Este tipo de abordagem menos linear me lembrou muito de O Livro do Travesseiro, um livro clássico japonês escrito por Sei Shônagon, por volta de 1002. Dando uma pesquisada, este livro é um exemplo da literatura zuihitsu, consistindo em pequenas anotações desconexas de caráter levemente confessional (com anedotas, registro de acontecimentos diários, crítica literária, poemas e por aí vai…). Este segmento da literatura possui um correspondente coreano (chapki, só achei este nome em uma fonte então não sei se está totalmente certo) e um chinês (biji), mas não necessariamente um veio do outro ou foi baseado no outro.

Mas Contudo Todavia Entretanto Porém, tanto no Japão quanto na Coreia, este segmento da literatura era considerado algo do gênero baixo, distante da alta literatura, que era escrita apenas em chinês. Este caráter fez o formato ser um dos primeiros expoentes de literatura de ambos os povos que se afastava do domínio cultural e ideológico dos povos chineses, conseguindo, ainda, registrar vários detalhes da vida nestes períodos que, apesar de escapar os grandes registros históricos, foram imortalizados pela literatura.

Não há, neste formato, espaço para conflito ou uma ideia de progressão. Lembra quando escrevi um pouco sobre esta quebra de estrutura no post de Fighting Mr. 2nd? A ideia aqui é justamente essa! O BL, apesar de não ser necessariamente inspirado neste formato, traz esta carga mais confessional e mundana, que não procura um grande conflito e não segue a jornada do herói.

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A ideia de analisar uma trama assim é muito legal =3 porque abre um pouco nossos olhos para algo além da estrutura mais eurocêntrica de literatura (que se espalhou pelo mundo todo). Causa uma certa estranheza, claro, e acredito que é muito por conta disto que as pessoas não gostaram do dorama. Afinal, se você esperava que o foco fosse justamente o conflito de interesses entre Ki Wan e sua irmã (ou seja, solucionar toda a questão do casamento falso), vai se decepcionar bastante. Mesmo quando ela finalmente volta, as coisas são resolvidas fora da tela, porque o foco não é e nem pretende ser este: o foco está nos pequenos momentos que circundam Ki Wan em meio a sua vida de esposa.

E, devo dizer, assistir estes pequenos momentos foi algo muito divertido e prazeroso. Os dilemas domésticos, as sabotagens simples (mas cruéis) da cunhada, as estratégias da sogra para aproximar o casal e conseguir netos rápido, as declarações de amor exageradas… Todos os aspectos deste BL trazem uma espécie de calmaria e romantismo mais antigo, que escapa de nossas estórias justamente por conta de revisionismo histórico e apagamento de pessoas e estórias ficcionais envolvendo pessoas LGBTQIA+.

O surgimento do romance entre o Ho Sun e o Ki Wan, em meio a estes episódios, foi muito bem feito. É muito sutil e aos poucos, começando com pequenos gestos (como a pintura na saia estragada e a entrega do livro) e estabelecendo uma cumplicidade mutua antes mesmo de ser levantada a hipótese de eles serem um casal de verdade. Esta trope (“fake it until you make it“) costuma funcionar assim mesmo, mas foi admirável ver eles conseguirem trabalhar isto tão bem com tão pouco tempo de duração.

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O mesmo, entretanto, não pode se dizer do triângulo amoroso.

O aparecimento do Tae Hyun até que tem um bom posicionamento e traz um contraste legal para a tensão romântica que está surgindo entre os protagonistas, mas ele não tem a mínima chance em nenhum momento. Não existe a “ameaça” de ele ficar com Ki Wan (até porque ele não sabe que a “esposa” é um homem) e nem a oportunidade (afinal, quando um oficial de justiça ia conseguir ficar com a esposa de um nobre?!). Isto faz os momentos entre os dois serem mais de comédia do que românticos… um baita balde de água fria se pensarmos no que os trailers e entrevistas com os atores prometiam.

A única coisa que eu gostei desta parte da trama (em termos narrativos) foi a conclusão. Ela fez eu não ficar com tanta raiva assim. Foi muito legal o raciocínio do Tae Hyun (“como posso dizer que te amava se nem consegui perceber seu verdadeiro eu… Me desculpe“), fez todo o sentido com o personagem e deu a entender que ele desistiu não porque Ki Wan era homem, mas sim por sentir vergonha de si mesmo ao não reconhecer sua amada… Eles só poderiam ter mostrado o que a última dele carta dizia, teria ficado ainda melhor.

(Mas o duelo de declarações foi legal e, pelo que eu conheço de costumes entre nobres na era Joseon, nem é tão distante do que faziam mesmo 👀).

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Foi curioso notar que os atores tentaram agir de forma oposta aos personagens BL que os marcaram. Se em Mr. Heart, Sejin era alguém energético e expressivo, agora, ele é alguém bem mais contido e racional. Por outro lado, se em Where Your Eyes Linger, Euisoo era contido e racional, agora ele é alguém energético e expressivo. Deu pra ver que os atores tentaram se desafiar nestes personagens e o resultado ficou bem bom (não consigo dizer do Insoo porque não vi Wish You ainda 😬).

Ao final, tudo dá certo (como esperado), mas, como SEMPRE, sacrificaram preciosos segundos de tela para o famigerado Momento Triste de Dorama Coreano pra Tocar a Música Tema no FundoTM . Eles fazem isto sempre (em doramas héteros também), é uma coisa estilística, eu sei, mas, em tramas tão curtas, o estrago que estes segundos fazem é enorme. Como não temos mais tempo depois da música, não chega a se esclarecer como ficou a situação dos personagens e, apesar de entendermos que Ho Sun e Ki Wan ficaram juntos, o contexto foge e dá uma sensação de que a trama ficou mal acabada (pelo menos teve um beijo com os dois com roupas tradicionais… Quando vamos ver isso de novo, hein? 👀).

Nobleman Ryu’s Wedding é, de longe, o melhor BL coreano que eu vi. Conseguindo ousar e não estragar muito sua estória no último episódio, o saldo após terminar o dorama é muito mais positivo que todos os outros três. De todos, é o único que eu veria novamente sem ressalvas e que eu recomendaria tranquilamente para alguém assistir sem me preocupar que a pessoa vai achar mal feito. Eu espero que a Coreia se ligue que tramas históricas podem dar certo e comece a investir um pouco mais nisso, porque sinto que este é apenas um comecinho para todo um ramo de BLs pouco explorado (os hits chineses censurados, The Untanmed e Word Of Honor, são mais ligados a fantasia do wuxia do que uma narrativa mais realista, então não seria necessariamente “histórico”).

Enfim, eu vi um pessoal fazendo no twitter, então vou fazer também meu ranking de BLs coreanos:

  1. Nobleman Ryu’s Wedding
  2. You Make Me Dance
  3. Mr. Heart
  4. Where Your Eyes Linger (porcaria que merece ser esquecida e enterrada pela fanbase 💖)

Um dia eu ainda vejo os três que faltam (Color RushWish You e To My Star) pra fazer review e colocar nesse ranking também. Mas, sem sombra de dúvidas, acredito que o melhor deve ser Long Time No See, de 2017 (que ainda tenho que ver também 😅), e o único com potencial real de mudar isso é o Peach of Time, que vai ter a participação do Tommy e do Jimmy, além de contar com VINTE MINUTOS por episódio, sendo um total de DEZ EPISÓDIOS… Mal posso esperar pra esse BL estrear logo xD

Confira as outras BL Reviews do Aquário Hipster clicando aqui ^^

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O Aquário Hipster também tem Twitter!! Segue lá se quiser acompanhar surtos e comentários aleatórios de k-pop e BLs, com tweets ocasionais de artes e reflexões político filosóficas: @AquarioHipster

2 comentários em “Nobleman Ryu’s Wedding: Subvertendo um clichê hétero | BL Review

  1. Não gostei falo mesmo! Brincadeira no começo eu tava achando chato, mas a culpa foi minha por criar expectativas demais, mas pro finalzinho eu me diverti então valeu apena! Eu não tinha parado pra fazer essa analogia com a a guria sendo um eunuco, mas depois que eu li fez total sentido eu ainda me incomodei com umas partes da irmã dele ter voltado e ter ficado por isso mesmo não vou negar kkkk
    Ai eu já assistir Long Time No See tem no Meow ! É legal tem umas coisas que não gostei em relação ao enredo, mas no geral é um filme legal acho que vale apena ver e vamos cruzar os dedos para que Peach of Time seja BOM!

    Curtido por 1 pessoa

    1. kkkkk Do jeito que tavam fazendo propaganda não tinha como não criar hype… O negócio parecia que ia abalar estruturas (mas só tremeu elas um pouquinho kk)
      Ai, sério?? Acho que vou assistir dps que acabar os filmes do Takumi-kun xD Tô na torcida aqui, porque pra chegar ao nível de chamar atores BLs da Tailândia pra participar é porque a produção não tá de brincadeira

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