Light On Me: A Receita para um Bom Triângulo Amoroso | BL Review

Como primeiro BL coreano cuja duração total era maior que a de um filme, Light On Me estreou com muita expectativa e hype por cima, apesar de sua premissa super clichê de romance colegial em uma escola só para meninos. Porém, prometendo entregar um triângulo amoroso (algo não muito explorado em doramas BL), os fãs de cada um dos ships foram se estapeando no twitter conforme os episódios progrediram, acumulando cada vez mais atenção e espectadores… Será que este triângulo amoroso foi bom o suficiente pra destacar o dorama dos demais?

Light On Me é um dorama coreano com 16 episódios de, em média, 25min cada. Baseado no jogo de celular Saebit boys High School Council (um daqueles de simular namoro), a estória segue Woo Taekyung (Lee Saeon), um adolescente solitário que decide começar a fazer amigos. Aconselhado pelo seu professor, Seo Haebit (Lee Kihyun), ele entra para o grupo do conselho de classe, onde conhece e se aproxima de Noh Shinwoo (Kang Yoseok), Shin Daon (Choe Chanyi) e Namgoong Shiwoon (Go Woojin). Porém, as coisas parecem ser mais difíceis do que aparentam, uma vez que Shinwoo se mostra contra a entrada de Taekyung no conselho e Lee Sohee (Yang Seohyun), da escola vizinha passa a fazer o possível para afastá-lo do grupo ao descobrir a proximidade crescente entre o protagonista e Daon. É neste cenário, por incrível que pareça, que Taekyung encontrará seu primeiro amor.

O dorama foi produzido pela KOK TV, sendo escrito por Lee Ji Eum, estreante no mundo dos doramas, e dirigido Lee Yooyeon, responsável pelas duas temporadas do webdrama não-BL Best Mistake.

Além disto, é interessante ressaltar que temos um total de três aspirantes a idols de k-pop no elenco. Lee Saeon quase foi trainee da SM (mas seus pais não deixaram) e participou da segunda temporada do Produce 101, do MIXNINE e do I Can See Your Voice. Woojin e Chanyi fizeram parte dos nugus The Man BLK, com o último tendo participado do reality BOYS24 (ambos, inclusive, também participaram do Best Mistake como coadjuvantes).

Mais uma vez, temos um bando de idol nugu que viu no BL uma oportunidade pra melhorar a carreira nascente como ator kk

Para conseguir equilibrar a leitura de quem nunca viu o dorama e quem viu, eu vou (que nem em todas as reviews de BL aqui do blog) primeiro tentar falar sem spoilers minhas impressões e, depois de um aviso, eu disseco mais sobre o triângulo amoroso, o papel da personagem feminina e vários outros detalhes destacáveis no BL (assim não estraga sua experiência se você curtiu a ideia do dorama e ficou com vontade de ver) ^^

Light On Me é aquele típico dorama leve que entrega bastante subtexto. É uma estória que, apesar de começar em um cenário quase que irreal de um colegial só para meninos, entrega personagens verossímeis, carismáticos, com lições de vida para se refletir em suas jornadas. Além do protagonista, temos mais quatro personagens que passam por transformações, não deixando a trama maçante por acompanhar só os desenvolvimentos românticos.

E, sobre o lado romântico da coisa, o dorama se utiliza bem de sua inspiração, nos fazendo ficar em dúvida sobre qual das duas possibilidades do triângulo amoroso vai vingar no final. É um trabalho bem meticuloso de narrativa que subverte os clichês coreanos de doramas românticos e não subestima o olhar crítico do público em boa parte de sua trajetória.

Sério, eu só não indicaria pra alguém se a pessoa não gostasse de tramas escolares sob hipótese alguma, porque foi uma trama que conseguiu entregar muito além do esperado.

Agora, começa a sessão de SPOILERS depois da imagem abaixo, então, se você quer ficou interessado em assistir e não quer pegar SPOILERS por causa do post, é só parar por aqui (ou descer até o último parágrafo de conclusão, se quiser).

Como eu disse, Light On Me começa com uma premissa bem clichê para qualquer um já viu mais de três BLs na vida: escola só para meninos, uma única personagem feminina que é meio vilanesca e um protagonista meio banana que se descobre apaixonado pelo carinha ao lado. O dorama meio que já sabe disse e aproveita sua origem enquanto um jogo de namoro (no qual podemos escolher com quem ficar no final) apresentando três possíveis rotas para o amor de Taekyung: Shinwoo, Namgoong e Daon.

Assim, o começo do dorama funciona tal qual o jogo, introduzindo você a cada uma das potenciais rotas enquanto o protagonista começa a deixar o seu mundo comum. Não é um começo muito sólido (principalmente os dois primeiros episódios), mas tenta criar um mínimo de ambientação e conflito para a ideia do garoto de entrar no conselho estudantil e se aproximar dos garotos bonitos da escola seja algo mais verossímil.

Para isto, o roteiro se utiliza e muito do professor Haebit para guiar nosso protagonista até a trama minimamente se estabelecer, numa estrutura narrativa bem similar a da Jornada do Herói clássica: o mundo comum do Taekyung sozinho é mostrado, ele se encontra com um mentor para guiá-lo ao mundo especial e, após alguns dilemas, ele atravessa o primeiro limiar e passa por um período de teste para entrar no conselho.

É nessa primeira parte (que compreende, mais ou menos, os três primeiros episódios) em que o dorama mostra todas as falhas que as adaptações de jogos de namoro para outros formatos costuma ter. O protagonista não tem uma personalidade muito bem definida e a sucessão de eventos segue uma linha excessivamente linear. Se você já viu qualquer adaptação assim já deve saber do que estou falando, mas, resumidamente, é um problema de meio.

Quando se adapta algo que é “jogável” (ou seja, no qual você incorpora alguém na trama) é complicado definir uma personalidade para o personagem que você controlaria no jogo. Afinal, a graça de jogos com personagens (principalmente os de namoro) está em você projetar a personalidade que quiser no protagonista. Assim, muitas narrativas não se comprometem a escolher esta personalidade, o que deixa o personagem sem muita expressividade e, no fim, parecendo mais uma “s/n” do que qualquer outra coisa.

Quanto aos fatos, é uma questão da estrutura do próprio jogo. Numa narrativa dessas de namoro, todas as rotas tem que ser apresentadas para o jogador antes de se fazer uma escolha que altere muito os rumos da trama. E, para cada personagem, um fato diferente e impactante deve acontecer, pra já dar um saborzinho de como aquela rota pode ser se o jogador fazer as respostas certas.

A cena do dildo só faz sentido no dorama neste contexto (com certeza deve ter uma cena análoga no jogo). Como uma forma de dizer que tal rota é a mais quente, costumam colocar algo com mais tensão sexual do que romântica. E aí vai de quem tá jogando se quer ir pra rota mais romântica ou mais sexual. A questão é que esta tônica, em uma estória ficcional, é definida logo na concepção inicial, então fica difícil transpor esta diferença entre as rotas. Soma-se isto a própria sociedade coreana que não costuma exibir ou referenciar sexo em suas produções e temos a impossibilidade do dorama seguir com cenas mais quentes de fanservice que se alinhem com a tônica da cena do dildo (se fosse na Tailândia, por exemplo, o caso seria outro…).

Porém, mesmo assim, o dorama tem essa cena e a mostra em detalhes, como o momento inicial em que um dos potenciais casais se conhecem. É um momento que causou bastante burburinho nas redes sociais quando saiu e, no fim, não passou disso. Em nenhum momento se explica o porquê raios o Shinwoo tá carregando um fucking DILDO na escola.

Apesar de ser um grande furo na narrativa, acho que foi para o melhor. Não tinha como o dorama seguir colocando uma tensão sexual no casal de forma tão explícita e se manter minimamente verossímil no cenário coreano. Mas manteve a cena lá pra chamar atenção e, talvez, referenciar algum momento do jogo.

Curiosamente, quando deixa este encontro pra lá e deixa a narrativa correr, é que a estória começa a superar os problemas das adaptações de jogos de namoro.

A jornada de Taekyung pelo Mundo Especial do conselho estudantil é marcada por várias provações, grandes e pequenas. Algumas tem um caráter episódico, algumas funcionam de forma contínua, mas, num primeiro momento, elas servem pra nos aproximar de todos os novos personagens que ele passa a conhecer e como isto se reflete na personalidade DELE.

Foi um ponto bem interessante ver a personalidade do Taekyung surgindo lentamente a cada situação que ele presenciava. A roteirista e o diretor não deixaram as coisas mastigadas para o público, como costuma acontecer, e demora vários episódios até entendermos exatamente que tipo de pessoa nosso protagonista é. Isto é muito legal de se ver, porque, no meio BL, geralmente subestimam E MUITO o olhar crítico do público. Ver o Taekyung se desenvolver aos poucos nos deixa mais próximos do personagem e muito mais aflitos quando ele começa a passar por provações.

Um ponto muito curioso neste momento inicial da trama é o foreshadowing que constroem a partir da quebra do celular do Taekyung. Foi algo que aconteceu logo no início da trama (quando ele protege o Shinwoo e leva um soco) que vai afetar profundamente os desdobramentos, seja pela declaração do Shinwoo escondida nas mensagens que ele enviava, seja pelo Taekyung não conseguir ver de imediato o impacto da disseminação de sua foto com o Daon. Foi um recurso narrativo feito de uma forma bem sofisticada e acabou resultando em soluções de roteiro surpreendentes mais pro final.

Depois de estabelecido um mínimo de status quo com todos os personagens bem apresentados, o dorama passa a trabalhar o lado mais romântico, utilizando um recurso incomum hoje em dia, mas bastante comum em triângulos amorosos mais “clássicos” dos doramas coreanos: o secundário quase fica com o protagonista ANTES do interesse romântico principal ser desenvolvido.

Minha irmã está ultimamente viciada na série Endless Love, quatro doramas coreanos inspirados nas estações do ano (Autumn Tale, de 2000, Winter Sonata, de 2002, Summer Scent, de 2003 e Spring Waltz, de 2006) que estabeleceram todos os clichês e estruturas que vemos nos k-dramas até hoje. Nos dois que já vimos (o de outono e o de primavera) esta mesma estrutura se repete: a protagonista se aproxima e tem vários momentos românticos com um cara, pra, no fim, ficar COM O OUTRO. Soa familiar?

Antes de seguir para o true ending com Shinwoo, Taekyung passa a se interessar por Daon e, por quase metade do dorama, vemos os dois se aproximando, para o desespero de Shinwoo. Ou seja, emulam a estrutura clássica, mas a torcem para com que este interesse no cara secundário partisse DO PROTAGONISTA (nos dois doramas que citei, é o secundário que começa a se interessar na protagonista e cortejá-la, e não o contrário). Pense num k-drama padrão, qualquer um, e, muito provavelmente, o cara secundário é alguém que nunca parece ter chances reais de ficar com a protagonista, mesmo se ela começar o dorama gostando dele. Ou ele vai rejeitar ela para se arrepender depois, ou ele não presta atenção nos sentimentos dela até ser tarde demais.

Em Light On Me, NADA DISTO ACONTECE. Taekyung começa a investir fortemente em passar mais tempo com Daon e ele passa a responder sem grandes rodeios. Por mais que o Shinwoo já parecesse o real interesse romântico principal, a quebra na estrutura foi tanta que dava a impressão de que o Taekyung poderia acabar ficando com o Daon no final. Foi isto que deixou as fanbases tão fervorosas no twitter!

É curioso porque, em sua tragetória, o BL realmente fez o possível para quebrar a fórmula. Existe um espécie de regra não dita nos romances (principalmente nos coreanos e nos japoneses) de que o protagonista vai ficar com a pessoa que vimos ele encontrar primeiro. Mesmo que na estória ele/ela já tenha algum contato anterior, a pessoa que aparece pra nós antes é o que vale e, em 99% dos casos, é isto mesmo o que acontece.

Entre os dois potenciais carinhas, é o Shinwoo que vemos o Taekyung se encontrar primeiro (justamente na cena do dildo), então é certo já projetar que ele é o true ending da estória. Só que a aproximação do Taekyung e do Daon foi ficando tão forte e bem trabalhada que o BL parecia ser aqueles 1% que foge da regra.

A aproximação dos dois se dá de uma forma bem natural e esperada para qualquer casal principal de romance: eles são opostos (Takyung é isolado socialmente enquanto Daon é próximo de todos) cujos arcos de personagem serão aprender a partir das qualidades do outro como superar seus próprios problemas. É neste momento que vemos a personalidade do Taekyung tomar forma enquanto uma pessoa excessivamente direta e sincera, na qual Daon vai se inspirar para superar as dificuldades que tem de impor sua própria vontade perante os outros.

Vou levar essa frase pra VIDA kkkk

Os momentos românticos dos dois são muito verossímeis e relacionáveis. Eles se aproximam por conta de uma necessidade prática (Daon ajudar o Taekyung em matemática) e vão gostando um do outro a partir de interesses em comum. É curioso porque, apesar de ser assim na vida real, é bem incomum ver este tipo de abordagem em BLs (geralmente um cara começa a gostar do outro mais por atração física ou sem grande motivo aparente mesmo). Light On Me não é o primeiro que faz isto (um exemplo famoso que se utiliza bem dessa pegada também é o 2gether), mas o faz com o interesse romântico secundário, e não o principal!

E, de todos, os mais impactantes pra mim foram: (1) o momento em que os dois trocam músicas “desconhecidas” e (2) quando o Taekyung fala que o Daon pode ser sincero com ele. O primeiro é porque esta é MUITO a energia da Blogosfera Fundo de Quintal (até rendeu um post falando sobre músicas desconhecidas de k-pop que um indicaria para o outro). Já o segundo, traz umas reflexões muito legais sobre ser “bonzinho demais” e colocar suas próprias necessidades em segundo plano. Eu já passei por isso muitas vezes, então rolou uma identificação marota que me fez gostar muito do Daon.

Perceba como as cores contrastantes da roupa dos dois são utilizadas nesta cena

A jornada de autodescobrimento do Daon foi uma grande surpresa neste dorama. BLs não costumam tratar muito de awakenings e saídas do armário com grande profundidade, então foi interessante ver justo um coreano (que tá ainda no começo de um cenário de live-actions BL) tentar isto. Taekyung apaixona-se fácil por Daon, mas até o Daon perceber e retribuir os sentimentos demora. DEMORA MUITO.

Daon nem chega a cogitar a possibilidade de gostar romanticamente do Taekyung, mesmo sendo clara sua predileção pelo garoto. Esta percepção fica mais clara pra ele quando surge a “ameaça” do Shinwoo (que vai aprendendo a ficar um pouco mais ativo pra conquistar o Taekyung) e começa a ganhar forma na viagem escolar e com a entrega da pulseira.

E veja como EXATAMENTE o mesmo recurso visual foi utilizado pra passar uma sensação totalmente diferente

Utilizar esta estrutura, despertar de sentimentos através do ciúmes, é bem comum, mas geralmente ocorre ao contrário. É o secundário que surge como “ameaça” para que o principal comece a perceber seus sentimentos. Esta percepção logo acontece, o secundário fica chupando o dedo (ou conhece outra pessoa, se tiver um casal secundário) e os protagonistas ficam juntos.

Ao inverter os papéis, a trama de Light On Me continua a gerar dúvidas no espectador e deixa o final do protagonista ainda mais incerto. Porque, sendo o Daon o secundário, a trama clichê se esgota, dando espaço para explorar outras coisas.

Uma destas coisas é a sexualidade do Daon e uma leve crítica a homofobia. É um pouco ingênuo demais da parte dele demorar tanto pra perceber os julgamentos que virão se falar abertamente que recebeu um presente do Taekyung? É, mas, deixando isto um pouco de lado, isto funciona para o personagem e para a trama que começa a trabalhar o casal principal ao mesmo tempo que aprofunda na jornada de aceitação do Daon…

…que dura UM episódio, no máximo.

Esta é a grande falha de todo o arco de personagem do Daon. Eles elevam as expectativas, criam responsabilidades e riscos colocando os pais do Daon como investidores da escola, mas, no fim, não dão tempo o suficiente para as coisas maturarem e terem uma resolução a altura. De uma hora pra outra, quando reprime Sohee, Daon percebe e supera a situação muito rápido.

A construção de provações (ou seja, situações em que os desejos dos protagonistas são negados pelo enredo) precisam trazer um equilíbrio mínimo entre antes e depois da superação ou da derrota. É como um espelho: o ideal é que, pelo menos, o tempo que o personagem sofre por não conseguir algo deve ser semelhante ao tempo necessário para ele conseguir (ou pra ele, de fato, ser derrotado totalmente pela narrativa). Se um lado é muito curto em relação ao outro, parece que a trama está demorando ou sendo rápida demais.

Foi um pouco decepcionante ver esta resolução, porque construíram muito bem toda a tensão por trás. Deu a impressão de um trabalho mal finalizado.

Isto não ocorre, porém, com o arco de personagem da Sohee, a grande “vilã” da trama.

Houve muito burburinho e muito shade sendo jogado pra personagem dela conforme os episódios passavam. Muita gente não aguentou ver mais uma personagem feminina vilanizada em um BL e já chegou cancelando a coitada logo nos primeiros episódios. Porém, plot twist: ela foi uma das MELHORES personagens femininas de BL dos últimos tempos!

Eu sei, eu sei, parece que não porque ela cai no estereótipo de menina que vira vilã por ciúmes de macho. Mas ela tem algo na trama que praticamente nenhuma personagem feminina tem em uma trama recheada de homens: UM ARCO DE PERSONAGEM.

Veja, a importância de um personagem pra trama se dá pelo fato de ele ter uma evolução ou não no decorrer do enredo. Isto é o que diferencia um personagem primário de um secundário, terciário, etc. Ao passar por uma mudança a partir de um arco da estória principal (por isto o nome “arco de personagem”), ele se torna mais relevante para a trama do que alguém que não se transforma. Este, por sua vez, funciona muito mais como um personagem de apoio ou suporte, que tá lá mais pra auxiliar ou dificultar a vida dos protagonistas do que qualquer outra coisa.

Os grandes personagens de apoio de Light On Me são Namgoong e o Professor Haebit, assumindo diferentes papéis para diferentes personagens. Apesar de ser o alívio cômico na maioria da trama, no arco da Sohee, Namgoong funciona como uma variação do arquétipo do velho sábio (quase como se fosse a consciência da Sohee se materializando, a la Grilo Falante do Pinóquio) e a aconselha em sua jornada.

Shipo 💖

Se a jornada de Daon é se auto afirmar mais e validar suas próprias emoções, a de Sohee é o contrário. Ela é extremamente possessiva para com Daon e se torna totalmente sem escrúpulos para conseguir o que quer. Por um bom tempo, o enredo se utiliza disto para aumentar a tensão entre o triângulo amoroso e colocar o Taekyung em cheque. É necessário que o protagonista passe por dificuldades, formando inimigos em sua jornada, para que uma narrativa como a de Light On Me fique interessante e Sohee faz este papel de forma excepcional.

Para além do estereótipo, contudo, Sohee mostra ser muito mais do que uma vilã conforme a trama se intensifica. Inicialmente, várias dinâmicas com Namgoong sugerem que eles são um possível casal secundário até que, quando há o vazamento da foto de Daon e Taekyung para toda a escola, fica nítido que, além do crescimento dos três protagonistas, o enredo nos quis mostrar o crescimento da vilã.

Quando Daon nega, pela primeira vez, o desejo de Sohee, a personagem dela passa por renascimento. Os valores que ela carrega são questionados e Namgoomg a guia para um cenário em que ela aprenda a colocar os sentimentos dos outros em consideração para o que faz.

Dada a resolução do arco do Daon, eu não imaginava que o arco da Sohee fosse muito explorado além de uma mera sugestão de mudança. Felizmente, eu estava enganado e temos toda uma cena em que ela se desculpa com Taekyung e consegue mostrar seu crescimento enquanto personagem. Como bônus, Taekyung responde sendo empático e se vendo nela (de fato, os dois são os personagens mais diretos no dorama inteiro kkkk) numa relação entre o gayzinho protagonista e a mulher vilanizada como NUNCA VI em BLs. Muito bom mesmo.

Com Sohee desencadeando a fofoca que afasta Daon e Taekyung é finalmente o momento que vemos o true ending se desenrolar numa trope conhecia em estórias hétero, mas um pouco incomum em BLs: acalentando o coração sofredor.

Shinwoo surge como se fosse o próprio secundário e tenta ajudar o protagonista em seu nascente relacionamento com Daon. Eu gostei da forma como deixaram super explícito que ele não se sentia confortável em começar a dar em cima do Taekyung neste estado de fossa. Foi primeiro um trabalho de só ser bonzinho sem esperar nada em troca, criando uma empatia melhor do personagem para com os Daon-fãs, até as coisas começarem a avançar romanticamente entre os dois.

Isto é bem verossímil com os personagens (afinal, a trama nos diz que Daon, Shinwoo e Namgoong são amigos há muito tempo) e foge de uma trope comum de macho colocar romance acima de amizade (ainda mais em doramas coreanos) gerando uma enrolação sem fim. Novamente, Light On Me foi para uma via menos óbvia e fez Shinwoo dar todas as chances possíveis para o Daon antes de partir pra cima.

O recurso que o dorama se utiliza pra isto é, particularmente, um dos que eu mais gosto em qualquer romance: troca de perspectiva :3 Temos pequenos momentos de flashback em que saímos do ponto de vista do Taekyung e vamos para o ponto de vista de Shinwoo, compreendendo melhor os sentimentos dele e o porquê ele foi tão grosso com o Taekyung no começo da trama.

Não achei que ficou SUPER bem explicado, mas deu pro gasto. Otakus apenas dirão que ele é tsundere e por isto agia assim, mas, pra mim, faltou um pouco mais de aprofundamento neste momento pra ele soar mais crível. Afinal, pouco antes de abaixar as armas, Shinwoo disse umas coisas meio cruéis pro Taekyung, como se tivesse atacando mesmo. A impressão que dá é que aproveitaram que estes momentos foram lá no começo da trama e justificaram só por cima (até porque o tempo disponível até o final era curto kk).

Neste contexto, temos momentos românticos novamente, agora com o Shinwoo, dando tempo o suficiente para que ele e o Daon estejam no mesmo patamar quando a disputa pelo coração do Taekyung voltar. Eles até trazem a tona a questão do celular, com várias mensagens do Shinwoo, para deixar ainda mais forte a relação com o Taekyung apesar do pouco tempo de tela.

Apesar de eu ter elogiado a quebra de estrutura do dorama, eu achei que ele falhou um pouco na entrega aqui. Não sei se foi a mesma duração ambos os momentos românticos, mas, no final, pareceu que o Taekyung muito mais tempo com o Daon do que com o Shinwoo. Eles criam um desafio final, o concurso de beleza da escola (que se relaciona com o conflito principal do Taekyung lá no finalzinho), pra ver se conseguem um pouco de contexto pra esta aproximação e, mesmo assim, soa bem menos orgânico e verossímil que os momentos com o Daon no começo da trama.

E nem digo isto porque prefiro o Daon (a trama me convenceu que o Shinwoo é o melhor para o Taekyung mesmo, já que ele já se resolveu quanto a sua sexualidade, e o Daon tem que aprender a entender e expressar os próprios interesses antes de entrar num relacionamento), mas sim porque eu achei a entrega do Shinwoo tão adorável que deu vontade de isto ser tão bem desenvolvido quanto a outra possibilidade do triângulo.

Não sei se foi a atuação do Yoseok, mas o Shinwoo foi, de longe, o personagem mais fofo do dorama. Vê-lo conquistar uma proximidade com o Taekyung (e se atrapalhar todo no processo) foi algo muito relacionável e divertido de ver. A jornada do Shinwoo é similar a do Taekyung, já que ambas envolvem ganhar confiança para se expressar diante de outras pessoas, e, quando os vemos juntos, eles parecem ser mais compatíveis do que a outra possibilidade de casal. Assim, quando o Daon volta pra jogada, a relação entre os dois parece ser melhor.

Pensando agora, isto entra um pouco na dicotomia entre o que o personagem precisa e o que o personagem acha que precisa. Taekyung sente a necessidade de ter uma melhor desenvoltura social e fazer amigos, então é crível que ele se aproxime mais justamente de quem demonstra ter esta qualidade, Daon. Porém, conforme os dilemas internos dele são mostrados, nosso protagonista fica confuso sobre suas próprias preconcepções em relação a uma vida social mais ativa. Ele não acha necessário e nem saudável o excesso de gentileza que o Daon tem para com os outros, mas é só quando o vemos se aproximar de Shinwoo é que este descompasso fica mais aparente.

Isto porque Shinwoo também não vê esta necessidade e assim como Taekyung, é bem mais direto e sincero nas relações sociais da escola. Não tem uma cena sobre “músicas desconhecidas”, mas esta percepção nos faz sentir que eles são mais compatíveis. Quando uma narrativa consegue nos fazer sentir as coisas sem se preocupando mais em mostrar do que explicar o que está rolando, é quando ela se torna mais efetiva e memorável

Novamente, o dorama não subestima a capacidade interpretativa de sua audiência e, sutilmente, nos faz shipar Taekyung e Shinwoo, mesmo depois de termos torcido tanto pelo Daon.

Essa cena foi MUITO FOFA, ganhou o Taekyung aí, certeza!

Eu achei interessante que, apesar de ser uma trama romântica, o final da estória não é apenas sobre o romance. A pergunta inicial que o dorama traz para nós não é apenas sobre as paixonites do Taekyung, mas sim sobre a incapacidade que ele tinha de fazer amigos. Isto é pontuado em todas as idas e vindas do triângulo amoroso e eu achava que ia ser esquecido (porque em muitas estórias de romance, o que não é casal é esquecido), mas o enredo faz questão de nos lembrar colocando o protagonista, literalmente, DE FRENTE com seu problema: ele tem que se apresentar pra escola INTEIRA.

Claro que ambos os interesses românticos ajudam o Taekyung a conseguir se apresentar, mas só temos a escolha entre Daon e Shinwoo quando o Taekyung resolve seu arco de personagem. Isto é uma mensagem MUITO LEGAL pra se ter em uma estória romântica. Antes de mergulharmos em um relacionamento, é saudável estarmos bem com nós mesmos, e o dorama faz questão de deixar isto bem claro (como eu disse sobre o próprio Daon mais em cima). Querendo ou não, nos espelhamos um pouco nossa vida romântica nas estórias que curtimos e dá um calorzinho no coração ver algo tão saudável assim dentro de um BL (ainda mais coreano).

Com tudo resolvido, o Shinwoo ganhando o coração do Taekyung no final e o Daon e a Sohee tendo um mínimo de resolução, a trama poderia acabar que tudo já estaria certo. Ainda assim, o dorama resolve ir um pouco mais longe e nos entrega coisas inesperadas pra um BL Coreano.

Ele encerra, na verdade, na construção de um contexto estranho (uma festa de aniversário pro professor que referencia uma comemoração semelhante para o Taekyung) que só faz sentido com o gancho que deixam para uma segunda temporada. O jogo tem um spin-off em webtoon focado na vida romântica do Haebit com um jovem professor chamado Taesung. Considerando que a produtora já fez segundas temporadas para outros doramas, não é improvável pensar que Light On Me 2 possa ver a luz do dia ano que vem (ainda mais com a resposta super positiva da audiência com o dorama).

Só eu achei este momento muito estranho? (visualmente falando)

E, claro, voltamos para a cena inicial da praia (com a inclusão da Sohee que não tava no começo… Achou que eu esqueci né, KOK TV? 👀) com um beijo. Eu não imaginava que iria ter um a esta altura do campeonato, ainda mais um que soasse tão… real em comparação a estética meio pura e limpa demais que o resto do dorama tinha.

Eu tenho um certo problema com doramas coreanos pós-2015 porque muitos deles caem neste problema estético que deixa tudo plástico demais. É muito reboco na cara, é tudo harmonicamente colorido, é tudo perfeitinho DEMAIS. Isto afeta um pouco a verossimilhança do negócio e traz uns momentos meio bizarros, como a maquiagem pra fazer um machucado no Taekyung na viagem escolar:

Olha esse sangue, mano x,x

É uma escolha artística que funciona em formatos mais curtos (como um clipe de k-pop), mas se torna excessivamente planejada em um formato tão longo quanto um dorama.

Enfim, o beijo foi bem mais verossímil que muito dorama tailandês por aí e isto é louvável demais pra um dorama coreano atual (seja BL ou não). Recomendo, inclusive, assistir os bastidores dessa cena (o que até ajuda a entender o porquê o Shinwoo vai com tudo e o Taekyung fica com cara de peixe kk).

Assim o dorama se encerra respondendo criativamente a pergunta inicial que Taekyung nos dá: o primeiro amor foi o Daon, mas ele, no final ficou com o Shinwoo. Envelopando o negócio de forma que valoriza o romance E a amizade como fatores significativos para tornar a vida do Taekyung mais colorida.

Light On Me é um típico caso que a baixa expectativa faz a gente gostar MUITO do resultado final. Apesar da maior duração dos episódios em comparação a outras produções coreanas, eu não dava NADA para a premissa e imaginava que seria um clichêzão mal trabalhado. Quem diria que teríamos uma estrutura narrativa tão sofisticada, um triângulo amoroso bem feito e uma personagem feminina que realmente tem impacto e sofre transformações na trama?!

Eu fiquei encantado com este BL e acho que entrará tranquilamente no TOP5 de melhores BLs do ano, com a possibilidade, ainda, de termos uma segunda temporada que não focará no casal principal! (ou seja: sem tramas de traição a toque de caixa por aqui xD). O único problema é que a expectativa para os doramas coreanos subiram MUITO depois deste e todos os que vierem agora vão ter de se esforçar pra entregar tanto. Com vários webtoons BL já confirmando uma adaptação no mesmo formato de Light On Me e com Peach Of Time já estreando, me pergunto se este será um caso de exceção ou uma obra que vai influenciar positivamente todas as que virão depois xD

Confira as outras BL Reviews do Aquário Hipster clicando aqui ^^

O Aquário Hipster também tem Twitter!! Segue lá se quiser ir dissecando doramas BLs comigo kkkk: @AquarioHipster

PS: Este foi o primeiro post em que escolhi calmamente as imagens pra ilustrar e ficar bonitinho, depois me fala nos comentários se teve diferença na experiência de leitura xD

4 comentários em “Light On Me: A Receita para um Bom Triângulo Amoroso | BL Review

  1. Amigo! Eu curti muito sua resenha! Tá muito bem escrita e detalhada, e as imagens contribuíram muito positivamente pra leitura!

    Eu concordo SUPER com você sobre o final do desenvolvimento do Daon. Tava indo mega bem, até que meio que acaba do nada. Achei que faltou um fechamento melhor, sabe?

    Sobre a Sohee, também concordo. É uma das poucas vilãs femininas de BL que eu não termino odiando. Kkkk O desenvolvimento dela foi maravilhoso.

    A sutileza de como a história vai fazendo a gente gostar do Shinwoo é tudo, né? Eu tentei passar um pouco isso no meu edit, essa transição.

    Por fim, essa coisa de o drama fazer a gente sentir no lugar de precisar explicar é muito real, também. Eu senti tudo muito intensamente com Light on Me. Eu tive uma história um pouquinho parecida no meu Ensino Médio e pude me relacionar muito, porque o desenrolar não é forçado.

    Parabéns pelo post amigo ❤

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigadoo, migo 💖

      Essa identificação com a trama faz a gente amar (quando é feito direito) ou odiar (quando não é) um dorama kk É bem legal que Light On Me conseguiu despertar tudo isso na gente, né? xD

      E obrigado por comentar tbm :3

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