Killing Me, Chung Ha: Descascando as camadas de um estado depressivo

Eu QUASE esqueci da Chung Ha neste ano. A mulher lançou um álbum ENORME, em que mergulhou profundamente nos vários estilos que vem apostando (ela até chamou um rapper porto-riquenho pra cantar latinidades em espanhol com ela!)… em Fevereiro. Meses se passaram, lançamentos se acumularam e eu (assim como muita gente por aí) quase que se esqueceu de ouvir mais uma vez o Querencia pra decidir o que entra ou não do catálogo dela na lista de melhores do ano… E foi um só “quase” porque a mulher surgiu do nada pra promover um single solto nesta semana:

Não tem como eu falar desta música sem ficar um pouco emocional. Killing Me começa como uma faixa veranesca com inspirações de dancehall e vai crescendo alegremente tanto no clipe quanto na entrega adocicada da Chung Ha até o primeiro refrão… Quando as coisas começam a desandar.

Visualmente, isto é representado pelo recebimento de uma matryoshka e pela abertura de sua primeira camada. Sonoramente, é representado pela entrada violenta de sintetizadores de EDM que destoam do resto do crescendo, acrescentando uma camada mais melancólica a construção inicial. Com isto, tudo vira de cabeça pra baixo e a faixa se transforma em um dance-pop de sofrência, com a voz antes adocicada parecendo frágil e os visuais alegres e coloridos se contrastando com cenas sóbrias e tensas.

A partir daí, a faixa vai se reutilizando deste processo conforme Chung Ha vai puxando mais camadas da matryoshka, revelando um instrumental e vocais mais caóticos, assim como bonecas cada vez mais deterioradas.

Na real, isto é muito semelhante ao processo de ir na terapia e começar a lidar com seus piores receios consigo mesmo. Quando mais sessões você faz, mais camadas você vai tirando, conseguindo entender melhor seu próprio eu e lidando melhor com suas decepções, mas, como o clipe mostra, não chega a ser um processo fácil, ainda mais se você tá numa “zona de conforto” que mascara suas reais emoções durante a rotina.

Eu estou escrevendo esta maratona de posts (todos os post desta semana eu escrevi em sequência na mesma manhã e agendei pra postar depois) em meio a este exato contexto de culpa e dor e vontade de desaparecer pelos erros que cometo comigo mesmo e pela forma como ainda os repito mesmo tendo consciência do quão são danosos pra mim emocionalmente. Este segundo semestre num geral vem sendo bem difícil pra mim por tudo que vem acontecendo aqui em casa (e como parece querer me distanciar ainda de completar a transição de carreira que tô passando) e Killing Me coloca este processo na minha frente, as claras, em formato de música para eu comentar aqui no blog.

Este sentimento, até onde eu sei, é uma forma de estado depressivo (que, apesar de ser um dos sintomas da depressão, aparecendo não é suficiente para dizer que a pessoa está com depressão) e bem, acaba com a gente. Está acabando comigo. É mesmo como uma espécie de “morte do eu” como o título sugere, seja no lado positivo de renascer como algo melhor (depois que a dor passar e a “zona de conforto” que te faz mal for embora) seja no lado negativo de esvaziamento e agonia que esta ideia causa.

Ver Killing Me estando passando por este mesmo processo é meio doloroso e aliviante. É doloroso porque traz estes dilemas mesmo num momento de distração em que estou me distraindo JUSTAMENTE pra não pensar nisso. Mas é aliviante porque traz a mensagem implícita de que, confiando no processo, tomando consciência do que te faz mal e lentamente parando de se culpar pelas coisas, estaremos bem o suficiente para cantar e dançar sobre isso. A Chung Ha que aparece no final do clipe, depois que todas as camadas foram descascadas, não é uma Chung Ha infeliz. Ela está lá, mais forte e sincera consigo mesma.

É este “eu” que eu espero encontrar em 2022.

Killing Me - Single by CHUNG HA | Spotify

Eu fiquei bem emocional escrevendo sobre, porque esta uma mensagem que pegou muito forte no primeiro minuto que vi do clipe (a parte final em que aparece “nothing is for me” pegou tão forte, sério…). E eu sou muito fã de músicas que conseguem ter este diálogo comigo (tá Zombie do Day6 como melhor música de 2020 aqui do Aquário como prova), então, pra mim, Chung Ha acertou E MUITO com este single solto. Não só nos fez lembrar do Querencia as vésperas da montagem de listas de final de ano, como também fez isto a partir de um de seus trabalhos mais emocionalmente profundos até aqui.

O Aquário Hipster também tem twitter! Segue lá: @AquarioTutu

3 comentários em “Killing Me, Chung Ha: Descascando as camadas de um estado depressivo

  1. caramba, isso foi bem profundo amg…
    eu tbm tenho esses mesmos sentimentos de me culpar pelas coisas, de me cobrar demais, de mascarar as minhas emoções e fingir que tá tudo bem, pensar demais e eu acabo só me frustrando, ainda mais com a pandemia em que eu acabei ficando mais perdido dq antes e sem muitas esperanças de um amanhã esperançoso, mas eu tento de vdd só que é tudo mt difícil e doloroso nesse processo.

    Curtido por 1 pessoa

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